ARTIGO – FERNANDO DUVAL, UM PELOTENSE DE OUTRO MUNDO

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Fernando Duval, enrolado na bandeira do Wastha, diante de instalação em que foram reunidas 40 personagens femininas do seu universo. O artista esteve em Pelotas especialmente para a apresentação desse painel que pertence a Luís Roberto Rocha, o maior colecionador de suas obras.

Fernando Duval, um pelotense de outro mundo

Lourenço Cazarré*

Ponte negra: foto tirada, digitalizada e finalizada por Antônio Xavier.

Pouca gente em Pelotas ouviu falar do Wasthavastahunn, um fantástico universo desconhecido (não se sabe onde fica e nem se existe de fato) mas que tem até um dicionário escrito em português.

A verdade é que esse mundo começou a nascer em 1941, em Pelotas, mais exatamente na Avenida Bento Gonçalves, quando dona Fany Oliveira Duval passeava com seus dois filhos mais velhos – Fernando, de 4 anos, e Maria Laura, de 3.

De repente, em meio a escuridão mais profunda (a cidade vivia mais uma noite de blecaute em função da Segunda Guerra), a esposa do advogado Joaquim Duval aponta para o céu estrelado e diz às crianças: “Existem muitos mundos lá em cima, muita gente mora por lá”. Assustado, sacudido por calafrios, o guri acreditou piamente no que lhe disse a mãe.

Quase oitenta anos depois, em uma noite abafada de verão, em um apartamento de Copacabana, o desenhista, pintor e escritor Fernando Duval nos assegura que foi naquela remota noite que teve a primeira intuição sobre aquele particularíssimo planeta paralelo que é a essência de sua vida e de sua arte.

Quase oitenta anos depois, em uma noite abafada de verão, em um apartamento de Copacabana, o desenhista, pintor e escritor Fernando Duval nos assegura que foi naquela remota noite que teve a primeira intuição sobre aquele particularíssimo planeta paralelo que é a essência de sua vida e de sua arte.

O Wasthavastahunn é povoado por uma multidão de pessoas rica e belamente vestidas, porém invariavelmente feiosas, tendo nos focinhos, que culminam quase sempre em narizes obscenos, um ar de esnobismo e loucura. Tudo o que se refere a esse insólito mundo – história, civilização, economia, religião, cartografia, geografia, fauna e flora – foi desenhado, pintado e descrito por Fernando Duval.

Memória da escuridão

Quando escreveu “Funes, o memorioso”, Jorge Luís Borges chamou-nos a atenção para as pessoas que têm uma memória excepcionalmente rica. Esse é o caso de Fernando Duval, o filho mais velho do advogado e político pelotense Joaquim Duval (1904-1971), que foi vereador (a partir de 1936), deputado estadual (1947), prefeito de Pelotas entre 1948 a 1952 e deputado federal em duas oportunidades (1955-58 e 1959-63).

Fernando recorda-se de ver, no começo dos anos 1940, seu irmão Mário José (então com um ano), no colo do pai, girando o dial de um rádio Phillips, no qual Joaquim Duval tentava sintonizar emissoras europeias para ouvir notícias sobre a guerra.

Fernando lembra bem dos veraneios da família em uma casa que possuíam no Cassino. As memórias que guarda daquela praia também são marcadas pelas sombras do conflito mundial. Havia baterias antiaéreas distribuídas ao longo da costa e trincheiras tinham sido escavadas nas dunas. Para levar seus filhos à praia, Fany precisava apresentar aos soldados – hospedados no Cassino Hotel, então cedido ao Exército – um salvo-conduto. À noite, sobre as então poucas casas, pairava a impenetrável escuridão compulsória, determinada pelo temor de bombardeamentos.

De Pelotas para o Cassino, a viagem era feita em muitas horas. O trem deixava a Princesa do Sul e seguia até a Junção, onde os passageiros desembarcavam e se transferiam para outro comboio que os levaria até o balneário.

