ARTIGO – LEMBRO BEM DAQUELA ÉPOCA, 1978

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Lembro bem daquela época, 1978

Henrique Pires*

A cidade e seus diversos bons restaurantes. O Bavária e sua porta de entrada discreta, com seus camarões na manteiga, seu inigualável colchão alemão. Perto dali o Vienense, com suas toalhas rigorosamente brancas, seus garçons com gravatas borboleta rigorosamente pretas, seu cardápio categorizado.

Poucos passos dali, pela Andrade Neves, o Bar A Gruta, uma porta numa parede pouco maior que ela, uma chopeira enorme com a estatueta do ator Max Linder de calças verdes a encimando e quatro ou cinco mesas separadas umas das outras por compartimentos de madeira, que faziam parecer que o pão preto, o ovo em conserva e o chopp eram servidos em confessionários.

A Rua XV era aberta aos veículos, que dobravam na esquina da Praça e diminuíam a marcha para que vissem e fossem vistos por quem estava em frente a Confeitaria Nogueira, onde a torrada americana e a Coca-Cola faziam sucesso, especialmente depois das cinco da tarde.

Na Quinze, pouco depois do Aquário – sempre lotado-comprava se jornais e revistas; O Bimbo, ao lado do Foto Robles, vendia desde Tio Patinhas e Mickey, álbuns de figurinhas e até jornais alternativos. Hora do Povo, Voz Operária, dividindo espaço democraticamente com a Folha da Manhã, a Folha da Tarde, Correio do Povo, Zero Hora… Ali as chamadas de capa falavam de abertura política, de eleições, de políticos biônicos, da volta de exilados.

Alguns exemplares bem visíveis e outros mais reservados, pois ainda naqueles tempos podia aparecer polícia após alguma denuncia e requisitar toda a edição, jogar num camburão e levar…

Havia um sentimento geral, ao menos nos jornais, de que viriam novos tempos. Na outra quadra, no Bandeira Distribuidora de Publicações, onde eu ia buscar O Burda Modem, que minha mãe assinava, pois costurava, podia se comprar a Folha de SP – que sempre tinha- e encomendar o Jornal do Brasil, que mesmo chegando atrasado trazia análises mais aprofundadas dos sopros democráticos que se faziam sentir naqueles tempos de ditadura militar que – como todas – detestava eleições e amava seus filhotes bem cevados.

Um lugar onde se falava abertamente de tudo e isso repercutia, eram os cursinhos pré-vestibular, com jovens professores que ensinavam suas matérias, mas sem a rigidez dos colégios e suas grades curriculares rígidas, permitindo debates e trocas de opinião em meio às aulas, entusiasmando quem era aluno e instigando os que eram muito jovens para que um dia viessem a ser. Professor de cursinho, como se falava na época, era o máximo, pois contestavam, opinavam, e não bastando isso, ensinavam!

Em meio a esse cenário, a cidade viu surgirem anúncios no rádio e nos jornais sobre um programa diário de debates onde este seria livre e a opinião independente. E cheio de professores de cursinho!

Repleto de celebridades locais,cada um defendendo seus pontos de vista, com advogados famosos, professores universitários, empresários, sindicalistas, médicos renomados… Naquela manhã comprei pilhas novas para um rádio-gravador do meu pai e comprei uma fita K7 e no horário da estreia ouvi e gravei o primeiro 13 Horas, desde sempre com a coordenação do Clayton, a presença de muitos, como do inesquecível Carlos Alberto Motta (algo revolucionário, ele era cronista social e costureiro), debatendo opiniões com a querida professora Vera Guido Satte Alan, que ia ao cinema e analisava os filmes, fazendo analogias políticas precisas…

Foram tantas e tantas pessoas as quais, ao longo dos anos, compartilharam opiniões e fizeram com que um debate político e econômico entrasse via ondas médias do rádio AM em todos os cantos e se firmasse como uma tradição da cidade. Centenas, certamente. A uma da tarde, ligar o radio no 13 é, como os doces, uma tradição de Pelotas. Claro que nessa trajetória, nem tudo foram rosas.

Lembro do Lessa Freitas contando que foi “convidado” a dar explicações no quartel do exército por conta de uma crítica bem calibrada a um governante de plantão (expressão que ele adorava). Naquela ocasião, por uma patetice do datilógrafo, Freitas percebeu que haviam preparado o inquérito em nome do pai dele, Bento Freitas, já então falecido e que já dava nome ao estádio do Xavante. Usou os prazos e na última hora fez chegar o atestado de óbito paterno ao coordenador do Inquérito Policial Militar, que não teve outra alternativa: encerrou o IPM. Houve outros…

O programa Pelotas 13 horas prometia e entregou. Faz hoje 45 anos!

Firmou-se como a sala de debates da cidade e do Estado, discutindo todos os assuntos possíveis ao longo dessa trajetória rara. Que venham os 50 e os demais, na atual e nas novas plataformas. E que, no comando do leme, siga o mesmo timoneiro de sempre, o Clayton Rocha, que o conduz por águas às vezes calmas, ora tempestuosas, com trovoadas, rajadas de ventos fortes, no frio ou no calor e segue imprimindo seu ritmo a essa nave que orgulha a todos.

Longa vida ao 13 horas!

*Jornalista