ARTIGO – O ÚLTIMO TANGO EM…BUENOS AIRES

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O ÚLTIMO TANGO EM…BUENOS AIRES

Ivon Carrico*

Provavelmente, as novas gerações desconhecem o filme ‘O Último Tango em Paris’, um drama erótico franco-italiano, de 1972, dirigido pelo consagrado Bernardo Bertolucci e que teve várias indicações ao Oscar. A música do Gato Barbieri, também, foi sensacional.

Mas, muito mais do que impressionar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em Hollywood, tal produção causou verdadeiro ‘frisson’ – escandalizando plateias, mundo afora – ao mostrar a cena em que o Marlon Brando sodomiza a atriz Maria Schneider, usando – para tanto – manteiga!

A referência ao Tango, no filme, ocorreu pela frequência de ambos a uma casa de shows, em Paris, onde havia inúmeros ‘performers’, dessa magnífica dança.

Bem, ontem, em Buenos Aires, não em Paris e, tampouco, em um estúdio cinematográfico – mas, quando da posse, em cerimônia pública, do Javier Milei, como Presidente da Argentina – tivemos cenas escatológicas para escandalizar os incrédulos, tal qual no famoso filme. Só faltou a famosa música do Gato Barbieri, ao fundo.

Enquanto a Cristina Kirchner, ex-Presidente da República, Vice-Presidente da República e Presidente do Congresso apontava o dedo do meio aos seus desafetos que a insultavam, o Milei – recém empossado – proclamava: ‘viva la libertad, carajo’.

O gesto obsceno da Cristina Kirchner, associado ao linguajar chulo do Milei, ainda que essa expressão em Espanhol seja, digamos, menos ‘pesada’ do que em Português, convenhamos, foram inadequados, inapropriados e desrespeitosos com os presentes. A Argentina não merecia e, muito menos, os argentinos.

No filme a atriz – muito jovem – que fora, realmente, sodomizada durante a filmagem, foi da depressão às drogas. Uma vida triste e infeliz diante da extrema repercussão negativa da cena produzida. Hoje, os novos paradigmas comportamentais em relação à mulher não admitiriam tamanha exposição e humilhação.

Tomara que, ao contrário do filme, a Argentina possa se reerguer e seus cidadãos se orgulhar do País. A Argentina é muito maior que as degradantes cenas dessa posse presidencial.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 11/12/2023