Fernando Duval recorda também das viagens da família a Porto Alegre, quando o pai integrava a Assembleia Legislativa. Iam pela Lagoa dos Patos em um dos dois barcos mistos (passageiros e carga) que faziam a ligação entre Pelotas e Rio Grande com a capital: Cruzeiro e Geni Naval.

Fernando nunca pôs os pés na Geni Naval, mas lembra bem do Cruzeiro. O embarque em Pelotas se dava no fim da tarde. O barco seguia então para Rio Grande, onde desembarcavam os rio-grandinos que vinham de Porto Alegre e embarcavam os que seguiriam para lá. Logo depois da partida, pelas 20 horas, era servido o jantar. Antes de deitar, os passageiros andavam pelos passadiços, conversando e fumando. Nas noites de lua cheia, não conseguiam ver nenhuma das margens. Os camarotes eram pequenos, modestos. O desembarque em Porto Alegre se dava por volta das seis horas da manhã seguinte.

Fernando lembra que, nos finais de semana, nos anos 1940 e 1950, um dos maiores divertimentos da garotada de Pelotas era assistir aos “seriados” (episódios curtos de séries, que antecediam o filme em cartaz) que eram exibidos nos sábados. Sua preferência recaía nas aventuras de Flash Gordon – herói de aventuras de ficção científica – que eram exibidas no Teatro Sete de abril.

Em 1956, último ano em que residiu em Pelotas, Fernando cursou o terceiro ano do colegial no Assis Brasil, no período noturno. Lá se tornou amigo de Wilson Wasieleski, que mais tarde, depois de ter sido sargento do Exército, se tornaria médico anestesista, e de José Luiz Coelho, que viria a ser piloto de linhas aéreas com moradia fixa no Rio de Janeiro.

Fernando passava o dia no Fragata, no Quartel do Exército, onde era um recruta privilegiado porque, quando souberam que tinha formação em desenho, os oficiais o encarregaram de elaborar ilustrações para documentos ou pintar mapas dos exercícios físicos. Mesmo assim, tinha que levantar cedo, às cinco horas, para apanhar, em uma estação que havia entre o mercado e a prefeitura, o bonde que o levaria ao distante Fragata. Fernando recorda das aulas de ginástica, dos acampamentos e dos sacrificados exercícios de tiro nas dunas do Laranjal, vividos por ele e muitos jovens pelotenses ao longo das décadas seguintes.

Por ter sido um bom soldado, quase teve prorrogado o final do seu período de serviço, que seria em novembro, para fevereiro. Teve então de recorrer ao prestígio de um major amigo da família para escapar de tal “honraria”.

O pai, a família

Apesar de o sobrenome remeter a origens francesas, os Duval chegaram a Pelotas, em algum momento da segunda metade do século 19, vindos de Portugal.

O pai de Fernando, Joaquim Duval, elegeu-se prefeito uma época em que o cargo não era exercido, como agora, por políticos profissionais. Ganhava o pão para si e para seus muitos filhos labutando como advogado em uma banca que mantinha em parceria com Alcides Diniz. E ainda lecionava Direito Administrativo na velha faculdade da Félix da Cunha. Além do primogênito Fernando, o casal Duval teve Maria Laura, Mário José, Maria Helena, Joaquim Luís, Maria Angelina e Beatriz.

Fernando Duval fez o curso primário em casa, tendo como professora dona Maria Abadia, uma vizinha, que não lhe permitia o uso da mão esquerda. Foi por esse motivo que o artista acabou se tornando, à força de reprimendas, ambidestro, o que lhe facilitou depois o estudo do piano. Pelo que se lembra, Fernando foi o único dos irmãos Duval a estudar em casa.

