A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – 17

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A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR

Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira*

 

60. Da impossibilidade de se assistir a um filme francês até o final

À beira de um ataque de choro, Aroeira deixou cair a cabeça. Tivera três suspeitos debaixo do olho, mas eles haviam tirado o corpo fora. O pobre policial brasileiro sentia que estava sendo enrolado e se desesperava por isso.

Apiedado daquele que era o meu único compatriota ali, aproximei-me dele e murmurei:

– Ainda não acabei de ler minha relação de suspeitos, delegado.

Aroeira voltou-se na minha direção e o olhou-me de um modo estranho. Levou algum tempo para reconhecer-me.

– Sim, Campestre – disse, por fim, sem convicção. – Leia o nome do próximo acusado.

– A terceira da minha lista é lady Águeda Christine – anunciei com voz firme. – Ela começou a se incriminar quando defendeu no início das investigações a tese do envenenamento das folhas da Bíblia. Desconfio que seja cúmplice de dona Fedorova. Cúmplice ou mentora! Não acredito em simples coincidências.

– Eu também não – concordou Aroeira. – A senhora Águeda teria algo a nos dizer sobre isso?

– Uai, admito que é coincidência estranha demais da conta. Mas é muito pouco provável que uma aristocrática e culta dama britânica possa ter ideias semelhantes às de uma russa de baixa extração.

Aroeira voltou-se para mim:

– Continue, com as acusações, promotor!

Lady Águeda garantiu que dona Miguela havia sido assassinada quando a porta de seu quarto já estava fechada. Insistiu nisso com muita segurança. Por que teria essa convicção?

O delegado dirigiu-se à a escritora inglesa:

– O que a levou a pensar assim?

Águeda Christine fuzilou-me com os olhos antes de responder:

– Elementar, uai! Eu vi o gerente abrir a porta do apartamento e Miguela estava lá dentro, morta. Raciocinei logo: foi assassinada com o quarto fechado. Reconheço que é uma hipótese sofisticada, inaceitável num país primitivo. Mas apostei nela porque, afinal, aqui estão reunidos escritores de livros policiais. E mesmo os escritores mais imbecis são mais espertos que a média das pessoas…

Reunindo coragem, decidi interrompê-la:

– Lembro que o senhor Georges Sim Et Non insinuou que a senhora odiava mortalmente dona Miguela por causa do sucesso que ela teve com a adaptação cinematográfica dos seus romances.

A escritora inglesa explodiu numa gargalhada pouco britânica, contorceu as mãos cheias de anéis e sacudiu negativamente a cabeça de cabelos azuis:

– Eu me recuso a responder a insinuações de um francês. O que um francês pode saber sobre cinema? Quem consegue assistir a um filme francês sem sair correndo antes do fim?

Depois de comemorar com um cacarejo a piada que fizera, a escritora da pérfida Albion continuou a falar:

– Este interrogatório estúrdio está me fazendo perder a elegância. Mas quem leu meus livros sabe que os interrogatórios ingleses transcorrem sempre em clima de alta civilidade. As pessoas vão sendo paulatinamente acusadas. As suspeitas ora convergem ora para um, ora para outro. Aí, de repente, quando o leitor acha que identificou o assassino, eu puxo o tapete. Aparece então o verdadeiro culpado. Mas o que estamos vendo aqui? Seis escritores, um policial, um repórter e um português. O que têm em comum? Estão bêbados como bodes. Pergunto: o que se pode esperar de um trem desses?

Aroeira deu um mais murro de mão fechada na mesa:

– A senhora pode ser mais chique e coisa e tal, mas, no fundo, só quer tirar o corpo fora! Porém, se acha que vai escapar da cadeia porque no Brasil só os pobres vão em cana, está muito enganada!

61. Eu só acredito em heróis loiros de olhos azuis

Antes que Aroeira me pedisse o nome do suspeito seguinte, uma figura pequena, entalada num terno preto, levantou-se do outro lado da mesa.

