ARTIGO – O CASTIÇAL DE MARIA ANTONIETA?

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O Castiçal de Maria Antonieta?

Mônica Beatriz Corrêa Meyer Russomano*

Achamos que somos eternos. Assim, sem pensar, mais tipo um feeling. O que por um lado é ótimo para a nossa presunção de imortalidade e invulnerabilidade, de que precisamos até para sair de casa, mas que, por outro lado, é péssimo por nos levar à procrastinação. Quem é eterno, tem a eternidade por diante, certo? Então pra que fazer hoje o que se pode deixar pra amanhã? Melhor protelar o não prioritário, o que não é pra já, e empurrar com a barriga o que der. Mesmo que as coisas se amontoem. Basta desencanar. Será? Lamento informar que não…

Mas sou ré de condenação por isso. Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa por remanchar e postergar o que deu, acreditando que tudo continuaria disponível a perder de vista, contanto que não se tocasse no assunto. E eu não tocava. A que preço? O de carradas de informações no beleléu.

Eu viajava a Pelotas, na última etapa, triste, porém saudosa, dos meus Pais, no máximo a cada quinzena e por 500 quilômetros (250 + 250) de estrada, de 1997 a 2010. Treze anos, quatro meses e três dias. Transcorrida cerca de uma década do acidente doméstico da minha Mãe na madrugada gélida de 7 de junho de 1997, a três dias do meu 47º aniversário, ela se foi, e meu Pai logo se tornou inválido. Minhas irmãs e meu irmão moravam longe. A bola estava comigo e chutei, indo e vindo de automóvel de Porto Alegre a Pelotas e vice-versa nos fins de semana – antes do naufrágio titaníctico da ULBRA, onde lecionei e tive cargos de direção acadêmica por 33 anos e tanto – como uma espécie de caixeira-viajante, carregada de panaceias, bobagens de pouca serventia, e uma infinita disposição de conversar, numa rotina que parecia que não se acabaria. Mas que se acabou. Abruptamente. E não anotei patavina. Ou anotei mixarias. Sobrou uma merreca. Como no caso do castiçal que supostamente pertenceu à Rainha de França, Maria Antonieta, e cuja estória o Pai me contou num róseo entardecer pelotense, de 2008 ou 2009, na suíte também rósea que se abria para a Barroso e se mantinha como minha Mãe decorou, em que ele foi prisioneiro das limitações da velhice de 2008 a 2010. Ele era um narrador notável!

Adorei a conjetura e escrevi a respeito em 2012 ou 2013. No entanto, um tio que leu a crônica me aconselhou a engavetá-la: e se causasse um banzé??? Uma celeuma que me tirasse o castiçal?! Engavetei. O resultado? Que se perderam detalhes. Mas não do cenário. No lugar em que estávamos, aprazível e cheio de flores, antiguidades e quadros, além dos fantasmas, só nós dois, botando conversa fora num papo descontraído. A enfermeira saíra discretamente ou para curtir o intervalo. Não me ocorreu cortar o barato e a oratória pra sair voando em busca de caneta, papel, tablet ou tralha do gênero, e escrachar a transitoriedade daquilo, a dele e a de nós dois juntos. Afinal, tínhamos um bocado de tempo pela frente, não tínhamos?! Não. Não tínhamos.

Mas vamos ao que interessa, com um parêntese prévio, se permitirem. Fui uma pessoa especialmente afortunada e privilegiada pelo convívio com personalidades marcantes, muitas delas do ramo Antunes Maciel da ex-Chácara da Baronesa, como minha querida prima e tia-bisavó Sinhá, filha dos Barões de Três Serros, e a “tia” Déa, que, uma vez, me chamou a atenção para um óleo de uma das salas – a de “Jogos”, a “Azul” ou a “Rosa”? – de “grande valor” segundo ela. Eu já não era menina. Com a petulância dos excessivamente jovens, embora escondendo com cuidado minhas restrições quanto àquele retrato de um senhor gordo(?) e feio(?), com mãos mal definidas, que agora não considero nem tão gordo, nem tão feio, concluí, com meus botões, que jamais penduraria a tal da tela valiosa num ambiente meu por mais cara que fosse. Que besteira! E que convencida! Mas chorar sobre leite derramado não soluciona lhufas, droga nenhuma. Prefiro resgatar o que der. O modelo? Creio que foi o pai do Barão, o Coronel Annibal Antunes Maciel (I), sentenciado à ironia do anonimato na residência do próprio filho por confusão de quem assessorou o Museu, que o divulga como outro dos meus primos, o Barão de São Luiz II… Infelizmente, graças à minha comentada negligência e desleixo, não estou segura na verdade de que seja Annibal (I), mas não valeria o esforço dum expert olhar a pintura de perto pra identificar o artista???

Uma peça octaédrica metálica filigranada – ou rendilhada? – que se finca na única vela, tem oito cristais engastados, com uma lapidação primorosa, cada um de uma cor. Com a chama, a luz multicolorida se espalha e reflete por todas as partes.

