ARTIGO – ZONA DA LUZ (PARTE 2)

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Quadro feito a partir de uma fotografia da antiga igrejinha da Luz, encomendado por José Cordeiro de Araújo à artista plástica Cristiane Carbone, especialista em retratar prédios antigos. Arquivo pessoal.
Lourenço Cazarré. Foto: José Cruz.

ZONA DA LUZ (2)

Lourenço Cazarré*

Meu avô também me contava histórias depois do almoço, quando eu me deitava com ele, por ordem da minha avó, que exigia de mim que descansasse “pra baixar a comida”.

O vô se concentrava mais nuns causos engraçados da revolução de 1923, na qual participou como soldado raso da Brigada. Mas uma vez me relatou uma história sangrenta. Ele teria visto um piloto de um aviãozinho cortar ao meio, com uma rajada de metralhadora, um soldado do seu batalhão.

João Carlos Cazarré em 1946. Foto: Arquivo pessoal.

Como meu avô era um baita atochador (assim chamávamos os mentirosos antigamente) e eu sou analfabeto em história aeronáutica, sigamos em frente sem verificar a veracidade do causo.

Ouro Pelotense e papel Colomy

Lembro do cheiro do meu vô nessas sestas forçadas (eu odiava dormir depois do almoço): uma mistura de loção pós-barba com fumo (Ouro Pelotense) que ele tragava enrolado em papel Colomy.

O Pepino soterrado

Minhas memórias mais fortes e mais numerosas são as vividas na casa da Rafael Pinto Bandeira, a rua que cruzava o canal do Pepino, que agora, soterrado, transformou-se em uma larga avenida, chamada Juscelino Kubitscheck.

Lourenço, aos 11 anos, menina não identificada e Beatriz Helena Petiz. Foto: Arquivo pessoal.

Miloca

O personagem mais marcante da Pinto Bandeira desfilava por ela todo final de tarde, vindo lá de baixo, do Pepino. Era um senhor gorducho, baixote, que caminhava de um jeito engraçado, meio que se rebolando. Carregava sempre uma sacola, apertada contra o peito. Seu cabelo curto, ralo, era pintado de um amarelo refulgente.

O destino desses passeios vespertinos era a padaria do seu Murtosa, na Quinze com Padre Felício, onde o pão era sensacional, garante o jornalista José Cruz, que morou por muito anos na Zona da Luz.

Um dos homossexuais mais famosos da Atenas Sul-rio-grandense na época, Miloca era figura divertida. Dizem os que o conheceram que era muito bem-humorado e ferino.

O azul dramático

Certos fofoqueiros juram que, naquela época sem hotéis para esfregações ligeiras, o Miloca até alugava uns quartos na casinha onde vivia, no número 51 da Pinto Bandeira, quase em frente ao Abriguinho de Menores.

Uma casa que, aliás, se destacava por ter a porta da frente pintada com um azul dramático.

Miloca, Corcel, Judite e Alfredinho

Ao lado de outras figuras populares inesquecíveis como Judite, Alfredinho e Corcel, o Miloca foi imortalizado em música – Mistérios do Bule Monstro – de Kleiton e Kledir e deste locutor que vos fala.

Haidée

Colaboradores me advertiram que o artigo não ficaria completo se não mencionasse a Haidée. Aqui vai:

Pensão em brasileiro significava casa que aluga quartos para estudantes ou famílias, mas em pelotês era a tradução exata da francesa cabaret.

As maiores pensões de Pelotas eram, na verdade, clubes noturnos, alguns dotados de bandas próprias, onde rapazes e senhores dançavam, bebiam e se divertiam em companhia de moças que – mesmo não se divertindo – dali arrancavam o sustento.

As principais pensões pelotenses eram conhecidas pelos nomes das proprietárias: Tecla, Haidée, Sarita, Morena, Carminha, Julinha Tecla, Turca e Maria Odete.

A Haidée ficava ao lado do Clube Brilhante.

As pensões desapareceram de Pelotas e do Brasil nos anos 1960.

Brilhante

Vamos agora dar uma chegada no Brilhante. Laura de Castro Lopes, mãe do jornalista Carlos Eduardo Beherensdorf, tinha o título de número sete daquele clube. O menino Carlinhos lembra que, nos primórdios, quando o Brilhante ainda não tinha sede própria, lá pelos meados dos anos 1940, os bailes dos seus associados eram realizados no pavimento superior da Associação Comercial.

