A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – 18 – FINAL

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A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR

Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira*

 

64. Álibis mais furados que penico de tiro-ao-alvo

– Não! – reagiu o chinês. – Eu apenas topei o desafio que ela me fez. Mandei o gás, como ela pediu.

– De todo modo, o senhor é aqui o sujeito que mais tem cara de assassino – Aroeira levantou-se. – Tem cara de frio assassino oriental.

– Não discordo, meu, mas não posso ser responsabilizado pelo conjunto da obra. Eu assumo só a parte do pulmão. Mas tem um detalhe sórdido: é quase certo que quando mandei o gás dona Miguela já estava morta.

Aparvalhado, Aroeira levantou-se:

– Que devo fazer? Prendo todos ou mando todos embora? Um alega que foi o outro, e assim por diante. É o maior jogo de empurra que vi na minha vida.

Depois, encarando os escritores, acrescentou:

– Acho que vocês vieram ao Brasil com o fim único e exclusivo de me enlouquecer. Prefiro os bandidos brasileiros!

Resolvi dar apoio moral ao desolado policial:

– É isso aí, doutor Aroeira. Perto desse povo, bandido brasileiro é fichinha.

Com um breve gesto de cabeça, o policial me agradeceu e a seguir apontou um dedo para Dax Chamber:

– E o senhor aí, por acaso, não se meteu no assassinato de dona Miguela de Alcazar?

– Bah, tchê, tô fora! Sou o único inocente. Nunca vi tanta gente malvada junto. Olha, vou te dizer uma coisa: já na chegada ao hotel eu notei que a velhota castelhana estava em pânico, mais sobressaltada que cozinheira de hospício.

– Como assim? – quis saber o delegado.

– Perguntei pra ela: “Por que tu tá tão encagaçada, Miguelita?” Ela me respondeu: “Bah, Dax, sinto que vou morrer aqui nesta cidade horrorosa”. Como a coitada da velha chorasse de fazer barro, pedi a ela que se acalmasse. Aí, ela se lamentou: “Dax, tu ganha muito mais dinheiro do que eu”. Eu respondi que isso não tinha importância porque dinheiro na minha mão dura tanto quanto cuspe em ferro quente.

– Quer dizer que o senhor era amigo dela? – indagou Aroeira.

– Não muito. Ela era dissimulada. Quando queria enrolar alguém, ela arrodeava mais que cachorro com pulga na cola. Tinha mau hálito, a vivente, fedia mais que arroto de urubu.

– Mas ela lhe disse alguma coisa concreta sobre o seu mau pressentimento?

– Necas, delegado. A pobrezinha estava desanimada, mais caída que orelha de perdigueiro. Pra consolar a coitada, eu disse: “Não te preocupa que tu ainda vais escrever um livro que preste”. Pra quê? A mulherzinha ficou mais braba do que touro laçado pelos bagos. Aí, ela me disse: “Por que você não aproveita que está aqui no Brasil e vai à merda?”

– Só isso? O senhor não tentou depois, por nenhum meio, matá-la?

– Bah, claro que não! Se tivesse tentado matá-la, acertava de primeira. Americanos são eficientes em tudo que fazem. Não sou como essa gente aqui que fica apresentando desculpas mais esfarrapadas que camisas de pobre. Os álibis deles são mais furados do que penicos de tiro-ao-alvo. Eu, se fosse o senhor, prendia todos eles. E ficava famoso no mundo todo. Mas, infelizmente, acho que o assassino foi cometido verdadeiramente por uma pessoa de menor importância…

– Como assim? – Aroeira agitou-se. – O senhor tem algum suspeito?

– Não! Conheço o nome do assassino.

64. Ameaça velada de boicote à compra de bananas

Vagarosamente, o americano estendeu seu braço esquerdo. Depois espichou o indicador. A seguir, sempre lentamente, foi girando o braço. Deteve-se quando na sua mira estava a carantonha de Manoel Joaquim Batota.

– Foi o português! – gritou Dax; – Ele está mais quieto do que guri cagado porque sabe quem tem culpa no cartório. Foi ele quem meteu arsênico na comida da castelhana.

– Bem sacado! – exclamou Aroeira. E pôs a mão no ombro do gerente do hotel. – Considere-se preso! É você o principal culpado, sem dúvida. Vejo tudo muito claramente agora. Sem dúvida, a morte da velha decorreu do almoço. Depois, já agonizando, lambeu estricnina, recebeu o golpe na cabeça e a zarabatana no pescoço. O veneno inodoro, obviamente, só foi injetado no apartamento depois da porta ter sido fechada, quando a velha já estertorava. O enfarte, acredito eu, decorreu também do almoço. Sim, tudo partiu de você.

Estarrecido, Manoel Joaquim Batota abriu a boca mas não pode falar uma só palavra. Torcia as mãos dramaticamente. Seu rosto assumiu um assustador tom arroxeado.

Com pena do pobre lusitano, resolvi me intrometer na conversa:

– Delegado, acho que o seu Batota é inocente!

– O que sabe você, gaúcho? Que sabem fazer os gaúchos além de ordenhar vacas e roubar ovelhas?

– Perdão, doutor Aroeira, mas a verdade é que portugueses só matam sardinha ou bacalhau. O senhor, por acaso, já prendeu um português?

