A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – 8

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A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR

Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira

24. Debate sobre a secreta natureza dos defuntos

Para nossa grande surpresa, os agentes da Perícia Criminal – um fotógrafo e um agente – não demoraram a chegar.

 O retratista encerrou seu trabalho em um segundo: fez uma foto da morta e cruzou os braços.

– O senhor não gostaria de fazer mais fotografias? – indagou Batota, cordial. – Dona Miguela era muito famosa. Certamente, no futuro, jornalistas e historiadores virão a Brasília para examinar o laudo policial. Seria assim melhor se houvesse…

– É uma foto por defunto, meu chapa – bocejou o fotógrafo. – Ordem da chefia. Aqui, em Brasília, matam doze figuras por dia. Dá um filme certinho. Quando matam mais de doze, os últimos ficam sem o retratinho póstumo, entendeu?

– Claro, mas no caso…

– Morto é tudo igual – o retratista bocejou de novo. – Olhe essa velha! Nem com maquiagem pesada a cara dela melhora.

Quando o gerente do hotel lançou um olhar desalentado na nossa direção, resolvi apoiá-lo. Gritei para o fotógrafo:

– Amizade, o negócio é o seguinte: essa morta é famosa pra cacete no mundo inteiro. As agências de notícias pagarão o que tu quiseres pelas fotos. Com essa grana, depois, poderás até trocar de bicicleta.

A minha informação chegou rapidamente ao cérebro do indivíduo. Ele sacou a máquina e desembestou a flashar dona Miguela de tudo quanto era ângulo.

Igualmente sacudido pelas minhas palavras, o outro agente, de posse de uma trena, começou a medir furiosamente o apartamento. Verificou a distância da morta à cama, à janela, ao armário, à porta. Depois, anotou a distância entre os diversos móveis.

– Estou comovido com a dedicação do “topógrafo”, meu – murmurou Foo Lee Shi Men. – Será que ele desvenda muitos crimes com aquela trena?

– Ele não é pago pra desvendar nada – meti minha colher torta. – O coitado ganha um salário tão mixuruca que o máximo que exigem dele é que faça relatórios legíveis. No caso, com números legíveis.

25. Vergonha é roubar e não poder carregar

Finda a demorada medição, o “topógrafo” dirigiu-se ao Batota:

– A perícia está concluída, chefe. O povo que recolhe o corpo vem mais tarde.

– Quando? – indagou o português.

– Não posso precisar. É provável que venham ainda hoje…

– Mas é claro que tem de ser hoje!

– Essa questão não é com a gente. É com o pessoal do Instituto Médico Legal.

– Eles costumam demorar? – indagou Batota.

– Não quero assustar o senhor, mas eles sempre demoram – respondeu o agente. – Eles têm dois rabecões, que nunca funcionam ao mesmo tempo. Sempre um está avariado. Quebra uma peça, eles substituem com a do outro carro. Um dia, por milagre, os dois rabecões estavam funcionando. Aí, faltou dinheiro pra gasolina.

– Mas isso é uma vergonha!

– Vergonha é roubar e não poder carregar – retrucou o fotógrafo, belicoso.

O português ia replicar, mas eu lhe fiz um sinal para que ficasse calado. E murmurei, pelo canto da boca:

– A demora vai ser boa pra nós, seu Manoel. Poderemos investigar o local com calma.

Depois que os peritos embarcaram no elevador, o lusitano interrogou-me:

– As perícias nesta cidade são sempre assim malfeitas?

Respondi:

– Eu, se fosse o senhor, mudaria a pergunta. Indagaria: as perícias aqui em Brasília são sempre assim, tão minuciosas?

– Mas esses sujeitos não constatariam o assassinato de Mikahilucha mesmo que ela tivesse sido morta por um tiro de canhão – comentou Fedorova. E tomou um gole imenso para repor a saliva gasta naquela frase.

– Concordo com o jornalista – disse Águeda Christine. – Esses peritos só se esmeraram muito porque a morta é famosa demais da conta.

– Bah, vou ser o primeirão a investigar – disse Dax Chamber. – Fui eu que tive a idéia.

– Sem essa, meu irmão – estrilou Sim Et Non. – Que tal fazer um sorteio?

– Sorteio? – perguntou Bugres. – Por que não um azareio? A vida dos homens é regida pelo azar e não pela sorte.

 – Que o destino escolha nossos nomes em pedaços de papel! – disse Foo Lee Shi Man e rasgou uma folha. – Vou escrever nossos nomes aqui. Um sorteio decidirá a ordem de entrada no quarto… Bem, somos seis…

– Sete! – berrei. – Sou o único brasileiro aqui. Exijo que o Brasil seja representado nessa investigação. Basta de colonialismo!

– E os peritos, uai? – perguntou Águeda Christine. – Por acaso, eram suecos?

– Eram funcionários públicos – contra-argumentei. – Funcionários públicos não contam para nada, em nenhum país do mundo.

Um longo e generalizado silêncio, recheado de cabeças que assentiam, patenteou a aceitação da minha tese.

– Vamos logo, tchê – disse Dax a Foo. – Estou mais nervoso que galinha agarrada pelo rabo. Hoje mesmo começo a trabalhar duro num livro sobre a morte de Miguela de Alcazar.

– Deixe de ser bobo, sô – ralhou Águeda Christine. – No Brasil, o único trabalho duro que essa gente faz com gosto é comer rapadura.