– Palavras servem mais para enganar do que pra apontar a verdade – filosofou Foo. – No Oriente também é assim, mas nós, pelo menos, botamos um pouco de poesia no meio: flores, pássaros e luares. Todos nós nos perdemos na escura floresta das palavras, manos. Mas o que diferencia um escritor de um homem comum é que o escritor sabe escapar do intrincado labirinto das frases sinuosas. Ele segue a exata e reta rota das palavras e acha a saída, mesmo que ela esteja próxima da porta da cadeia. Sacou, meu? Delegado, o senhor está tentando agarrar com a mão um peixe ensaboado.

– Belo discurso – constatou o policial, seco. – Pelo visto, o senhor também pretende irar o corpo fora. É isso mesmo?

– Brasil e China são países amigos – disse o risonho escritor. – Por isso, vou auxiliar o senhor a desvendar o caso. Quando eu entrei no apartamento 1313, notei que a mantilha de dona Miguela estava abaixada num ponto. Pensei: ôrra, mano, essa velha levou uma cacetada na cabeça! O assassino mais frio sempre ataca na cabeça.

Adensou-se o silêncio. Os escritores não estavam gostando daquela conversa porque o chinês parecia disposto a falar a verdade, o que para todos eles era inaceitável.

– Orientais são mais pacientes. Temos mais saco, mano, entende? Calmamente, com muita atenção, examinei o tapete. Encontrei estranhas marcas de sapato, sapato de senhora, com salto alto e ponta fina. Percebi que as marcas desses sapatos quando avançavam para dona Miguela eram diferentes das marcas desses mesmos sapatos quando eles deixavam o apartamento. Entendi então, mano, que ao se aproximar de dona Miguela, a dona do tal sapato fazia mais pressão sobre o pé direito. Depois, ao sair dali, apressada, essa mesma pessoa deixou marcas que se inclinavam para esquerda. Que puta mistério, meu! Aí a verdade apareceu inteira diante de mim: uma senhora tinha entrado no apartamento carregando um troço pesado na mão direita e saído depois, às pressas, levando esse mesmo troço na mão esquerda…

Nesse ponto a narrativa foi cortada por um espirro nervoso de Batota.

– Passei então a examinar a cabeça de dona Miguela – continuou Foo Lee Shi Man, – Logo percebi que a idosa senhora havia sido ferida por algo arredondado como… Halteres! Pensei: puta, mano, usaram o meu próprio halter pra matar a espanhola!

Aroeira lançou-me um olhar esperançoso, um olhar que falava: agora vai!

Eu, porém, gato escaldado, tinha dúvidas. Preconceito meu, reconheço. Desde que me conheço por gente vejo filmes em que os orientais são sempre os bandidos. Quero dizer, nos filmes americanos os bandidos são sempre asiáticos, russos, alemães, índios, africanos e latinos. Reconheço que o cinema americano fez mal à minha cabeça: eu só acredito em heróis loiros de olhos azuis, preferencialmente protestantes.

62. Silenciosos como gatos de pantufas

– Halter? – perguntou o delegado. – Que bicho é esse?

– É um treco de fazer ginástica – explicou Foo. – É uma haste com bolas de ferro nas pontas.

– Sei. Mas por que o senhor trouxe um treco desses pra cá?

– Nas minhas viagens, sempre carrego um halter para me exercitar.

– Volte à sua investigação – ordenou Aroeira, impaciente.

– Aí, mano, quando cheguei à conclusão de que o meu halter havia sido usado no crime, levei um puta susto. Tremi na base, meu. Lembrei então de um negócio estranho que tinha acontecido pouco antes. Eu havia esquecido meu halter no restaurante durante o almoço, mas ele, misteriosamente, reapareceu depois no meu apartamento…

O delegado Aroeira sacudiu-se como se tomado por calafrios e disse:

– Vamos por partes, seu China, que estou ficando zonzo. Voltemos aos sapatos. De quem seriam os tais sapatos de salto alto?

– De lady Águeda Christine ­- respondeu o sempre sorridente chinês. – Aliás, ela está com eles neste exato momento.

Todos os que se encontravam à mesa voltaram-se, num só movimento, para a escritora inglesa, que permaneceu impassível.

