ARTIGO – MARIA AMARAL SILVEIRA, 97 ANOS

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28 de outubro de 2020.

MARIA AMARAL SILVEIRA, 97 ANOS.

Ela tem um olhar cheio de Luz.

Tenho procurado repor o brilho nos olhos ao visitar mentalmente alguns endereços de tempos vencidos, como a casa da Marechal Deodoro, de Dona Maria Amaral Silveira: ali eu a conheci quando tinha apenas dezoito anos de idade, época na qual fortalecemos laços até chegarmos a este vinte e oito de outubro de 2020, data consagrada a São Judas Tadeu, para, sob sua proteção, comemorarmos os seus 97 anos de vida. Aprecio presenteá-la com imagens, flores e chocolates. E já sei por antecipação aquela que é a frase dos últimos vinte anos: -“Meu filho, assim vocês querem me levar ao Centenário”.

Um antigo colega de pensão de Delfim Mendes Silveira em Porto Alegre deliciava-se em dizer ao telefone, durante conversas nossas, que a voz de Dona Maria era, sim, a voz de uma moça, e que a cada conversa entre eles essa voz soava aos ouvidos de Paulo Brossard de Souza Pinto cada vez mais jovem. E qual seria esse segredo, perguntaram muitos lá atrás no tempo. Pois bem simples é essa resposta, digo-lhes agora: trata-se de uma fé inabalável! Um amor incontido pela Vida! Um coração do tamanho do mundo e um espírito elevado, posto sempre acima das fragilizações humanas e disposto a compreender com infinita paciência as dores alheias.

Assim a vemos: uma energia incomum alicerçada no otimismo durante 97 anos, sempre ciente de que as nossas ações são os nossos dias, e que por elas se contam os anos, por elas se mede a vida. Maria Amaral Silveira  mostrou-nos pulso firme quanto às suas altas responsabilidades no contexto familiar desde aquele 9 de agosto de 1992, convencida de que o amor próprio é o amigo leal que nunca nos desampara em nossos maiores infortúnios.

E repetiria isso,  em meu próprio benefício, quinze anos mais tarde, sentada ao meu lado durante um dia inteiro: – Aceita o que te cabe sem te revoltar, suporta e exercita a paciência. Era o dia 22 de abril de 2008, dolorosa data da despedida de Dona Eneida, a minha mãe. Compreendi, ali, que Dona Maria continuava sendo para todos nós, os seus afetos,  um inesgotável sinal de esperança!  Meu filho, a esperança faz você compreender e assimilar todos os momentos difíceis desta vida, enquanto a sagrada natureza te irá revelando, à sua hora, seus mais ocultos mistérios.

Inteiramente apegada à sua filha e aos seus netos, diz que também vive por eles, e costuma repetir uma preciosa lição de vida: – Sempre que te quiseres alegrar, considera os méritos dos que contigo vivem. A operosidade de um, a modéstia do outro, a generosidade do terceiro, as diversas qualidades dos demais. Nada é mais grato do que a imagem das virtudes brilhando nos costumes dos que vivem conosco, mormente quando avultam, numerosas.

A ti, que és um andarilho, aconselhou-me recentemente do alto de seus 97 anos:- neste teu tempo de maturidade depois de tantas andanças pelo mundo, abandona os grandes caminhos e segue as trilhas, sem esquecer em nenhum instante do significado da Cruz, pois ela é a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem.  Nela se juntam o céu e a terra. Confundem-se o tempo e o espaço. Ela é o cordão umbilical , jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário,  do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do Universo e comunicação terra-céu, pois onde está a cruz, aí está o crucificado.

Estimada Maria Amaral Silveira: cientes da infinita bondade de Deus e voltados para  esse generoso sinal de luz que brota de teu  espírito guerreiro e quase centenário, inspiremo-nos  hoje no Santo das grandes causas, aquele que contigo divide o 28 de outubro, para fazermos – todos nós, os teus familiares e os teus  amigos –  em demonstração de graça pela tua vida, esse sinal da Cruz que tanto aprecias: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.

(CR). 28 de outubro de 2020.