A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – 12

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A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR

Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira*

 

40. Uma tempestade não dura um dia

Chegando ao apartamento 1313, o escritor da nação mais populosa da Universo dirigiu-se diretamente à cama da escritora morta. Enfiou-se debaixo dela, mas logo saiu dali, espirrando.

– Que poeirada, meu! – disse ele entre um espirro e outro. – Na China, mano, quando tem muita poeira debaixo da cama, a gente costuma dizer: ou o cabo da vassoura é curto ou a camareira é preguiçosa.

– Não se preocupe, senhor Foo! – disse Batota, embaraçado. – Vou tratar de arrancar a cabeça da nossa camareira. Os malditos empregados são todos brasileiros, ou seja, são todos preguiçosos!

– Segura a franga, Batota! – estrilei. – Não fale mal dos brasileiros na minha frente! Tivemos que aturar vocês, portugueses, por mais de trezentos anos. Roubaram o que puderam daqui e só nos deixaram, em troca, meia dúzia de piadas ruins.

– Meia dúzia? Mentira! São milhões!

Nossa discussão foi interrompida por uma intrigante frase dita pelo escritor que, naquele momento, examinava as cobertas da cama, perfeitamente estendidas:

– Nem os fortes nem os violentos morrem no seu próprio leito, mano.

Batota piscou um olho zombeteiro para mim e dirigiu-se ao chinês:

– O que quer dizer o senhor Foo com essas palavras? Que dona Miguela era forte ou violenta? Que foi assassinada?

– Creio que foi assassinada, meu. Mas ainda não achei nenhuma pista concreta sobre sua morte.  Diz o Tao te king: “O bom andarilho não deixa pegadas”.

– Também começo a pensar que dona Miguela foi mesmo assassinada – palpitou Batota. – Nesse caso, oh, como eu gostaria de executar com minhas próprias mãos o matador dessa pobre espanhola! Gostaria de quebrar-lhe o pescoço…

– Interessante – Foo encarou interrogativamente o português. – O mano gostaria de decapitar a camareira e de esgoelar o assassino… Puta, meu, você resolve tudo com a força das mãos?

– É o meu modo enfático de falar – defendeu-se o lusitano. E, dando-me uma cotovelada nas costelas, perguntou: – Sou ou não sou um homem pacífico, Campestre?

– Eu, fora! – reagi.

– Sabe o que diz o Tao te king sobre o uso inadequado das mãos? – perguntou Foo. E ele próprio respondeu: – “Quem toma a seu encargo o lugar do céu para aplicar a morte, faz como quem quer serrar no lugar do carpinteiro: ao serrar, dificilmente salvará sua mão”.

– Que belo ensinamento! – extasiou-se o gerente do hotel. – Estou a admirar muito as frases chinesas. São breves, plenas de poesia e verdade.

– As palavras verazes não são belas, mano, já as palavras belas, pelo seu lado, não são verazes!

Parado diante da morta, o chinês observava atentamente a cabeça da falecida:

– Ôrra, meu, essa mantilha está muito esquisita aqui no alto da cabeça! Parece ter sido apertada contra o crânio.

– O senhor está a querer dizer o quê? – perguntou Batota.

– A sabedoria chinesa ensina que devemos nos preocupar com o conjunto e não com os detalhes.

– E que raio de conjunto é esse? – quis saber o lusitano.

– Ô, mano, não me obrigue a falar demais Falar pouco é o natural. Uma ventania não pode durar uma manhã, uma tempestade não dura um dia.

– Desculpe-me se lhe faço tantas perguntas – insistiu o português. – Mas o senhor está a falar por parábolas e eu cá prefiro coisas mais diretas: pão, pão, queijo, queijo. Mas, admito que, de todos os escritores que estão neste hotel, o senhor é aquele com mais postura de sábio.

– O sábio cala, quem não sabe fala – retrucou Foo.

Depois dessas palavras, o luso cruzou os braços e, emburrado, calou-se.

Já o escritor ajoelhou-se e começou a examinar, com lupa, o tapete persa que cobria boa parte do chão do apartamento. Findo o demorado exame, disse:

– Tentei ir além do limite das aparências, mas permaneceu em mim o mistério. Talvez porque eu tenha falado demais, mano. No caminho do céu não devemos fazer perguntas, pois o certo é que sempre obteremos as respostas.