Prestado o exame de admissão ao ginásio (avaliação feita ao final do quarto ano do curso primário), Fernando foi matriculado no Colégio Gonzaga, onde permaneceu por apenas meio ano. Não gostava das missas, das rezas e dos irmãos. Passou então para o Colégio Pelotense – fundado em 1902 por maçons que não desejavam ter os filhos educados em escolas mantidas por congregações religiosas – que funcionava em um prédio da Rua Félix da Cunha, na esquina com a Tiradentes, diante dos Correios. Cursou ali o ginásio e os dois primeiros anos do colegial.

Lembra-se das aulas do professor Machadinho, que lecionava várias matérias, mas cuja especialidade era o latim. Recorda-se de um dia ter indagado do mestre se “bunda, bundae” seria a primeira declinação da palavra “bunda” e se a terceira declinação correta seria “bundex, bundicis”.

Guarda na lembrança também o professor de inglês, conhecido por Mister Souza, um agrônomo que havia estudado nos Estados Unidos. Segundo Fernando, o mestre da língua de Shakespeare “gostava de tomar umas e outras” e, com certa frequência, “chegava meio tocado para dar aula”. O lado boêmio desse professor conseguiu despertar a simpatia do piá avesso ao estudo. Quando a gurizada, achando graça de alguma coisa, começava a rir, Mister Souza repetia sua frase predileta: “O riso abunda na boca dos ignorantes”.

Sua formação básica em desenho e pintura foi obtida em três anos, de 1954 a 1956, na Escola de Belas Artes.

Música e desenho

Fernando quase estudou piano no Conservatório de Pelotas: fez apenas a inscrição, mas não participou de uma só aula. Por quê? Por causa de um violento bate-boca que arranjou com Dona Velhinha, a esposa do falecido João Simões Lopes Neto, que trabalhou por muitos anos na administração daquela escola.

Reza a lenda que a casmurra Dona Velhinha exigiu que Fernando e sua irmã Maria Laura, que também pleiteava uma vaga, permanecessem no prédio mesmo depois de terem concluído a matrícula. O cabeça-dura Fernando, aos sete anos, por seu lado, recusou-se a ficar porque havia combinado com sua mãe que voltaria para casa assim que fizesse a inscrição.

Por causa desse arranca-rabo, o artista acabou fazendo sua formação de piano, ao longo de cinco anos, martelando as teclas de um Pleyel, na casa da professora Nair Oliveira. Dona Nair e outra irmã, que também ministrava aulas daquele instrumento, eram conhecidas como as Oliveirinhas. Aos 11 anos, Fernando participou de um recital no Teatro Guarany, onde executou Rosas do Sul, de J. Strauss. Lembra-se de ter sido muito aplaudido, depois que a plateia foi convenientemente advertida de que aquele simpático guri era o filho mais velho do senhor burgomestre.

Já a inclinação maior de Fernando para as artes plásticas começou a manifestar-se quando ele, meninote de seis anos, rabiscou com lápis coloridos, vermelho e azul, as páginas da enciclopédia Larousse, recentemente comprada por seu pai. Mais adiante, já cursando o ginasial, seu passatempo, durante as aulas, era desenhar selos que depois vendia por ninharia aos colegas.

Sua formação básica em desenho e pintura foi obtida em três anos, de 1954 a 1956, na Escola de Belas Artes.  Fernando, porém, a abandonou antes da conclusão do curso. Fez o mesmo, quase uma década depois, quando largou o curso de Direito da Universidade do Estado da Guanabara, na véspera da sua formatura, em 1965. E repetiu a dose com um cargo de escrevente do Ministério da Fazenda, alcançado em concurso público, do qual pediu dispensa depois de passar 12 anos em licença não remunerada.

Na Escola de Belas Artes da Princesa do Sul, Fernando teve aulas com Iná Costa e Aldo Locatelli, entre outros. Foi Iná Costa, uma mulher viajada, avançada para sua época, quem sugeriu a Fernando – quando este lhe disse que iria para o Rio de Janeiro – que se inscrevesse em algum curso do Museu de Arte Moderna (MAM).