Recorda ainda que artistas consagrados nacionalmente ou mesmo internacionalmente, quando se apresentavam em Montevidéu, davam uma passadinha pelo Brilhante em Pelotas. Foi o caso, por exemplo, de Gregório da Barrios, com o qual o jovem Carlos Eduardo fez questão de tirar uma fotografia.

Pulemos para os anos 1960. A data mais aguardada pelos jovens sócios do clube, rapazes e moças, naquela época, era o primeiro de dezembro, dia em que a piscina, de água fria, era aberta. Havia os amantes da natação, claro. Mas pode-se dizer que a maioria dos marmanjos e das gurias estava mesmo interessada em descobrir as melhorias ou eventuais avarias causadas pelo longo inverno no contorno de suas paqueras.

Até tu, Zona da Luz!

Embora sendo bairro de respeito, até mesmo a Zona de Luz padeceu dessa verdadeira praga nacional que é o futebol.  Permitiu que vicejasse em seu recatado seio um clube para a prática do esporte bretão: o Caiçara Futebol Clube.

Aliás, um escrete que já nasceu mal recomendado porque foi gerado, entre goles de destilados a partir da cana, em um bar famoso – A Groenlândia, pilotado pelo seu Edgar – que funcionava no encontro de Antônio dos Anjos com Anchieta. Nesse clube atuaram jogadores criados ali pelas nas redondezas.

Meu amigo José (Zé) Cruz, jornalista esportivo consagrado nacionalmente, passou cinco minutos me enfileirando nomes dos atletas mais destacados do Caiçara.

Vamos a alguns deles: Heleno Varela, que chegou a fazer testes no Botafogo, no Rio; Oswaldinho Langlois, que jogou no Farrapo, dono de uma bomba na perna esquerda; Mário Franco; Antoninho Abib e Wilson Wasieleski (que conheci, ambos amigos do meu tio Milton); Jorge Burkert, dentista; Neucy Bório, professor de educação física; Lahorgue; Colmar Pereira; Zé Rocha, vulgo Zé Barba Roxa; Camilo; os irmãos Granada, Celso e Maninho; o vereador Mansur Macluf, Paulo Roberto Macedo Machado (Patê), Coreia (cujo primeiro nome era Uirapuã); Fula; Canelão e José Carlos Soares, que, além de craque, é meu informante.

Também militou naquela agremiação um amigo meu, o jornalista Sérgio Siqueira, vulgo Narighetta.

De bucho cheio

Zé Cruz foi tesoureiro do Caiçara por um bom tempo. Cabia a ele arranjar o caminhão que levava os atletas, nos domingos, aos lugares distantes – Monte Bonito, por exemplo – onde eram realizados os rachas.

Para atender aos convites que choviam – a maioria vinda da zona rural -, o Caiçara tinha uma exigência: queria almoço de graça. Só depois de um belo regabofe, mais ou menos umas duas horas depois, quando a comida já tinha assentado, os craques da Luz metiam suas chuteiras em campo.

Caminhão Studebaker igual ao que transportava o Caiçara. Foto: Internet.

Pagamento adiantado

Uma rima: chamava-se Seu Caramão o homem que se arriscava a transportar esses barbados no seu caminhão.

 Antes do embarque, ele cobrava a passagem dos atletas. Se deixasse para receber na volta, depois que os caras passassem por um boteco da metrópole visitada, ficaria a ver navios em plena zona colonial.

O caminhão, um Studebaker dos anos 1940, só pegava na manivela. E recusava-se a enfrentar sozinho as subidas mais inclinadas. A rapaziada tinha que descer e ajudar o resfolegante veículo a vencer o repecho.

Pancadaria

Mas havia uma nódoa na reputação do Caiçara. Jogo em que atuasse o Narighetta – filho de um homem equilibrado, o doutor Juliné – nunca acabava sem pancadaria. Em algum momento da partida, o referido mau elemento sempre dava início a uma movimentada troca de sopapos e pontapés.

Peleja e vias de fato

Em sua defesa, Sérgio Siqueira alega que “só ia às vias de fato” para defender companheiros mais fracos “vilipendiados no transcurso da peleja”.

