ARTIGO – UM CADÁVER INSEPULTO

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Em recurso da família de Aída Curi, uma jovem que foi assassinada após uma tentativa de estupro, em 1958, no Rio de Janeiro. O Julgamento desse Recurso pelo STF, mais do que um cadáver insepulto, é um insulto, pois mostra uma justiça tardia e hipócrita e teve o condão, ainda, de evocar que o nosso Judiciário continua igual, pois mesmo com o advento da Lei Maria da Penha, em 2006, a impunidade rola solta no País.

UM CADÁVER INSEPULTO.

Ivon Carrico*

Em 1958, no Rio de Janeiro, uma jovem foi abordada e, após breve discussão, arrastada para o interior de um prédio em Copacabana onde terminou sendo morta ao ser jogada da cobertura daquele residencial após resistir ao assédio. O crime estarreceu o Brasil.

O envolvimento de jovens da classe média abonada ensejou um Julgamento pra lá de suspeito com o Tribunal do Júri, simplesmente, sublimando as provas técnicas o que permitiu, então, condenações pífias com penas muito leves.

O Processo judicial causou tanta indignação que a famosa revista “O Cruzeiro” publicou, à época, matéria onde dizia que a jovem Aída Curi fora morta duas vezes: uma em 1958 e outra no Júri perpetrado naquele início dos anos 60!

A década de 50, por sua vez, foi os tempos da “jeunesse dorée” (juventude dourada), como diriam os Franceses. Eram os “Anos Dourados”. De muitas expectativas por mudanças.

Por aqui o Rio ainda era a Capital Federal, a metrópole que ditava e queria a mudança das regras comportamentais para um Brasil, digamos, ainda provinciano.

Isso era tão gritante que o Ronaldo Castro, principal acusado, pasmem, lançou até moda: os óculos que usava. Já o seu comportamento transgressor enebriava multidões de jovens no País.

Enquanto isso nos USA surgia Elvis Presley que escandalizava com o rock’n roll e, no cinema Hollywood aterrorizava com James Dean no filme “Juventude Transviada”. Eram o modelo e o clímax da transgressão… A perversão social, diriam alguns!!…

Era nesse ambiente que surgia uma nova classe média onde sua juventude entendia que não havia limites e, tampouco, pudor para suas pretensões.

Foi desses jovens, assim, com essa mentalidade, no Rio de Janeiro, a autoria desse bárbaro assassinato.

Em 2004, quase 50 anos depois, a Rede Globo, por meio do Programa “Linha Direta” desenterrou o assunto e ignorou os apelos dos irmãos da Aída Curi que – invocando o esquecimento – não queriam mais remoer esse assunto, razão pela qual judicializaram a questão mediante Recurso interposto.

Mas, decorridos mais de 60 anos do triste episódio, o STF – em Decisão prolatada a semana passada – não acolheu a tese do esquecimento

O Julgamento desse Recurso pelo STF, mais do que um cadáver insepulto, é um insulto, pois mostra uma justiça tardia e hipócrita e teve o condão, ainda, de evocar que o nosso Judiciário continua igual, pois mesmo com o advento da Lei Maria da Penha, em 2006, a impunidade rola solta no País. Principalmente, quando se tratar de ricos e poderosos.

Assim, …desculpem a infame metáfora, mas acabamos de assistir ao terceiro velório da Aída Curi. (Ivon Carrico – Brasília: 14/02/2021)

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, mais de duas década de ANVISA e atualmente está na Presidência da República.