ARTIGO – O CAUSO DO RELHO COM CABO DE FERRO

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Foto da família Cazarré quando de uma visita do ator Darcy Cazarré a Pelotas nos anos 1940: De pé da esquerda para a direita: Waldomiro Coelho, Neuza Cazarré Peres, Izaura Cazarré Peres, Leovegildo Cazarré Júnior, Dorotéa Cazarré Gonçalves, Ovídio Gonçalves e Elisa Cazarré Peres. Sentados: Francisca Cazarré Coelho, Darcy Cazarré, Izaura Lopes Cazarré, Leovegildo Cornélio Cazarré e Jandira Cazarré. À frente, Mariazinha, Cedar e Valéria Viana Foto: Arquivo da família

O causo do relho com cabo de ferro

Lourenço Cazarré*

Meu pai, João Carlos Coelho Cazarré, era a memória da família. Da família dele e também da de minha mãe, os Simões e Cardoso da Silva. Meu avô materno chamava-se Alfredo Cardoso da Silva e era casado com Henriqueta Simões, ambos nascidos no Lugar da Lage (hoje rua da Lage), na aldeia de Santiago de Piães, no Concelho de Cinfães, Norte de Portugal.

Quando fui a Portugal pela primeira vez, em 1996, ao visitar a casa dos meus ancestrais, tive que telefonar ao pai, que morava em Pelotas, pedindo informações com as quais eu pudesse explicar aos desconfiados portugueses qual era mesmo o nosso distante laço de união.

O pai matou a charada. Me explicou que aquele Alfredo Simões que eu encontrara lá era sobrinho da vó Henriqueta. Acalmados os parentes – talvez preocupados com a hipótese de nós estarmos ali, Luísa e eu, em busca de alguma herança milionária -, almoçamos a comidinha feita pela Maria Altina.

Depois, na conservatória (cartório) local consegui facilmente a certidão de nascimento dos meus dois avós. A pesquisa foi rápida porque, na época em que eles vieram para este vale lacrimoso, os nascimentos por ano, em Cinfães, mal passavam de uma dúzia.

Leovegildo Cornélio Cazarré no centro de Pelotas em 1933. Foto: Arquivo da família.

O misterioso João Cazarré Grande

Pelo lado paterno, a nossa ascendência era bem mais distante e desconhecida. O pai dominava apenas algumas datas da vida de seu avô, Leovegildo Cornélio Cazarré, que nasceu em 1879 em Pelotas e que faleceu em Porto Alegre em 1954. Mas sabia também que, antes desse seu avô, teria existido outro membro do clã, um francês, conhecido como João Cazarré Grande, que ele imaginava ser o seu bisavô. Estávamos nisso quando o pai morreu em 2005.

Diego Vignoli

Mais recentemente, há pouco mais de ano, conheci um genealogista pelotense, Diego Vignoli, parente da Luísa. Que reside em Porto Alegre. Estudioso apaixonado por desvendar ligações familiares, ele entrou em campo a nosso favor. Depois de muito garimpar em cartórios e em arquivos, do Brasil e do Uruguai, descobriu que meu pai, na verdade, tinha dois ascendentes chamados João. O seu bisavô, chamava-se mesmo João Cazarré e havia nascido em Jaguarão em 1854 e morrido em Pelotas em 1922.

Mas Diego encontrou registros mais extensos – e mais movimentados – sobre o genitor desse João nascido na cidade fronteiriça com Rio Branco. Esse outro, sim, um legítimo francês, um comedor de rãs e caramujos, chamado Jean-Baptiste Cazarré, que veio à luz em 1809, como consta em seus documentos, na Haute Garrone, Midi-Pyrénées. Infelizmente não temos sua cidade, mas o pai falava em Toulouse, metrópole da Alta-Garrona (forma aportuguesada). Jean-Baptiste morreu aos 85 anos em Jaguarão.

Esse Meio-dia-Pirineus (aportuguesamento) pertence hoje à uma região administrativa chamada Ocitânia. Quando existia, o Meio-dia-Pirineus tinha 24% de sua área composta pela Gascogne (Gasconha). Ou Vascônia, terra dos vascos, como diria um descendente de Camões.