– Ao fim e ao cabo, o senhor não saiu de cima do muro! – exaltou-se o gerente do hotel. – Não sabe se dona Miguela foi morta ou se morreu. Pois muito bem. Então eu lhe pergunto à queima-roupa: foi o senhor quem matou dona Miguela?

Espantado, voltei-me para o português. Com o rosto arroxeado de indignação, ele parecia disposto a dar um murro no chinês, que filosofou:

– Quem segue o caminho do bem não utiliza a violência, meu, porque aos atos armados sempre responderá a violência.

Sempre rindo e pisando macio, Foo deslizou para o corredor.

– Chinesinho escorregadio, não achas? – murmurou Batota.

– Escorregadio e esperto – completei. – Mas gostei das frases ocas que ele recitou para nós

41. Seres humanos só têm paz quando estão lendo

De novo retornamos ao salão, a fim de buscar Jorge Luís Bugres, que seria o último a examinar o fatídico apartamento 1313.

– Não estou com muita fé no argentino – disse-me Batota, no corredor. – Acho que não bate bem da bola.

– Mas é um grande contista – ponderei. – Ele se diverte bastante zombando dos seus leitores.

Olhei o relógio. Eram exatamente cinco horas quando chegamos à porta do salão. Paramos no umbral. Diante da janela, de costas para nós, Bugres recitou:

O mais era morte e somente morte

Às cinco horas da tarde.

Ai que terríveis cinco horas da tarde!

Eram cinco horas em todos os relógios!

Eram cinco horas da tarde em sombra!

Batota bateu palmas entusiasmadas.

Ainda estendida na poltrona, Fedorova abriu seus olhos cinzentos e os cravou em nós. Sim Et Non baforou mais forte.

– Viemos buscá-lo, senhor Bugres – anunciou o português. – Que belo poema era esse que o senhor recitava?

– “Pranto por Ignácio Sanchez Mejias”, de Federico Garcia Llorca. Meu relógio de pulso tem um alarme que sempre vibra às cinco em ponto da tarde. É a hora preferida da morte. E a morte é a negação da aventura, a extinção das personagens, o fim do narrador.

De braços dados, Bugres e Batota iniciaram a caminhada em direção ao apartamento da defunta. Foram em silêncio até lá.

Já dentro do 1313, o argentino pediu ao português que o sentasse na beirada da cama, de onde discursou:

– As camas guardam o calor e o formato de todos os corpos que desfrutaram delas. Heráclito de Halicarnasso assegura no Rerum delirium que existe uma cama primordial onde estão reunidas todas as formas humanas, mesmo as mais hediondas.

– Vossas frases são lindas, senhor Bugres! – deslumbrou-se o Batota. – Pena que eu não as compreenda completamente. Como, aliás, pouco entendi o escritor chinês. Aprecio frases filosóficas, embora nem sempre apanhe todo o significado delas.

– A verdade e a beleza morrem junto com o som das palavras, quando este se desfaz no ar.

– Ai, Jesus, mais uma bela frase! – aplaudiu o português. – Mas diga-me: o que exatamente faz o senhor neste quarto, visto que nada enxerga?

– Os cegos investigam com todos os outros sentidos. Recorrendo ao olfato, posso lhe afirmar que Sim Et Non esteve parado no centro deste apartamento pois o cachimbo dele fede tanto quanto o baú de roupas íntimas da tripulação de um navio pirata. Sei também que o chinês meteu-se debaixo desta cama – e o poeta argentino bateu com a mão ossuda na colcha. – porque ele usa um perfume adocicado que é praticamente um vomitório. Eu poderia falar também da movimentação de Fedorova e de Águeda Christine, mas, como as mulheres abusam dos perfumes, não haveria mérito nas minhas constatações.

Batota e eu nos entreolhamos impressionados.

Bugres voltou a falar:

– Recorrendo a outro sentido, a audição, eu diria que neste exato momento soa o melancólico lamento de uma sirene de ambulância. Pela premência com que ecoa, eu diria que está vindo para cá a fim de levar o corpo da nossa desventurada Miguela de Alcazar.

Passados alguns segundos, Batota e eu ouvimos o som de uma ambulância, ainda distante.

O argentino pigarreou antes de perguntar:

– Poderiam vocês me dizer em que posição está a nossa morta?