– O senhor está querendo me dizer que essa velhinha de cabelo azul matou a centenária com um halter? – questionou o policial.

O chinês não pode responder porque a escritora inglese se intrometeu na conversa:

– Esse senhor oriental tem razão. Por incrível que pareça, ele chegou à verdade. Sim, entrei no apartamento de Miguela com um halter na mão direita e de lá saí com ele na esquerda. Mas não fui lá com a intenção de matar Miguela, não! Tratava-se apenas de uma aposta…

– Mais uma aposta, meu Deus do céu? – lamentou-se Aroeira.

O delegado estava lutando bravamente contra o choro. Seu desespero era visível, genuíno e comovente.

– Uai, foi isso mesmo! – prosseguiu a autora nascida no Reino Unido. – Nós, anglo saxões, adoramos apostar. Neste nosso caso, foi uma aposta inocente…

– Inocente? – espantou-se o delegado. – Como foi essa aposta?

– A gente vinha de camionete do aeroporto para este hotel. De repente, Miguela se virou para mim e debochou: “Admiro seus assassinos, Águeda, porque eles todos são silenciosos como gatos de pantufas”. Eu virei pra ela e retruquei: “Bobinha, meus assassinos são com eu, que não faço ruído ao caminhar”. Ela virou para mim, riu e disse: “Se você é a pessoa mais silenciosa, eu sou a que tem o melhor ouvido, pois escuto até a grama crescendo”. Então, eu me virei para ela e disse: “Aposto que me aproximo d´ocê sem qu´ocê perceba”. Aí ela virou para mim e disse: “Ninguém se aproxima de mim sem que eu perceba”.  Eu virei pra ela e falei: “Quand´ocê notar minha presença vai ser tarde demais da conta, ocê já estará morta”. Ela riu muito e estendeu a mão pra mim: “Vamos fazer uma posta: tente se aproximar de mim sem que eu perceba. Mas não seja burra. Se me matar, ocê ganha a aposta, mas não leva a grana”.

A ficcionista inglesa colocou a mão diante dos olhos e contemplou um bocado seus muitos anéis antes de continuar.

– Hoje, depois do almoço, quando vi aberta a porta do apartamento de Miguela, lembrei da aposta. Parei no corredor. Ela estava lendo bem quietinha. Resolvi me aproximar dela levando na mão um cortador de unhas, que representaria uma arma. Mas, ao abrir a bolsa, minha mão bateu em algo duro. Era um halter de três quilos que eu havia achado debaixo da mesa enquanto almoçava. Decidi empunhar aquele trem pra dar mais realismo à cena. Aí, pé por pé, entrei no apartamento dela. Mas eu estava com as mãos molhadas de suor. De nervosismo. Bem rapidinho me aproximei-me dela, por trás. Levantei o peso sobre a cabeça dela. Quando fui chamar, pra que ela visse que tinha perdido a aposta, o halter resvalou da minha mão úmida. O trem acabou batendo na cabeça de Miguela, que não reagiu. Achei que ela tinha desmaiado. Saí dali imediatamente, triste por ter sido desastrada. Saí sem cobrar os dez mil dólares da aposta.

– A senhora assume a autoria da morte? – perguntou um vacilante Aroeira.

A resposta foi imediata:

– Quando soubemos que Miguela estava morta, cheguei a pensar que tinha matado a pobre mulher… Mas agora tenho certeza de que não a matei. Quando o ferro bateu na cabeça dela, a bichinha já estava morta. Duas vezes morta, pra ser exata. Já tinha sido envenenada por Fedorova e pelo dardo de Sim Et Non.

63. Breves considerações em torno da palavra bofetada

O delegado soltou um suspiro que consumiu um minuto e meio entre o seu começo, sibilante, e o seu final, gutural. O mais tocante suspiro de desalento que presenciei até hoje. Depois, lentamente, voltou-se para o escritor chinês:

– O que fazia a bosta do seu halter debaixo da merda da mesa do restaurante?

– Aproveito o almoço pra fazer exercícios, mano. Boto o halter no peito do pé e fico levantando. Fortalece a panturrilha.