Leovegildo Cazarré Júnior em seu traje de brigadiano: a cidade ao fundo pode ser Pelotas, Canguçu ou São Lourenço. Foto: Arquivo da família

Na Bascolândia pelotense

O nosso nome não engana: é basco. Basta ler uma relação de sobrenomes do País Basco para descobrir que muitíssimos deles têm dois erres na grafia. Além disso, também são caracterizados pela presença das letras Y e Z. Ah, e que começam, muitas vezes pelo “etch”.

Há um registro histórico interessantíssimo que tem a ver com Pelotas. No quinto volume da Enciclopédia Rio-grandense, publicada em 1958, pela Editora Regional, de Canoas, há um capítulo sobre o registro da chegada de estrangeiros na Princesa do Sul entre os anos de 1843 e 1844. Os mais numerosos são os franceses, que somam 116. Os espanhóis entram no segundo posto desse quadro, com 76 cidadãos.

João Carlos Cazarré em transmissão de rádio em Bagé, 1957. Foto: Arquivo da família

Nesse mesmo quinto volume há também uma relação de registros de estrangeiros em Pelotas, feita com base em livros existentes no Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Os estrangeiros arrolados em maior número em Pelotas, entre 1844 e 1852, seriam: 578 portugueses, 262 franceses, 234 uruguaios e 226 espanhóis.

Destarte, como demonstram essas cifras, em meados do século 19, os gauleses eram numerosos em Pelotas.

Passemos agora a examinar mais detidamente os registros de 1843 e 1844. Neles consta o nome dos imigrantes, profissão, idade e o lugar de onde vêm. Quando observamos esses dados, o que nos chama primeiramente a atenção é o número dos estrangeiros que chegam pelo Uruguai (Montevidéu, Maldonado, Cerro Largo). Esses são a ampla maioria. Bem depois vêm os que entraram no Brasil pelo Rio de Janeiro.

Ainda mais curiosa é a questão dos sobrenomes. Os bascos constituem talvez a maioria desses tais “franceses”. Vamos citar apenas alguns para exemplificar. Comecemos com os “Etch”: Etchepare, Etchebeste, Etcheverry, Etchegaray, Echememgaray, Etcherry, Etchebarne, Echaverri e Echegaray. Esse prefixo “etche” traduzido para o português seria lar ou casa. É claro que os cartorários pelotenses devem ter dado uma boa contribuição para essa babel de grafias que se vê acima. Peguemos dois exemplos de “Y”: Yribarne e Yahanburuy. E, para completar, uns apelidos com “dois erres”: Urruty (distante), Artaberro, Errecondo (recôndito) e Uthurrale (penhasco).

Albañil

Voltemos a esse meu tataravô recém-achado. Diego descobriu que Jean-Baptiste casou em 1839, em Jaguarão, com uma moça chamada Maria Luiza Machado, nascida em Santa Catarina. Tiveram três filhos: José, João e Maria Francisca. No que se refere à profissão, Jean-Baptiste aparece com sendo albañil (pedreiro). Maria Luiza Machado faleceu em 1890 e Jean-Baptiste em 1894, ambos em Jaguarão.

A geração nascida na América

José, o filho mais velho do casal, nascido em 1852, em Jaguarão, passou sua vida em Melo, cidade do Departamento de Cerro Largo, no Uruguai. A distância entre Melo e Jaguarão é de 92 quilômetros.

De ofício José era talabartero. Ou seja, fabricava talabartes, também conhecidos como boldriés, uma espécie de correia de couro, atravessada no peito, na qual policiais e militares penduravam a espada, o trabuco ou nele descansavam o pau da bandeira durante os desfiles.

Do casamento de José com Graciana Goyeneche nasceram oito filhos, que aparentemente passaram a vida em Melo.

O segundo filho do casal era o meu trisavô, João, acima referido, que nasceu em Jaguarão em 1854. Com sua esposa Maria Luiza Lopes, teve apenas um filho: Leovegildo Cornélio Cazarré, que o pai chamava de vovô Lilico.

A terceira filha do casal franco-catarinense chamava-se Maria Francisca. Nascida em 1858, em Jaguarão, casou-se no Brasil, em Arroio Grande, com José Luiz de Souza Lima. Tiveram onze filhos. A distância entre Arroio Grande e Jaguarão é de pouco menos de 50 quilômetros. Ou seja, em tese, o grande parte da parentela viveu entre os 235 quilômetros que vão de Pelotas a Melo.