Batota sintetizou:

– Recostada à poltrona, junto à mesa, ao lado do abajur, diante da janela aberta, está lendo. Parece muito serena.

– Serena, sim. O ser humano só tem paz enquanto lê. Durante a leitura, nossa alma vagueia pelo ilimitado mundo da imaginação.

42. O corpo sem vida da nossa colega falecida

Para resgatar-nos do silêncio reflexivo no qual nos havia mergulhado, o próprio Bugres perguntou:

– Mas que livro lia Miguela?

– O livro santo, don Jorge! – disse o português, profundamente emocionado. – A Bíblia sagrada!

– Mas em que trecho ela se encontrava? Lia a erótica canção de amor do rei Salomão, o conto satírico de Jonas ou a turbulenta peroração de Jó contra a insensibilidade de Deus?

– Nenhum desses livros, mestre – respondeu Batota. – Palmilhava a derradeira página do Apocalipse.

Mortalmente pálido, o escritor argentino levantou-se de um salto. Trêmulo, com a ponta da bengala metralhando o piso, murmurou:

– Tirem-me já daqui!

Quando Batota e Bugres de braços dados deixavam o apartamento de dona Miguela, ouvi bem próxima a sirene. Cheguei na janela a tempo de ver a espetacular freada do veículo no estacionamento do hotel. Era uma camionete tetricamente negra que ostentava letras imensas no capô: IML.

Dela desceram três homens que se encaminharam a passos largos para a entrada do hotel. Saí do apartamento e fiquei parado perto do elevador à espera deles.

Pouco depois, abriu-se a porta do elevador e por ela saíram os homens que eu vira pouco antes. Levei-os até a sala de reunião, onde se encontravam Batota e os escritores.

Depois que o gerente informou aos agentes que aquelas pessoas ali reunidas, oriundas de diversos países, eram autoras de livros policiais e que sabiam falar muito bem português, o mais baixo e mais gordo dos três pronunciou-se no mais puro sotaque curitibano:

– Sou o doutor Abelardo Nepomuceno Crescente, legista-chefe do Instituto Médico Legal de Brasília. Coincidentemente, nas horas vagas, escrevo livros policiais, desses que são vendidos em bancas. Portanto, sou colega dos senhores. Conheço bastante bem o metiê. Fiquei muito abalado ao saber que a morta é doña Miguela de Alcazar. Assim, aqui estou para levar o corpo sem vida da nossa colega falecida ao meu laboratório, onde farei, em pouquíssimo tempo, a mais meticulosa autópsia da minha vida.

– Abra bem os olhos ao cortar o cadáver dessa pobre mulher – disse Bugres. – São inúmeros e intrincados os caminhos que levam ao inferno.

– Ainda não gastou seu rol de frases ambíguas, senhor Bugres? – mais ralhou que perguntou Batota. – O senhor não poderia ser mais preciso nessa insinuação?

– Claro que não! – retrucou o argentino. – Faço parte do grupo dos autores oraculares, aqueles cujas frases têm que ser decifradas. Mas esperemos a leitura do documento de alta literatura que certamente será o laudo do doutor Abelardo Nepomuceno. Só depois desse laudo, se necessário, falarei abertamente.

– O ministro das Relações Exteriores se interessou pessoalmente por este caso – continuou o legista, mantendo a pose de sujeito de grande importância que exibia desde a chegada. – Ligou-me ainda há pouco pedindo empenho e dedicação. Garanti a ele que o resultado da autópsia, impecavelmente científica, sairá ainda hoje.

– Será bom demais da conta se ocorrer o que o senhor anuncia – comentou Águeda Christine. – Temos urgência em saber se a pobrezinha foi morta ou não.

– Venha por aqui, doutor! – agitou-se Batota, empurrando o legista em direção ao corredor. – Precisamos retirar o corpo com muita discrição, pelo elevador de serviço, para não assustar os demais hóspedes!

O português voltou-se para nós e, fazendo o gesto de quem espanta galinhas, disse:

– Os senhores podem descansar um pouco. Aqui ou em vossos quartos. Mas regressem às sete horas, quando a gerência do hotel vos oferecerá uns drinques. O jantar será servido pontualmente às oito da noite.

– Bah, tchê, pra mim, qualquer corte de carne de vaca serve – disse Dax. – Pode ser costela ou picanha. O importante é que venha sangrando, porém sem veneno.