Por incrível que pareça, fui o primeiro a ser sorteado. Pela ordem, vieram depois os papéis com os nomes de Dax, Fedorova, Águeda Christine, Sim et Non, Foo e Bugres.

26. Recordando a aula sobre a beleza do crime

De repente, tremi na base.

Representar dignamente meu país naquela investigação, diante de tão destacados concorrentes, mais do que um desafio, seria um dever patriótico indeclinável.

Bem, confesso que não sou dos mais patriotas. Cheguei a torcer pela seleção argentina de futebol num jogo contra a nossa. Sei que muita gente morreu por menos que isso. Mas o jogo foi no auge da nossa ditadura militar e eu acreditava que o regime cairia se a seleção brasileira fosse massacrada. E tem mais: o nosso treinador era antipático.

Tendo então resolvido pedir ajuda ao gerente, peguei-o pelo braço:

– Seu Manoel, nós dois, que falamos a língua do divino bardo que escreveu Os Lusíadas, precisamos juntar forças. Que tal unirmos a esperteza portuguesa à inteligência brasileira!

– Não seria melhor unirmos a esperteza brasileira à inteligência portuguesa? – reagiu ele.

– Seja como for! – respondi entusiasmado. – Imagine se conseguimos desvendar a morte de Miguela de Alcazar antes desses gênios da criminalística! Seria a glória para a comunidade das nações lusófonas.

– Não sei se é uma boa idéia, pá – o português vacilou.

– Mas o senhor me deu aquela magnífica aula sobre a beleza do crime perfeito!

– Era aula teórica. Na prática, a coisa muda de figura.

– O senhor é muito modesto! – empurrei-o para dentro do 1313. – Entre!

Como já disse, a cena proporcionaria um belo quadro a Velázquez. A velhota estava recostada na poltrona a mirar com olhos vagos um exemplar da Bíblia que sustentava, aberto, nas mãos. Lembrei de Medalhão lendo o Eclesiastes.

Aproximei-me da morta e lancei um olhar ao livro, que estava aberto na última página, de número 1313. O fim do Apocalipse.

– É coincidência demais pra ser apenas coincidência – murmurei.

– Que coincidência? – quis saber Batota.

– A Bíblia está aberta na página 1313, que é o mesmo número deste apartamento.

– Minha Nossa Senhora de Fátima! – o português persignou-se. – Isto é sobrenatural, com certeza. Até fico com os cabelinhos do sovaco em pé.

Inclinando-me sobre a defunta, percebi que havia uma pequena tira de papel solta na página 1313. Discretamente, peguei-a.

– É um bilhete! – excitado pela descoberta, passei-o a Batota. – Leia!

27. Há lugar para todos na lista de suspeitos

Escrito em português, em letras de forma, tremidas como se rabiscadas por alguém muito velho ou nervoso, o bilhete anunciava:

Durante o Congresso, eu te desmascararei, Miguela. Apontarei os trechos dos vários livros que plagiaste ao escrever O touro maltês.

A assinatura era uma só letra: S.

– Raios! Esse bilhetinho prova que dona Miguela foi assassinada! – concluiu o português.

– Não prova nada – retruquei. – Mostra apenas que ela corria o risco de ser desmascarada por alguém. Ou que alguém a queria chantagear.

– Quem será esse misterioso S? – perguntou ele.

– Poderia ser o S de Shi, ou de Sim et Non.

– Sem dúvida!

– Mas poderia ser também o S de Strandford – acrescentei. – É o sobrenome de solteira de Águeda Christine.

– Que loucura! – exclamou Batota. – Assim, só ficam de fora o argentino e o americano.

– O americano, não! – estrilei. – Ele é conhecido no seu país como Dax “Speedy” Chamber. Em português, seria: Dax “Ligeirinho” Chamber.

– Então, só fica de fora o argentino – concluiu o portuga. –

– Não! – gritei. – Ele estará em qualquer lista de suspeitos que eu fizer. Tem dois esses perdidos no meio do seu nome.

– Mas valem os esses espalhados pelo nome?! – indagou Batota, olhando-me pelo canto de olho. – Nesse caso, Campestre de Campos, tu entras também para a relação dos suspeitos. Só eu, Manoel Joaquim Batota, estou livre dessa letra fatídica.

– Justamente por isso, por ser o único aqui que não tem a tal letra no nome, o senhor é suspeitíssimo.

– Mas disponho de várias testemunhas a meu favor! Aliás, desde o início desta manhã, não estive um só momento sozinho.

– Também tenho um álibi – retruquei. – Desde que entrei neste hotel, estou ao seu lado. Ou seja, estamos juntos desde quando o senhor ameaçou me matar…

– Esquece aquilo. Foi uma brincadeirinha. Porém, vi que, quando chegaste ao hotel, antes de entrares no prédio, foste ao jardim. Durante esse tempo, poderias ter escalado a parede, entrado no apartamento de dona…

Aquela afirmação me indignou. Eu tinha ficado um só minutinho no pátio. E exercendo uma tarefa romântica: curtir o aroma da terra molhada pela chuva!

– O que fazia o senhor antes de chegar à portaria do hotel, onde tentou arrancar-me o braço?

– Estava no meu escritório, mais precisamente no quarto de banho.

– Num local onde nunca há testemunhas, não é?

– Tu és paranóico, pá! Do gênero dos que vêem pentelhos até em bolas de bilhar.

– Se ocorre uma morte num congresso de escritores policiais – retruquei -, até mesmo um pacato português vira suspeito.

*Jornalista e escritor.