ARTIGO – O MISTÉRIO DA INTUIÇÃO

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O MISTÉRIO DA INTUIÇÃO

Memória dos Anos 80

Clayton Rocha*

Eu o conheci em São Paulo, numa roda política. Tema tratado? O Brasil de hoje e suas lideranças. Desdobramentos? Uma apaixonante investigação sobre o mistério da intuição. Alguns pormenores? Joana D’ Arc ouvia vozes. Stravinski e Mozart ouviam, em segundos, sinfonias inteiras. Einstein solucionava problemas sem a necessidade de raciocinar. E Churchill sentia-se protegido por certa mão que o guiava, força essa que ele definia como sendo a de um “hóspede desconhecido.” A ficha do interlocutor? Geraldo Rodrigues, chefe da campanha de Martha Suplicy ao Governo de São Paulo. Material com o qual lida? Os sentimentos humanos! Algo mais que surpreenda em Geraldo Rodrigues? A forma como enfrentou, em hospital dos Estados Unidos, após cirurgia, aquele veredito implacável da equipe médica norte-americana: – “O senhor não enxergará mais.”

Deficiente visual, ele vê muito mais agora. Enxerga o lado de dentro das pessoas e dele próprio. Se sente testado por estranhas forças invisíveis que nos conduzem. Acha que lhe retiraram o direito de ver porque não soube aproveitar bem a graça da faculdade da visão.Seria testado. Haveria de fazer mais, agora cego. Haveria de ver, com os olhos da alma, as reações da mente humana. E faria isso em sua missão de direcionar campanhas e de tornar o político menos arrogante, mais humano; menos demagógico, mais sensível; menos insuportável, mais ciente da finitude.

Geraldo Rodrigues não se detém em coisas menores. Tem sido superior até mesmo ao seu próprio calvário. Vive para o trabalho. Curte e tem tempo para as pessoas. Sabe falar e ouvir. Seu talento garantiu-lhe 117 prêmios em criatividade, sendo que 37 destes foram conquistados em Cannes, Nova Iorque, Buenos Aires e Londres.

Em matéria de compreensão humana, Geraldo Rodrigues situa-se num patamar superior. Vendo-o emocionado, em certo momento, quando discorria sobre suas vitórias e suas dores, recolhi nas lições do Padre Vieira algumas palavras que me permitiram compreender suas lágrimas: – “ os olhos têm dois ofícios: ver e chorar; e mais parece que os criou Deus para chorar, que para ver, pois os cegos não vêem e choram.”

Quando falamos de vultos políticos, Geraldo Rodrigues lembrou que não há coisa que mais mude os homens que o descer e o subir, e o subir muito mais que o descer. Ele fala com autoridade sobre o assunto, pois vive entre as estrelas de primeira grandeza da política brasileira e aprecia filosofar sobre a arrogância humana. A propósito desse tema, nossa conversa chegou a enveredar pelo terreno movediço do cinismo humano. E lembramos então, de forma piedosa, o quanto é incontrolável aquela força que, em determinados períodos, instala-se nas mentes apequenadas. Para estes pobres diabos talvez fosse necessário elevar a voz e dizer:-“ o vosso diabo sois vós: a vossa vaidade, a vossa arrogância, a vossa ilusão de eternidade, a vossa ambição desmedida. Guardai-vos de vós, se vos quereis guardado.”

Num determinado momento, Geraldo Rodrigues assustou-se com o desânimo dos pelotenses. Não sentiu nenhuma energia positiva em nosso meio e muito menos um leve sinal que fosse de esperança. Ele detectou a falta de um rumo, de um desejo, de uma bandeira. Sentiu Pelotas inerte. Captou no ar um prazer mórbido na derrota coletiva.

O que ele disse aqui talvez sirva para sinalizar o futuro: Pelotas precisa descobrir e preparar seus futuros líderes, tantos são os desafios de um novo século que se aproxima. Pelotas precisa de pessoas entusiasmadas. E que saibam distribuir essa virtude entre todos os demais. Necessitamos de líderes que contagiem através da palavra. Mas esses líderes sem nome precisarão ainda de um algo mais. Necessitarão daquilo que envolvia a figura legendária de Winston Churchill: a intuição. Esses vultos locais, responsáveis pelo futuro, dependerão de uma sensação de interferência.

Churchill reconheceu que sentia uma mão que o guiava. E ficou na história. Pois precisa-se urgentemente disso por aqui. De futuras lideranças comunitárias idealizadas para a grande aventura do novo milênio. Pessoas talentosas, idealistas, verdadeiras, cheias de humildade e corajosas. Apaixonadas por Pelotas. Vultos iluminados. E de tamanho municipal. Homens que sejam guiados por uma mão invisível. Tocados pela “intuição”. Líderes que nos motivem a viver com esperança. E que nos façam cerrar fileiras em torno de suas propostas. Se tal acontecer, êsses vultos de exceção darão sentido à nossa própria presença no contexto comunitário e o progresso de Pelotas será uma consequência de suas ações elevadas e de sua grandeza de espírito. Espera-se, antes disso, que o povo mostre-se suficientemente qualificado para dizer amém.

*Jornalista e coordenador do Treze Horas desde 6 de novembro de 1978.