ARTIGO – A MOVIMENTADA FESTA DOS PRATICANTES DE UM OFÍCIO EXTINTO

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Juliano, Marieta, Luísa, Lourenço e Érico, no aniversário.

UM PEQUENO PREÂMBULO ANTES DA FESTA…

Nosso contato é quase que diário (através de mensagens e telefonemas) e a pauta invariavelmente a mesma: textos e livros. Me lembro do O Caleidoscópio e a ampulheta, eu com 20 anos, no lançamento em 1982, o primeiro autógrafo, o primeiro papo e no decorrer do tempo descobrir os amigos comuns: O Sérgio Siqueira, o Clayton Rocha, o meu primo querido Carlos Eduardo Beherensdorf (Garça) e através deles descobri que o jornalista e escritor pelotense Lourenço Cazarré odeia aniversários, em especial os seus.

Mesmo sabendo disso, seus filhos resolveram comemorar o septuagésimo aniversário do pai. Com a ajuda do jornalista Luiz Lanzetta, convocaram dezenas de pessoas, algumas delas de lugares distantes de Brasília, como Pelotas e Florianópolis. Quando soube da tramoia, Cazarré ficou muito bravo. No tal dia, quase não foi à festa. Mas acabou cedendo aos rogos da sua mulher, Maria Luísa. Na comemoração, o vinho tratou de acalmar o aniversariante. E, como a maioria dos convidados era de jornalistas, com os quais Lourenço Cazarré havia trabalhado nos anos 1970 e 1980, ele resolveu vingar-se deles – me disse – escrevendo a crônica abaixo, que é a própria festa. Abraço Cazarré.

PGNeto

A MOVIMENTADA FESTA DOS PRATICANTES DE UM OFÍCIO EXTINTO

Lourenço Cazarré*

Prezado chefe, conforme combinado segue relatório de minha investigação: Tendo chegado a este Planeta Terra, mais especificamente a uma cidade chamada Brasília, nos últimos dias do mês de Seu Júlio, de 2023, vi surgir logo uma oportunidade de fazer o levantamento sobre os terráqueos ordenado por Vossa Excelência.

Foi quando um senhor, cujo sobrenome seria em nossa linguagem marciana algo como Casa dos Fundos, acessou o Google e lançou naquele sistema de busca duas palavras: Preciso de sósia. E acrescentou uma fotografia dele.

Luiz Ricardo Lanzetta, Fernanda Pereira, Fernanda Massot, Lourenço Cazarré, Mário Medaglia e Luísa Cazarré.

O diálogo
Assumindo o aspecto daquele cidadão, apresentei-me a ele e travamos o seguinte diálogo:
Para que o senhor precisa de um sósia? – perguntei.
– Para me representar numa festa.
– Festa?
– Sim, amigos reuniram-se e, depois de muito refletirem, resolveram me dar um inusitado presente no dia do meu septuagésimo aniversário: uma festa.
– Pessoas carinhosas, presumo.
– Sim, e extremamente criativas.
– Qual será o meu trabalho?
– Representar-me na tal festa.
– O que terei de fazer?
– Circular entre pessoas sentadas ao redor de mesas e sorrir para elas.
– Mas o que devo dizer a elas?
– Nada. Pessoas que vão a festas de aniversário não querem ouvir nada. Preferem falar muito e em voz alta. E beber loucamente.
– Portanto, posso imaginar que por lá encontrarei alguns chatos.
– Vários. Diga a eles duas ou três frases banais e complete: preciso circular entre meus convidados.
– Mas eles, pelo lado deles, não ficarão chateados?
– Não. Logo pegarão outra vítima.
– Por que o senhor não vai à festa?
– Porque me sentiria ridículo!
– Foi então que resolveu me contratar?
– Sim, porque seria ainda mais ridículo uma festa sem o homenageado. Seria, como diria Mário Quintana, um velório sem defunto.

Lourenço Cazarré e Luísa com os netos: Giovana, Inácio, Francisco (no colo), Flora, Vicente e Miguel.

Os retardatários
No dia seguinte, na hora aprazada, seis da tarde, apresentei-me no local indicado. Permaneci por lá até às 3 da madrugada, quando a dona da casa, literalmente, varreu para fora os retardatários.

Os jornalistas
Pelo que pude depreender, tratava-se de uma festa de pessoas que exerceram um ofício hoje inexistente chamado jornalismo impresso. Jornalistas eram pessoas inteligentíssimas, que ganhavam pouco, trabalhavam muito e divertiam-se ainda mais. Produziam diariamente algo que era como um livro, só que de folhas imensas. Os jornalistas dividiam-se em duas categorias: os repórteres, que escreviam inverdades sobre políticos honestos; e os redatores, cuja função era deturpar ainda mais aquelas torpes acusações.