Um tique nervoso repuxou com violência o rosto de Aroeira. Acostumado a enfrentar bandidos chinelões, sentia que pela primeira vez na sua vida profissional estava encarando suspeitos muito mais espertos que ele.

Batota resolveu solidarizar-se com o delegado:

– Todos aqui estão a tirar o cavalinho da chuva, como dizemos em Portugal. Estão a tirar o corpo fora, senhor doutor Aroeira. Sugiro-lhe que aperte o chinês! Seja duro, que ele certamente confessará. O senhor doutor delegado precisa de um culpado para encerrar este caso. Sem culpado, os jornalistas vão escrever reportagens exigindo a vossa demissão.

Aroeira aprumou-se. Levantou o queixo, ajeitou os ombros e encheu o peito de ar. As frases do português tinham injetado nele a adrenalina de que necessitava para fechar o interrogatório. Então ele estendeu o braço direito na direção do chinês e falou com uma voz que era um verdadeiro trovão:

– Até agora o interrogatório foi público, mas eu posso transformá-lo em reservado, o que é sempre ruim para a saúde dos depoentes. Em geral, só costumo começar as perguntas após o que chamo de bofetada inaugural. O senhor chinês conhece o significado pleno da palavra bofetada?

– Seria o mesmo que tabefe? – indagou Foo Lee Shi Man. – Lá em Macau, quando eu era menino, usávamos também outros sinônimos: bofete, bolacha, lapada, chapuletada ou tapa de mão aberta…

– É exatamente isso! – entusiasmou-se Aroeira. – A bofetada não visa ferir o interrogado, não. Serve apenas pra desmoralizá-lo. Porque pior que a propriamente dita é o estalo da mão espalmada na bochecha. Esse forte estalido nas proximidades do ouvido incomoda bastante o interrogado. Agora, falando em termos gramaticais, eu, pessoalmente, não gosto da palavra bofetada. Minha preferência vais para formas mais concisas, como tapona ou bifa…

– Prefiro confessar em público – apressou-se o chinês a dizer. – A verdade, mano, é que eu também contribuí para a morte de Miguela de Alcazar.

– Foi por causa de uma aposta maluca também? – perguntou Aroeira, ressabiado.

– Infelizmente, foi. No aeroporto do Rio de Janeiro, lady Águeda me disse: “Foo, para mim, um dos maiores mistérios do mundo é a mediocridade chinesa. Vocês são o povo mais numeroso da terra, mas contribuíram pouco para a história da humanidade”. Eu respondi que o mundo de hoje só é como é por causa dos chineses. Lembrei a ela que inventamos a pólvora e que, sem ela, e sem as guerras, a população da terra seria ainda mais numerosa. Falei ainda do macarrão, do papel e da bússola. Então dona Miguela comentou: “Por que um povo que criou quatro coisas importantes no passado vive hoje só copiando o que fazem os outros povos?”

– Escutando isso, você ficou com raiva e decidiu matá-la? – concluiu Aroeira.

– Não. Eu retruquei dizendo que as grandes invenções chinesas eram cinco. Pólvora, papel, macarrão e bússola e mais uma, nova, bem recente. E lancei um desafio: “A senhora deveria conhecer a quinta invenção porque se trata de uma maravilhosa técnica de assassinato”. Dona Miguela me respondeu com arrogância: “É claro que sei do que se trata. Use essa tal técnica contra mim. Se eu não o desmascarar no momento em que estiver me atacando, não me chamo Miguela de Alcazar”.

– Qual é a quinta invenção chinesa, afinal? – o delegado mostrou-se interessado.

– O gás paralisante inodoro. Por acaso, eu trazia comigo uma grande ampola com esse gás. Então hoje, por volta da uma hora, enfiei pelo buraco da fechadura do apartamento de dona Miguela uma agulha de seringa hipodérmica e injetei o gás, como ela havia pedido…

– Mas esse gás é mortal?

– Quase sempre, mano. Dependendo da umidade relativa do ar e da temperatura.

– Mortal ou não, o que importa é que o senhor tentou matar dona Miguela!

*Jornalista e escritor.