Cidade Maravilhosa

Pois também foi de barco que Fernando Duval deixou o Sul, no começo de 1957, em um Ita (provavelmente o Itaimbé), quando se dirigiu pela primeira vez ao Rio de Janeiro, de onde jamais sairia, a não ser para suas muitas viagens pelo Brasil, pelo exterior e pela peregrinação anual, no inverno, ao Sul. Desembarcou no dia 9 de março, no maior entusiasmo por estar chegando àquela que, na época, ainda fazia jus ao nome de Cidade Maravilhosa. Seu pai exercia então o primeiro mandato como deputado federal.

Na capital da República, no MAM, o jovem pelotense teve aulas com Ivan Serpa e Aloísio Carvão. Fernando lembra especialmente de Ivan Serpa, que projetava diapositivos de obras de arte importantes. Já em 1958, participou de uma mostra no Salão Nacional de Arte Moderna, com a obra intitulada “A ponte negra”, em gauche. Foi também em 1958 que prestou concurso para escrevente do Ministério da Fazendo. Aprovado, passou cinco anos por lá, odiando o insosso trabalho burocrático, que suportou até que o dia em que um amigo lhe disse:

– Larga tudo!

Largou. Abandonou o curso de Direito e solicitou ao Ministério da Fazendo uma licença sem vencimentos. Pela mesma época, abandonou também o MAM. Em 1966, partiu para a Europa. Viveu seis meses em Lisboa. De volta ao Brasil, foi passar um tempo no Cassino. Lá, naquela praia permanentemente batida por um vento gélido, durante os longos dias nublados de um inverno rigoroso, Fernando começou a pintar seres e bichos de Wasthavastahunn. Em 1968, solicitou uma licença por dez anos do Ministério da Fazenda. Em 1978, pôs um fim naquele sofrimento: pediu demissão. A praga bíblica determinava que ele, como todos os outros, teria de ganhar o sustento com o suor do rosto, mas Fernando preferiu uma solução intermediária: subalugou quartos do seu apartamento.

Amigos

Na memória de Fernando há um largo espaço para os seus muitos amigos de ginásio e de colegial em Pelotas. Mantém contato com eles e às vezes os recebe quando vão ao Rio de Janeiro.

Do Colégio Pelotense são: Fernando Gâmio, professor de inglês, que há mais de cinco décadas me ensinou, na ETP, a pronunciar perfeitamente a palavra “comfortable”; o jornalista Jaime Kopstein, que foi editor do caderno de Cultura do Correio do Povo, e que, certa tarde, pôs em minhas mãos um poema que Mario Quintana lhe havia entregado um segundo antes e me disse: “revisa aí o texto do velho, guri”; Ruy Lerner; Luiz Carlos Oliveira; Lúcio Gomes (que foi Força Aérea Brasileira e que faleceu em acidente aéreo); Jorge Isaackson; Irineu Ortiz; Roberto Gigante e Joaquim Luís Azevedo.

Do Assis Brasil seus camaradas são: o já citado Wilson Wasieleski, que foi colega de adolescência do meu tio Antônio Milton Cazarré, professor de História do Gonzaga; José Luiz Coelho (que foi piloto da Varig e Tam e que faleceu aos 80 anos no Rio de Janeiro) e Enio de León.

Seus outros amigos pelotenses, alguns da mesma geração e outros mais jovens são: Luiz Felipe Fabião, Fernando Becker, José Antônio Lagos, José Antônio Mazza Leite, Carlos Francisco Sica Diniz (filho de Alcides Diniz e biógrafo de João Simões Lopes Neto) e Eduardo Sequeira (que reside no Rio de Janeiro).

A ciência espiritual (se é que tal coisa existe) mais importante daquele planeta é a Capologia, que tem como objetivo preservar o mistério e a dúvida.

O Wastha

Em poucas palavras, vamos tentar aqui dar uma breve noção do que seria o Wastha. Como consideram a política uma das dimensões mais insignificantes de sua vida, os habitantes daquelas lonjuras decidiram abolir todas as leis e eliminar todos os legisladores, bem como os que se mostrassem inclinados a votar neles. Simultaneamente, decidiram incentivar todas as arbitrariedades e loucuras.