– Pensando bem, nunca, nenhum – admitiu o delegado. – Mas tudo nos leva a crer que o almoço envenenado pelo portuga desencadeou o falecimento da bruxa velha. Havia arsênico na comida, segundo o laudo.

Voltei-me para o gerente do Imperial Hotel da República e o interroguei:

– Seu Manoel, o senhor, por acaso, encontrou como alguém pelos corredores do hotel enquanto levava a comida para dona Miguela?

– Acho que não – respondeu o lusitano, quase chorando.

– Pense bem! – insisti. – O senhor corre o risco de ir parar atrás das grades. Quem estava por perto do senhor, no restaurante, enquanto preparava a comida?

– O senhor Chamber! – o português exultou. – Ficou ao meu lado, o tempo todo, a recomendar-me quanto deveria colocar no prato. Disse-me que era íntimo de dona Miguela e que sabia exatamente aquilo que ela gostava de comer. Ah, fez também questão de pôr o sal. E foi bastante. Disse-me que dona Miguela era apaixonada por comida salgada.

– O senhor não terá confundido o saleiro com um potinho de arsênico? – perguntou Aroeira ao americano.

Dax moveu-se inquieto na cadeira e defendeu-se:

– Bah, esse português é mais falso que idade de mulher. Ele jamais vai conseguir provar o que disse aqui. Mas, mesmo que tivesse provas, de que valeriam elas? Pelo que sei, até hoje nenhum americano foi condenado num país latino-americano. Não daria certo.

– Por que não daria certo? – perguntei.

– Porque pararíamos de comprar bananas e a economia de vocês afundaria em uma semana.

– O duro é que esse gringo safado tem razão – suspirou Aroeira. – Se prendo ele, tomo um inquérito disciplinar pelos cornos.

– Mas o senhor não vai prender ninguém pela morte de Miguela de Alcazar? – indignei-me. – Esses sujeitos vêm pra cá, cometem um múltiplo e bárbaro assassinato e não lhes acontece nada!

– Como não acontece nada? – perguntou o policial, ofendido.

E deu então o mais poderoso dos seus muito murros naquela pobre mesa:

– Todo mundo em cana! Todos para o xilindró, assassinos!

Eu tentei reagir:

– Mas, doutor Aroeira, eu e português não participamos do crime!

– Eles não poderiam ter cometido esse crime sem a ajuda de cúmplices locais!

65. Fecham-se as cortinas

À meia-noite, chegamos à penitenciária da Papuda. Lá, fomos enfiados os oito – os seis escritores, Batota e eu – em um enorme xadrez onde já se encontravam os três assassinos, os seis assaltantes e os nove sequestradores presos naquele dia.

Antes da uma da madrugada, começaram a pipocar telefonemas na casa do secretário de Segurança Pública de Brasília. Eram vários embaixadores credenciados junto ao governo brasileiro, indignados, gritando cada um em um idioma diferente.

Homem público sério como lápide, o secretário da Segurança Pública, resistiu o máximo que pode. Meia hora, se tanto.

Por volta das duas da madrugada todos os escritores estrangeiros estavam de volta ao Imperial Hotel da República. Arrumaram suas malas e, na companhia da defunta Miguela de Alcazar, embarcaram pouco depois em um jatinho fretado com destino a São Paulo, de onde voariam depois para seus países de origem.

Batota e eu, bem, nós dois ficamos em cana por uma semana inteirinha, isolados em duas pequenas selas, submetidos a uma dieta que nos ajudou bastante na redução do peso.

No dia  seguinte ao da misteriosa morte de Miguela de Alcazar, o delegado Jerônimo Aroeira e seus agentes, aqueles sujeitos mal-encarados que haviam roubado as garrafinhas de bebida do hotel, foram até a sede do meu jornal e lá, em breve conversação, recomendaram ao Medalhão que nada publicasse sobre o tal Congresso porque, de fato, na verdade, ele não havia se realizado.

Manoel Joaquim Batota recebeu visita semelhante dez dias depois, ao reassumir a gerência do Imperial Hotel da República. Talvez por ser ele estrangeiro, os policiais foram ainda mais enfáticos na sua admoestação. Disseram ao lusitano que ele, se abrisse o bico sobre o tal Congresso, acabaria comendo capim pela raiz.

Foi por isso que não cheguei a escrever a tal reportagem que iria me tornar planetariamente famoso.

Aquele tempo, final dos anos setenta, foi bastante ruim para a imprensa brasileira. Mas agora, passados mais de quarenta anos, resolvi reviver aqueles dias. Liguei um velho gravador e escutei as muitas fitas gravadas na época. Reli também todas as minhas anotações, E, por fim, me entreguei ao teclado do computador.

Foi assim, senhoras e senhores, que nasceu este livro, que é o meu testemunho sobre o Primeiro Congresso Internacional dos Escritores de Histórias Policiais, infelizmente não realizado em Brasília.

Pena que não existam fotos para provar a minha história. Lembram que o fotógrafo do jornal só iria ao hotel só no dia seguinte?

Pois bem, visitei ainda os arquivos da Polícia, mas não encontrei lá nenhum laudo sobre a morte de uma mulher chamada Miguela de Alcazar. E, obviamente, não localizei as fotografias tiradas pelo lambe-lambe da Perícia.

Se agora eu divulgo este meu relato é porque, como dizia o falecido Medalhão, a verdade, como defunto afogado, sempre vem à tona.

FIM

*Jornalista e escritor.