No mundo

Recentemente, furungando num daqueles sítios genealógicos de internet, que alardeiam pesquisas planetárias, descobri que, hoje, o sobrenome Cazarré prevalece mais no extremo meridional da América do Sul – Uruguai, Brasil e Argentina – do que na França originária.

Lourenço Cazarré e Delia Cazarré de Alvez em 1998 em Porto Alegre. Foto: Arquivo Lourenço Cazarré

A escritora

Em novembro de 1998, conheci em Porto Alegre, durante uma Feira do Livro, uma simpática senhora uruguaia, de nome Delia Cazarré de Alvez, nascida em Melo, também escritora. Deu-me, naquela ocasião, dois livros seus autografados: La mirada del tiempo e Octubre herido.

Desaguisado

Capa de livro de poesia de Delia Cazarré de Alvez. Imagem: Arquivo da família.

Mas a grande descoberta do Diego – obtida no Arquivo Público do Rio Grande do Sul – foi que esse francês protagonizou uma baita confusão que acabou na Justiça, mais exatamente no processo criminal número 2661, motivado por “ferimentos e ofensas”.

O desaguisado, a contenda, a altercação ocorreu em 1882, em Jaguarão. Então velhíssimo (estava já com 73 anos), Jean-Baptiste Cazarré baixou seu relho com cabo de ferro no costado de um cidadão lusitano.

O arranca-rabo

Vou transcrever o relato judicial – mexendo o menos possível na redação da época – da pauleira. Foi mais ou menos assim:

“Diz Manoel Francisco da Silva, natural de Portugal, morador nesta cidade, com profissão de alfaiate, que tendo justos motivos para queixar-se de João Baptista Cazarré, morador nesta cidade, vem fazer por este juízo, e para que seja sua queixa recebida, passa a instruí-la na forma da lei”.

“No dia 12 de fevereiro próximo passado, achando-se o Manoel mansa e pacificamente, as dez horas da noite, jogando a víspora em companhia de outras pessoas, em casa de José Corrêa da Silva Guimarães, onde também se achava João Baptista Cazarré, quando este começou por provocá-lo, atirando-lhe grãos de milho. E como o Manoel lhe fizesse ver que o respeitasse, não só por ser mais velho, como porque ele, Cazarré, não tinha o direito de provocá-lo, o dito Cazarré então respondeu-lhe com palavras injuriosas, como fossem “filha da p”… e outras ofensivas a sua honra de homem casado, e em seguida levantou-se com um chicote de cabo de ferro na mão, e agredindo a Manoel, que devido a defensiva que tomou, e ajudado por outras pessoas, conseguiu desviar o golpe, que acabou sendo dado nas pernas de Sizenando Porto. Em seguida sentou-se o Manoel e as pessoas presentes, quando de novo, de imprevisto, o Cazarré levantou-se e com toda a força desferiu um golpe sobre o lado esquerdo da cabeça do Manoel com o mencionado chicote, de cabo de ferro, que lhe produziu ferimentos, causando lhe um incômodo de saúde que o tem debilitado para o serviço. Saindo o ofensor imediatamente para a sua casa, ficou o Manoel atordoado, quase não podendo atinar. Neste interim, o Manoel foi recolhido pelo dito Corrêa, dono da casa, para um quarto interior, onde ficou acordado até que lhe finalizou a raiva, sendo então conduzido para a sua residência por Joaquim de Souza, João de Oliveira e um músico do 3o Batalhão, por nome Olympio José Montero”.

Final

Um mês e quinze dias depois, em 27 de março de 1882 – talvez pressionado pala turma do Deixa-disso -, o vascaíno desistiu de levar adiante o processo:

“Diz Manoel Francisco da Silva que tendo dado queixa por este juízo, contra João Baptista Cazarré, por crime de ofensas físicas, e querendo agora desistir do processo intentado, em consequências de empenhos que tem tido de pessoas a quem não pode deixar de servir, requer a vossa senhoria se digne mandar que, juntando-se esta aos autos, se tome pôr termo a desistência, para que produza seus efeitos legais”.

Perguntas

Por fim, compartilho aqui uma curiosidade que me acompanha há anos. Por que os bascos, espanhóis ou franceses, são tão numerosos no Chile, no Uruguai, na Argentina e no Sul do Brasil? Por que tantos deles chegaram a Pelotas em meados dos anos 1840? Falavam basco, além do francês ou do espanhol? A palavra fica com os historiadores!

*Jornalista e escritor