Já no que se refere à política externa, deram mostras de sua fantástica capacidade criativa ao firmarem o célebre acordo com Beluha, determinando que a linha de fronteira fosse fixada pela mancha riscada no solo pela passagem das nuvens. Esse acordo, segundo seus críticos, não era nem lógico nem viável, mas a verdade é que, até hoje, continua em vigor e com sucesso.

Praticamente não há, naquele universo, algo que pareça ao que chamamos economia porque, como se sabe, os wasthianos detestam cifras e estatísticas. Se existe por lá uma lei econômica, ela assim pode ser enunciada: os ganhos sempre se revezam com as perdas e são ambos, completamente, arbitrários. De todo modo, como nós, humanos, que pagamos impostos, eles lá são obrigados a contribuir com os “emolumentos retilíneos”, criados quando faltaram recursos para a construção do célebre Centro Capológico. Esses tais emolumentos foram estabelecidos em caráter precário e provisório, mas logo se tornaram permanentes, exagerados e aviltantes.

A ciência espiritual (se é que tal coisa existe) mais importante daquele planeta é a Capologia, que tem como objetivo preservar o mistério e a dúvida.  No campo das artes, destaca-se por lá a Fundação Andraten, cuja função é reunir a maior coleção possível de inutilidades (como baralhos transparentes e armários cujas portas abrem para dentro). Também notáveis são os Institutos do Silêncio, organizações que, espalhadas pelas principais cidades, ensinam como apreciar o silêncio e sua influência no estudo musical, especialmente no que se refere ao emprego da gamboceta, instrumento que produz sons inaudíveis.

Entre as mais tocantes peculiaridades daquele mundo, podemos destacar o amor que o povo de lá nutre pelos animais, com destaque para o bivar e os cachorretes. Vagamente parecido com o elefante, o bivar é um mamífero cujas fêmeas seriam dotadas de mamas triplas. Seu porte é desconhecido, de vez que nenhum exemplar foi avistado até hoje. Como nós, terráqueos, os wasthianos adoram passear com seus cachorretes, canídeos sintéticos que têm a grande vantagem de não deitarem dejetos cilíndricos e malcheirosos enquanto se rebolam pelas calçadas ou praças.

Por fim, trataremos aqui de um tema que, em nosso planeta, sempre causa polêmica, quando não guerras tremendas e terríveis morticínios: a religião. Em Wastha, ela não existe. Os habitantes daquela galáxia jamais inventaram, como nós, uma entidade que pudessem chamar de Deus. Mas cultuam uns santos, poucos, porém divertidos. Há, por exemplo, São Gabileu, que, segundo a literatura local, teria sido “completamente ateu e, ainda por cima, inexistente”. Já a milagrosa Santa Bartola, segundo a crendice popular, faz com que as esferas projetem sombras quadradas. Padroeira da Loucura, ela é homenageada com festas nas quais o povo canta: “rainha da loucura fazei a vossa cura/ rainha dos dementes curai nossos pacientes/santa bartola, bartolíssima santa/nós te prometemos uma cartola”. Fechando a trindade sagrada de lá, aparece Santa Mercedéia, padroeira de Wasthavastahunn, dos prostíbulos e de todas as maneiras de amar (ortodoxas ou heterodoxas).  Na área de crendice popular, destaca-se a Vidente Miguelina famosa por antecipar – com suas “previsões retroativas” – acontecimentos já ocorridos.

Rotina

Para construir este alucinante e alucinado universo, Fernando Duval acorda cedo, mas só começa a pintar por volta das 08h30 “quando a luz da manhã é perfeita”. Dependendo do tema que está tratando, ou mesmo do tempo de secagem das tintas, vai até o final da tarde, com um pequeno intervalo para almoço. Só para quando começa a escurecer. Seu método é simples: escolhe o tema, faz a seguir o desenho a lápis, depois em nanquim. Se for colorido, pega dos pincéis. Como sabe que um trabalho está acabado? Depois de muita contemplação. Faz então todos os ajustes até que a tela não fique pedindo mais nenhuma pincelada.

