ARTIGO – CHINA: NÚMEROS E COSTUMES

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CHINA: NÚMEROS E COSTUMES

Por Clayton Rocha – 1998

O velho táxi desliza em tarde de chuva pelas avenidas largas da cidade sombria. Tento definir Pequim nesta hora de descobertas: concluo que “não é bonita, nem feia: é diferente”. A Avenida Juanguo, uma das mais largas do mundo, é ocupada por arranha-céus, shoppings monumentais, Mc Donalds, Pizza Hut, Sony, Coca-Cola e todas as demais marcas ocidentais. Mas os símbolos chineses tornam Beijing, nome que quer dizer “capital do norte” em mandarim, uma cidade diferente das outras metrópoles:  Pequim, com seus 16 milhões de habitantes, tem, sim, características próprias. Aqui se vê, a todo instante, um formigueiro humano nas ruas, velhos jogando xadrez nas calçadas, outros fazendo ginástica rítmica nos parques, vendedores de passarinho frito, de batata doce assada, uma Praça da Paz Celestial clamando por concentrações populares, pandorgas sendo lançadas aos céus, os consagrados tricíclos e “rickshaws” pelas ruas, utilizados como meio  de transporte, manchando, a meu ver, de forma humilhante, a própria dignidade do povo chinês. Eles estão em toda parte, em todas as esquinas e praças, estacionados, em permanente espera de turistas, sempre em nome da suprema paciência chinesa.  Agora mesmo vejo um homem, que deve ter mais de 50 anos, de calças curtas, peito aberto, chapéu de palha, pedalando seu carrinho, cuja parte dianteira tem tudo de uma bicicleta e na traseira conduz um assento confortável, como se fosse uma poltrona, entre duas rodas de bicicleta.  Há nele um toldo que poderá ser puxado, para proteger o passageiro contra o sol ou a chuva. Antigamente, não pedalavam, mas puxavam-nos como se fossem animais atrelados. A partir de Den Xiao Ping, o governo proibiu essa forma constrangedora de trabalho nas cidades mais importantes, especialmente na capital da China.

O táxi estaciona na Praça Tiananmen. Esqueço os triciclos e observo os mártires da “Grande Marcha” que se eternizam no bronze e no cimento: há fisionomias jovens, rostos de crianças e silhuetas de homens idosos que exibem traços de esperanças vencidas. Estes vultos devorados pelo tempo acreditaram piamente numa espécie de pai da pátria, alguém que para eles tornou-se um símbolo, talvez um mito !  Antes de entrar no Palácio do Povo, com o objetivo de beber chá e sentir o cheiro da história chinesa, seus números impressionantes e seus costumes imenão consigo evitar um pensamento forte que me comove e me  envolve por inteiro: meu pai gostaria de estar aqui. Ele esperou a vida inteira por esse momento, sem que tivesse sido possível concretizá-lo.

Foi movido por influência paterna que li, desde tenra idade,  tudo que pude ler sobre o PC, os camponeses, os estudantes e os sindicatos de trabalhadores da China, bem como o papel que desempenhavam na formação do povo amarelo. O político Dirceu Silveira da Costa, meu pai, não apenas lia tudo que encontrava pela frente sobre China e URSS, como também se preocupava em repassar ao  filho algumas noções de política externa. Observo, saudoso, que ele alcançou  seu intento: o de me contagiar sobre esta matéria. Por ocasião de minhas três viagens à China, 30 anos depois de sua morte, percebi que ele viajou comigo, através de suas lições políticas, sua paixão por esses dois povos, suas emoções que agora eram minhas, por herança, por sintonia de desejos, mas sobretudo por saudade.

Foi pensando no juiz de paz de Pedro Osório que visitei a Universidade de Pequim, em busca da expressividade da marca que ela carrega: 700 mil alunos, a maior população universitária da face da terra. E foi em sua homenagem que busquei contato direto com a Liga da Juventude Comunista da China, de onde são selecionados e forjados os futuros líderes nacionais, dada a força que essa juventude expressa: a Liga possui 65 milhões de membros. Por fim, naquelas horas que costumamos reservar às cerimonias do adeus, havia o propósito de registrar, da melhor forma possível, aquele  1º. de maio de 1998 que seria vivido em solo chinês. Era preciso compreender, na eloquência dos números, a gigantesca força associativa da Federação Nacional dos Sindicatos da China: 103 milhões 996 mil associados! Aquilo tudo  era herança de Mao Tsé-Tung, era a consequência de seus ensinamentos, que tinham por objetivo fortalecer o Partido Comunista, transmitindo confiança aos trabalhadores, camponeses, estudantes, artistas e intelectuais da China. Ele pregava uma identificação das classes privilegiadas com o povo, e as estimulava a viver a mesma vida dos mais simples camponeses, nos campos e nas oficinas urbanas. Para chegarem às massas e para se tornarem acessíveis a todos, eles deveriam utilizar uma linguagem comum e uma expressão sempre inteligível. Percebo que  Mao Tsé-Tung pode não estar aqui, neste 1º. de maio de 1998. Mas vejo que ele conseguiu estabelecer a unidade chinesa. E se é verdade que o espírito governa o universo, o de Mao, certamente, continua comandando a China !

Eu o imagino frequentando aquelas dependências que são a suprema vitrine do poder chinês: o Grande Salão de banquetes, com 5 mil lugares; o Beijing Hall, onde são recebidos estadistas estrangeiros; o Salão dos Tapetes, onde as autoridades bebem chá e debatem questões de Estado;  os aposentos reservados do Presidente; e o monumental Auditório do Palácio do Povo, ocupado por 10 mil poltronas de couro, acústica perfeita, símbolos em alto-relevo e lustres que enchem de luz o centro máximo de decisões do Partido Comunista da China. Não tenho mais dúvidas de que Mao, em espírito, vive em todos esses lugares.