– Quer dizer, então, que hoje não teremos uma reunião de trabalho? – indagou Fedorova. – Eu estava arretada por um debate. Russos gostam mais de polêmica do que baiano de rede.

– A gente debate amanhã, sô – sugeriu Águeda Christine. – Desde que nenhum outro de nós morra até lá, claro.

 

43. De como os dinossauros inventaram o vinho

Assim que Batota saiu para comandar a discretíssima transferência da morta para o rabecão do IML, todos os escritores se dirigiram aos seus apartamentos.

Só eu permaneci no salão. Jogado em uma cadeira, escutava atentamente as fitas que já gravara. A medida que os registros refrescavam minha memória, eu registrava na minha caderneta todas as frases mais fortes e retocava aquelas que, antes, anotara precariamente.

Aquilo se estendeu por muito tempo. Fiquei impressionado com o grande número de frases ambíguas, comprometedoras mesmo, pronunciadas pelos escritores. O que o meu gravador registrara não os ajudava em nada. Aliás, provava que todos eles em algum momento, como diz a gíria, haviam pisado no tomate. Por duas ou três frases, todos eles surgiam como potenciais suspeitos. Todos ou quase todos tinham falado muito mal de Miguela de Alcazar. Caso se constatasse que a anciã fora mesmo assassinada, todos eles poderiam ser, em tese, autores do crime.

Tendo como base o número de frases comprometedoras pronunciadas por cada um, esbocei uma detalhada tabela de suspeição.

Depois, rascunhei o esquema da reportagem que escreveria para o Correio de Brasília.

Lá pelas tantas, cabeceei. Acomodei-me em uma poltrona da platéia e cai num sono agitado. Sonhei com facas ensanguentadas, estampidos, gemidos, gritos de terror, corpos sem cabeça e cabeças sem corpo.

Despertei sobressaltado com uma vigorosa palmada que Batota me deu no joelho.

– Como podes adormecer num dia tão movimentado quanto este, pá?

– Cansaço acumulado – bocejei. – Que horas são?

– Sete menos dez. Começaremos a noite com uma sessão de aperitivos.

Em cima do estrado, o garçom míope distribuía pratos e talheres pela imaculada toalha branca que cobria a mesa redonda. Num carrinho ao lado da mesa, havia muitas garrafas.

Garrafas! Esse é o meu ponto mais fraco, confesso. Sei que quase invariavelmente elas contêm líquidos relaxantes. Gosto igualmente de vinho, gin, rum, uísque ou cerveja. Em grande quantidade, de preferência. A qualidade é importante, eu sei, mas, como meu salário é modesto, em geral, não me concentro nesse quesito. Antegozando o surdo estouro das rolhas ou o suave rascar de tampas sendo giradas, comecei a salivar.

Lembrei, então, que não havia bebido um só copo de água durante aquela longa tarde. Minha língua colou-se de imediato ao céu da boca.

– Água! – gemi.

O garçom veio até onde eu estava com uma bela garrafinha verde de água Perrier. Bebia-a de um só gole.

 – Me dê mais duas – pedi.

– Nunca vi ninguém gostar tanto de água! – espantou-se Batota.

– Odeio água – expliquei. – Só bebo água quando preciso lavar o salão antes de um baile.

– Salão? Baile?

– Baile de destilados e fermentados – apontei o carrinho das bebidas. – Pretendo beber uma barbaridade. São raras as ocasiões em que me vejo diante de tantas belas garrafas.

– Gostas de beber?

– Gostar é um verbo que não expressa a grandeza do meu sentimento, seu Manoel. Ainda não foi inventado um verbo que…

– Em Portugal, amamos o vinho.

– O verbo amar está mais próximo, mas ainda bem distante de descrever o meu verdadeiro sentimento por destilados e fermentados.

Resolvi então deitar um pouco de falação sobre essa minha paixão:

– A ligação dos homens com a bebida começou com o vinho. No início dos tempos, nossos ancestrais não eram nem carnívoros nem herbívoros. Eram bebedores. Bebiam água com lodo. De quando em quando, engoliam um peixinho e isso melhorava a dieta deles. Certo dia um raio fez cair uma videira num riacho. Aí, no dia seguinte, as uvas foram pisoteadas por uma manada de dinossauros. Um hominídeo que ia passando bebeu aquela água avermelhada e ficou eufórico…

*Jornalista e escritor.