Sarcástico e agudo

Segundo André Seffrin, crítico de arte gaúcho radicado no Rio, Fernando Duval utiliza em seu trabalho a “técnica refinadíssima” dos “grandes artistas de iluminuras e afrescos do medievo”. E, mesmo tendo participado de grandes exposições, com um trabalho já consagrado pela crítica, o pelotense jamais parou de inovar, tornando-se “cada vez mais sarcástico e agudo” nas suas observações sobre o homem e a vida sem sentido que leva.  Resume Seffrin: “Porque em sua arte, o homem é o lobo do homem, e os horizontes, movediços. E é exatamente aí que sua ousadia alegórica e fabulosa se torna mais fascinante e lendária”.

Em 2014, André Seffrin escreveu a apresentação da mostra – intitulada “Wastha visita Pelotas” – que Fernando Duval fez em sua cidade natal. Registrou na ocasião que, mais do que simples homenagem à Atenas sul-rio-grandense, a exposição mostrava os mais fantásticos personagens de Fernando passeando por Pelotas com a tranquilidade de moradores antigos, profundos conhecedores daquelas ruas, praças e becos. “Afinal, não há nada de estranho em ver Beobina e Beobeia passeando nas imediações da Caixa d’água, ou Ada Andes em visita ao Museu da Baronesa, ou a cegonha de Komutáhia sobrevoando a torre do Mercado. E nada a estranhar também no anúncio do grande concerto de gamboceta de Marifalda Bussoleta no Teatro Sete de Abril ou na figura do bivar com o trapiche da praia do Laranjal ao fundo”.

Por fim, interroga-se o crítico: “Que incrível povo é este de características mais ou menos exóticas, no entanto de hábitos tão semelhantes aos nossos e, em certos casos, inquietamente iguais?”

Críticos de artes plásticas que militam nos botequins de Pelotas, maledicentes e malvados, dizem, sem a sutileza de Seffrin, que a fauna de Duval tem seus modelos vivos andando pela rua Quinze, entrando e saindo do Aquário e circulando pelas mesas de carteado dos salões dos melhores clubes locais.

Nessa mesma linha pérfida, uma importante crítica de arte francesa que visitava o ateliê de Fernando Duval em Copacabana, depois de examinar a vasta galeria de retratos de pessoas magnificamente vestidas, perguntou agoniada: “Où est le peuple?”

Bem, respondemos nós, não há povo na obra de Fernando Duval porque no Wastha, como em Pelotas, só existe a elite. Todos nós, pelotenses, os de berço e os sem-berço, sabemos que somos parte de uma aristocracia. Povo, bem, povo, para nós, só existe naquelas sonolentas cidadezinhas da nossa fronteira bárbara, nos bucólicos morros redondos onde habitam os germanos ou nas grotas da distante serra selvagem onde se refugiam os gringos.

*Jornalista e escritor.

ILUSTRAÇÕES ENVIADAS POR FERNANDO DUVAL

Artistas pelotenses em 1982: Fernando Duval, José Carlos Martins, Jader Siqueira, Mello da Costa, Pellegrin, Zezinho do conjunto Os Santos, Regina Paiva, Túlio Oliver, Aurys Abrantes, Saskia Silveira, Arlinda Nunes, Alceu Cheuiche, Luis Carlos Wolffeld Netto e Inah D’Ávila Costa. Foto: Arquivo de Fernando Duval.

Aceitamos colaboração na identificação pelo e-mail: [email protected]

Foto de cima: Enir Barbieri – Diretor da Joalheria MASSON, Bernardo de Souza, Lisarb Crespo da Costa e Fernando Duval. Foto de baixo: Carmem Diniz, Bernardo de Souza e Fernando Duval. Acervo de Fernando Duval.