E os vidros rubros ao redor do pátio do algibe? Ao pôr do sol tingiam de vermelho o piso dos corredores internos, mas… foram substituídos por martelados de cores pastel – anteriormente à Doação – em alta das primeiras décadas a meados do XX. Meu pitaco? Que deveriam trocar os atuais por iguais aos oitocentistas originais. É a minha modesta – e, confesso, parcial e sentimental – opinião. Isto sem reincidir nas minhas denúncias pregressas dos arcos ogivais da capela, transformados em romanos – por conta da Baronesa espírita? – e do Fingimento deletado da torre do banheiro externo.

Ah, que falta sinto do Chá da Chácara com montes de delícias, como os biscoitos finiiiinhos de aveia e os sonhos de forno com calda quente aromatizada! Por que não um revival?! A cidade se amarraria! Fechando o parêntese, o castiçal, por felicidade, está praticamente irretocável! É de latão, com uma haste encimada por um espelho oval de moldura rendada, que sustenta o suporte de altura regulável da vela, dotado de uma bobèche de cristal incolor trabalhado. Uma peça octaédrica metálica filigranada – ou rendilhada? – que se finca na única vela, tem oito cristais engastados, com uma lapidação primorosa, cada um de uma cor. Com a chama, a luz multicolorida se espalha e reflete por todas as partes. O design é incrível! Necas de pitibiriba de solda. Apenas encaixes, garras minúsculas e “minirrebites”. Se um especialista examinasse e testasse os materiais, determinaria a data e o lugar de procedência, imagino.

Ele permaneceu orgulhosamente exibido, durante um bom meio século, sobre uma das mesinhas da saleta de visitas mais reservada, por razões de segurança, dadas as quatro crianças e os vários criados à roda, no “nosso” sobrado de tijolos à vista da Barroso. E, somente por isto chegou a 2020.

Ele permaneceu orgulhosamente exibido, durante um bom meio século, sobre uma das mesinhas da saleta de visitas mais reservada, por razões de segurança, dadas as quatro crianças e os vários criados à roda, no “nosso” sobrado de tijolos à vista da Barroso. E, somente por isto chegou a 2020. Quem o deu aos meus Pais? Um grande amigo de uma família tradicional local. Com projeção nacional, pelo que lembro. Mas como não tenho absoluta certeza da identidade e posso estar enganada, não vou citar o nome. Uma pista: foi alguém com antepassados aristocratas franceses e um deles, no mínimo, teria conseguido fugir da Revolução de 1789, alcançado Portugal, aonde parece que viveu até estourarem as Guerras Napoleônicas, e zarpado para o Brasil, rumo ao Sul, trazendo com ele o castiçal. A relíquia – e eventual pé-de-meia e passaporte para a liberdade – felizmente poupada de um suborno plausível em tempos horrivelmente bicudos e de tamanha adversidade, passaria de geração em geração por 150, 200 anos… pelos meus Pais e… por mim, que sou fissurada em transparências coloridas e fui flechada de amores por ele, mal o vi, em guria.

Ele seria, de fato, de Sua Alteza Real Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine, a Consorte do Rei Luís XVI e Arquiduquesa da Áustria??? E o que ligaria o prófugo à Rainha? Ora, pipocas, uma Dama de Honra! Uma tataratataravó do herdeiro pelotense a quem a soberana resolveu agradar ou agradecer um favor. Ou a moça ou senhora furtou-a ao se escafeder?! Vai saber… Mas, caso tenha sido isso, é pra lá de perdoável – e inclusive elogiável – já que ela salvou algo tão magnífico. A hipótese toda não é inverossímil. As Aias nunca foram serviçais e, sim, acompanhantes nobres, com relações quase de amizade com a cabeça coroada que auxiliavam e apoiavam. Mas um apetrecho grã-fino e frágil, como esse, duraria, com tantas peripécias e deslocamentos? Bem, se ele sobreviveu à balbúrdia infantil russomânica e a um exército de empregados domésticos, ainda que proibidos de mexer nele, poderia ter durado…

Eu, não mexia. Não antes da difícil tarefa que me coube de esvaziar a casa da Barroso, depois da partilha de móveis e objetos, para a qual estivemos os quatro em Pelotas, com a morte do Pai em 2010. Se disputávamos um item, este ia a sorteio e o vencedor não concorria de novo enquanto a gente não empatasse. Contudo… ninguém, além de mim, quis o castiçal… que não se rifou e veio pra POA. Mas, por volta de 2015, um dos meus irmãos pediu, suplicou, implorou por ele e, frente à insistência, não resisti e cedi…

O que pensava o Dr. Mozart disso tudo? Putz, dizem que o amável presenteador devaneava um tantinho e era um sonhador, um romântico… motivo principal – talvez – de algumas reticências do Pai sobre essa origem, mas ele admitia, entretanto, a possibilidade, repito, a pos-si-bi-li-da-de, do relato ser verídico… Um castiçal de Maria Antonieta em terra gaúcha?! Impossível não é… mas se non è vero, pelo menos dá uma boa duma história, não dá?

*Arquiteta e professora