Para executar sua missão, eles se utilizavam de aparelhos chamados máquinas de escrever. Um senhor idoso disse que recentemente levou uma dessas máquinas a uma neta que vive nos Estados Unidos e que a menina ficou realmente espantada: – Puxa, vô! Ela até imprime.

Lourenço Cazarré, Sérgio Siqueira, Malu, Edgar Lisboa, Carlos Eduardo Behrensdorf e em pé o jornalista José Cruz.

Os patrões
Jornalistas eram comandados por patrões, pessoas que eles costumavam roubar quando prestavam conta de suas viagens de trabalho. Dou dois exemplos: Um jornalista que foi a Manaus e por lá comeu um peixinho de 30 reais num boteco fuleiro apresentou a seu patrão uma nota de 300 reais na qual constava: Bacalhau à Lagareiro. Um fotógrafo bastante robusto foi a Buenos Aires e lá comprou dois galos de prata numa loja de artesanato. Quando apresentou a nota, salgadíssima, na qual constavam “dos pollos”, o patrão reagiu:
– Mas você comeu dois frangos numa só refeição?
– Veja o meu porte!

Os bêbados
Quando reunidos, jornalistas preferem contar anedotas sobre seus companheiros de profissão que não tinham controle pleno sobre o ato de ingerir bebidas alcóolicas, pessoas que carinhosamente tratam por “bêbados”.

Célebre é o caso de um deles que foi a Florianópolis e lá caiu no sono em local inapropriado. Ao despertar, viu diante de seus olhos grossas barras de ferro. E exclamou: “Que merda fiz ontem para estar preso?” Ao levantar-se, percebeu que estava dormindo sobre uma calçada da Avenida Beira Mar Norte e que a grade pertencia a um edifício, que com ela, a grade, procurava livrar-se dos mendigos.

A piscina
A festa foi realizada à beira de algo que chamam piscina, uma escavação que contém água, recoberta por uma grade de proteção feita com fios de nylon trançados. Durante a festa, curiosamente, caíram apenas duas pessoas (ambas abstêmias!) na tal piscina. Um desatento jornalista esportivo cruzou-a rapidamente, em ângulo oblíquo, tropicando sobre a grade de proteção. Teve ali, disse ele depois, a ideia para uma nova competição olímpica. O outro jornalista não chegou a atravessar a piscina. Deu apenas meia dúzia de delicados saltos acrobáticos, de rara beleza plástica, sobre a tela de proteção, mal molhando os sapatos.

As bebidas
Jornalistas, aparentemente, gostam muito de beber. Os mais idosos, que eram numerosos, davam preferência a uma bebida insípida, incolor e inodora chamada “água”. A maioria, porém, inclinava-se por um suco escuro servido em taças bojudas. A minoria dedicava-se a um líquido amarelado que era retirado de garrafas vermelhas. Essa última espécie me pareceu a mais sedenta. (Ver o detalhe sórdido na foto que vem ao pé deste relatório)

A bebida servida à sorrelfa, à socapa, por trás do balcão, só para os mais chegados ao aniversariante, contratante e tratante.

Os pelotenses
A mesa que mais me chamou a atenção era aquela na qual estavam pessoas que se consideravam realmente especiais, mais cultas e civilizadas. Eram oriundos todos de um lugar chamado Pelotas. Havia um chamado Karl Edward, que se apresentava como Príncipe da Pomerânia, e outro que se dizia Kzar de Leningrado, Serguei Narigovitch. Um outro era plebeu, porém milionário, chamado Joseph Cross, o Lorde das Cidades Satélites. Nessa mesa havia um cidadão que não quis me declinar seu nome. Disse-me apenas: “Sou O Empresário Paulista”. O mais jovem daquela mesa sussurrou: “Não, eu não sou, como andam dizendo por aí, O Novo Tubarão Branco”.

Detalhe sórdido e líquido: Na foto abaixo está a bebida servida à sorrelfa, à socapa, por trás do balcão, só para os mais chegados ao aniversariante, contratante e tratante

EXPLICAÇÃO
Embora não seja comum o autor dizer de onde tirou a ideia de escrever uma crônica (na minha época, em Pelotas, dizia-se: quem explica é porteiro de boate), resolvi dar aqui um breve esclarecimento: “Odeio aniversários, em especial os meus. Sabendo disso, meus filhos resolveram comemorar o septuagésimo. Chamaram inclusive pessoas de lugares distantes, como Pelotas (2.500 quilômetros). Quando soube da tramoia, fiquei furioso. No tal dia, quase não fui à festa. Mas acabei cedendo aos rogos da minha mulher, Luísa. Na comemoração, o vinho tratou de acalmar-me. Como a maioria dos convidados era de jornalistas, com os quais trabalhei nos anos 1970 e 1980, resolvi vingar-me deles escrevendo esse artigo”.

*Jornalista e Escritor.