A chaleira humana

Sérgio Siqueira relata que Mario Franco, num jogo em Monte Bonito, irritado por não receber a bola, cravou-se ostensivamente em pleno meio-de-campo com as mãos na cintura.

Contrariado, Heleno Varela reclamou: “O que isso? Pareces uma chaleira!”

Mario respondeu: “Tu só trocas bola com o Narigudo e eu fico aqui, encantado da vida. Que espetáculo lindo de se ver”.

O lugar mais visitado pelo Caiçara, segundo Sérgio Siqueira, era o Capão do Leão, onde o Heleno Varela tinha uma namorada. De tanto jogar por lá, ele acabou casando com a moça.

No balcão de A Groenlândia

Mais uma piadinha inocente contada pelo Sergio Siqueira:

Seu Edgar, dono no Groênlândia, apurado, precisou ir ao banheiro. Um dos frequentadores, Oswaldinho Langlois, se ofereceu para ficar atendendo a freguesia.

Nisso entra uma senhora conhecida, dona Zeca:

– Meu filho, me dá uma Coca-Cola família.

Prontamente, o solícito Oswaldinho entregou o garrafão de refrigerante. Mas, como era um rapaz extremamente gentil, quis saber:

– A senhora quer que embrulhe ou vai tomar aqui mesmo?

Equipe do Caiçara: Pedro, Coreia, Alemão, Casquete e Antônio Abib; agachados: Betinho, Mario Franco, Sérgio Siqueira, Heleno Varela e Uiraratã Marroni. Foto: Arquivo pessoal.

Cartolagem

José Cruz garante que, como todo grande time, o Caiçara tinha os seus cartolas, lá chamados A Turma da Velha Guarda, integrada pelo dono de A Groenlândia, seu Edgar, vascaíno roxo; pelo doutor (engenheiro agrônomo) Klebér Ramil (pai de duas moças sensatas e de quatro guris milongueiros) e pelo velho Monks.

As cores do Caiçara eram as mesmas do Esporte Clube Pelotas, apesar de haver muitos xavantes entre seus atletas. José Carlos Soares explica:

– Quando chegamos na loja o único uniforme que tinha dois modelos era auri-cerúleo.  Compramos um para o primeiro time e outro para o segundo. Mas só compramos mesmo porque era o mais barato.

Comemoração dos antigos atletas do Caiçara no ano 2000. Foto: Arquivo pessoal.

A prova

Para comprovar a existência do Caiçara, Zé Cruz anexou ao relatório que me enviou uma foto tirada no ano 2000, diante do local onde funcionou o bar famoso, em que aparecem uns trinta atletas e dirigentes daquele esquadrão.

Naquela data, esses homens todos prometeram de pés juntos que, a partir dali, fariam reuniões anuais para relembrar as glórias passadas. Mas não cumpriram a palavra empenhada. Inclusive porque, ressaltou Cruz, a Velha Com a Foice andou ceifando parte da rapaziada.

Uma miss

Já que passamos pelo A Groenlândia, cabe registrar que aquele estabelecimento tinha sua audiência ampliada entre meio-dia e treze horas quando os marmanjos, de bundas ou cotovelos encostados no balcão, refrescavam os olhos vendo passar as belas mocinhas – normalistas, futuras professoras de Primário – que estudavam no Assis Brasil.

Entre elas, destacou-se uma, escultural, chamada Vera Maria Brauner de Menezes, que chegou a ser Miss Brasil.

Estranheza: o curso que formava professoras “primárias” era o “Normal”.

Mais beleza

Um famoso playboy inglês que viveu em Pelotas nos anos 1960, Sir John Saint Cross – hoje residindo em Brasília, onde é chamado Lorde das Cidades-Satélites – me enviou um lacônico telegrama:

– Registre no seu artigo que, para mim, as duas grandes beldades da Luz eram Cleinha Weimar e Virgínia Cazaubon.

O nosso maracanã

Voltemos ao futebol. Um dos meus colaboradores, que pediu anonimato, por medo de represálias, me informou que havia, sim, um campo de futebol na Zona da Luz. O gramado não era dos melhores, tanto que o espaço era conhecido, entre seus frequentadores mais assíduos, como Maracalombo.

