ARTIGO – A DIPLOMAÇÃO DOS ELEITOS

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Lula bebe água e não canta o hino nacional durante diplomação Imagem: Reprodução/TSE
Ivon Carrico.

A DIPLOMAÇÃO DOS ELEITOS

Ivon Carrico*

Aquilo que deveria ser uma cerimônia tão somente simples e protocolar, como sempre ocorreu quando do reconhecimento do pleito eleitoral para a corrida ao Planalto, transformou-se – inacreditavelmente – em uma surpreendente peça de incitação ao ódio e à divisão.

Sim, até entendo que tivemos uma eleição limpa que, aliás, deve ser um motivo de orgulho para todos os brasileiros. Não só pela celeridade do resultado, mas – e, sobretudo – pela transparência da apuração. E, que isso deva ser celebrado. Como o foi – sabiamente, também – nessa cerimônia.

Daí que não me parece, agora, pertinente o questionamento do Planalto acerca do resultado final da apuração, pois essas mesmas máquinas validaram Bolsonaro em 2018, bem como asseguraram, em 2022 – ainda no 1° Turno – uma grande vantagem para o grupo ideológico no Poder.

Por isso que o Bolsonaro assumiu o Governo, naquele momento, e a Câmara, na próxima legislatura, terá maioria desfavorável ao Presidente eleito, bem como o colégio dos Governadores, também. E, ninguém contestou isso. Nem àquela ocasião e, sequer agora. Daí a impertinência referida.

Por outro lado, a leitura do resultado sufragado é que continuamos com o País dividido, onde o Presidente eleito terá que exercitar a sabedoria e o bom senso para governar para todos os brasileiros e, não somente para o seu grupo. Por isso, em seu discurso no TSE, o Lula, oportunamente, teve esse cuidado.

Todavia, essa mesma cautela – nessa cerimônia de diplomação – não foi observada pelo Ministro Alexandre de Moraes, em face da adoção de um discurso inamistoso, raivoso, eivado de ameaças e acirramento dos ânimos.

A completar a cena, após essa diplomação, não poderia ter faltado a inusitada celebração, dos diplomados e de parte da Corte que validou o certame – juntos em uma mesma residência, no Lago Sul. Ilegal? Não. Mas, surreal.

Que passa, sobretudo, uma mensagem muito ruim para a sociedade – a ausência de pudor nas relações do Poder. Uma praga cultural advinda do infame Patrimonialismo.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 13/12/2022