O gramado sem grama ficava exatamente em frente ao pavilhão (recinto amplo para práticas desportivas e cerimônias patrióticas) do Assis Brasil. Nesse local, hoje, há um edifício.

O Maracalombo funcionou no tempo em que a rua Gonçalves Chaves ainda se chamava Doutor Edmundo Berchon, a Berchon, para os íntimos.

Pausa para irmos até a Vila do Sapo

Nas manhãs de sábado, depois da escola (tínhamos aulas entre as oito e dez da manhã), eu seguia o sinuoso Pepino até o ponto em que ele era cortado pela rua General Neto. Ali, onde havia outro pontilhão, virava à esquerda e me dirigia à casa das tias Lilía e Dadá, onde passaria o final de semana.

Certa vez assisti, na beirada do Pepino, no local onde ficava a Vila dos Agachados, no meio do trajeto entre a Luz e a Sapolândia, a prisão de um homem – que seria um borracho encrenqueiro – por um soldado da Brigada.

Vi quando o brigadiano trocou seu uniforme por roupas civis, com um morador da Vila, e se encaminhou, fazendo-se de sonso, até o homem, que ele, atacando pelas costas, acabou por prender.

Narrei essa história – “Um só corpo, corcovado, imenso” – em uma coletânea de contos intitulada Ilhados.

Aliás, por falar em Vila dos Agachados, que era um ajuntamento de casinhas precárias, baixas, daí o nome, no final (ou início) da Argolo, devo informar que sediei por lá um conto (“A coisa mais tremenda que já vi”) do livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza.

A tia passeadeira

Na Vila do Sapo. Operária da Fábrica de Tecidos desde muito jovem (assim como o foram sua mãe, Henriqueta, e sua tia, Emília), a tia Lilía era louca por passeios.

Todo final de semana ela arranjava divertimentos para sua filha única, Lúcia, e para minha irmã e eu: aniversários, crismas, batizados, casamentos, visitas a parentes internados – dizia-se “baixados” – na Beneficência Portuguesa e até mesmo velórios.

O homem dos letreiros luminosos

Voltando à Luz. Na Rafael Pinto Bandeira, na casa vizinha a do meu avô, vivia um senhor, seu José Beck, que tinha uma profissão curiosa. Ele era o encarregado de, nos finais de tarde, atravessar o centro acendendo os letreiros luminosos de muitas das principais lojas da cidade.

Mais tarde, lá pelas onze ou meia-noite, sempre montado em sua bicicleta, ele tornava a passar pelos mesmos locais para desligar os letreiros.

Não estou bem certo, mas acredito que seu Zé Beck era também o construtor daqueles letreiros de acrílico.

Seu José tinha quatro filhos: duas meninas e dois meninos. Os rapazes se chamavam Antônio e José Inácio. Este último era da minha idade, o outro um pouco mais velho.

Os amigos

Dos meus amigos de infância na Zona da Luz lembro mais do José Inácio e do Victor Zuzula. O Victor morava na Rua da Luz nas proximidades da Anchieta.

Reencontrei Victor Zuzula – formado engenheiro, trabalhando na Petrobrás – há uns vinte anos em Porto Alegre durante uma Feira dos Livros.

O Texas do nosso faroeste

Às vezes jogávamos bola, os três, no adro da antiga igrejinha da Luz. Estou certo de que se um olheiro de grande time passasse por ali ele não convocaria nenhum de nós.

Também fabricávamos carrinhos com a carroceria feita de latas de conservas e as rodinhas com uns pedaços de cabos de vassoura.

Na maior parte do tempo, porém, brincávamos de mocinhos e bandidos do faroeste. Uns barrancos do Pepino, na frente do Abriguinho de Menores, eram as montanhas do nosso Texas.

O Pepino era um riozinho mirrado que, correndo a céu aberto por entre duas paredes de pedra, levava as águas da Zona Norte para o São Gonçalo.

O assassinato do muçum

Certo dia, em mais uma arriscada incursão, descemos até o canalete. Não sei por que cargas de água, acabei lançando um paralelepípedo contra um inocente enorme muçum, que se rebolava sobre a lama, cortando-o ao meio.

O muçum, também conhecido como peixe-cobra ou enguia-da-água-doce, como dizem esses dois apelidos, é um peixe que tem cara e corpo de serpente.

*Jornalista e Escritor.