DA METSUL METEOROLOGIA: O GRANDE E ARRASADOR CICLONE DA ÚLTIMA GUERRA CIVIL DOS GAÚCHOS

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Ciclone de julho de 1923 ocorreu em meio à última guerra civil gaúcha | ARQUIVO HISTÓRICO

O Rio Grande do Sul enfrenta uma guerra civil quando no meio da revolução de 1923 um ciclone espalhou destruição em julho no estado

Autor: METSUL.COM 19/07/2023 – 19:47
Original: https://metsul.com/o-grande-e-arrasador-ciclone-da-ultima-guerra-civil-dos-gauchos/ .

Um ciclone se formou sobre o Rio Grande do Sul entre os dias 12 e 13 de julho de 2023 com vento perto de 160 km/h, muitos estragos e oito mortes. Houve vítimas fatais no Rio Grande do Sul (5), Santa Catarina (1) e São Paulo (2). Milhões de pessoas ficaram sem luz em algum momento durante a atuação do ciclone. Enchentes castigaram cidades, vendavais espalharam destruição, e granizo destruiu telhados de milhares de casas. No Rio Grande do Sul, conforme levantamento da MetSul Meteorologia a partir de diferentes redes de estações de monitoramento, as rajadas atingiram 151 km/h em São Francisco de Paula, 148,1 km/h em Cambará do Sul, 146,3 km/h em Rio Grande, 133,0 km/h em Imbé (Ceclimar), 104,4 km/h em Cachoeira do Sul e 100,4 km/h em Canguçu.

Em Santa Catarina, segundo a rede da Epagri, o vento chegou a 157 km/h em Siderópolis, 147 km/h no alto do Morro da Igreja (Bom Jardim da Serra), 115 km/h em Rancho Queimado, 113 km/h em Urupema (Morro de Urupema), 107 km/h em Laguna e 100 km/h em Itapoá. Além do vento, o ciclone trouxe chuva volumosa com inundações e enchentes no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As precipitações em algumas cidades passaram dos 200 mm. Houve cheias dos rios Caí, Sinos e Uruguai, dentre outros. O Lago Guaíba também passou por cheia de pequeno porte.

Houve ainda a formação de uma poderosa linha de instabilidade associada ao ciclone com vendavais destrutivos em que registraram microexplosões e tornados no Noroeste gaúcho e no Oeste de Santa Catarina. O granizo, horas antes, destelhou mais de duas mil casas no Rio Grande do Sul. Foi mais um de tantos ciclones extratropicais que atingiram o Rio Grande do Sul ao longo da história, sendo um fenômeno recorrente no nosso clima ao longo dos anos. Áreas ao Sul do paralelo 30ºS são frequentemente influenciadas por sistemas ciclônicos no Atlântico, sobretudo entre os meses do outono e da primavera com ápice no inverno, mas poucos destes sistemas trazem tamanho impacto no território gaúcho, como os eventos de junho e julho de 2023. A MetSul Meteorologia apurou e divulga agora, com base em pesquisa exclusiva de registros históricos, que um intenso ciclone extratropical castigou o Rio Grande do Sul quase na mesma data do ciclone de julho de 2023, mas exatamente cem anos antes, em 1923, também na segunda semana de julho. Em meio a uma revolução no estado. Com base nas poucas notícias publicadas à época, a MetSul consegue neste momento contar e reconstruir a história do grande ciclone da guerra de julho de 1923.

O CICLONE DA REVOLUÇÃO COMEÇOU COM TEMPORAIS

Em 1923, o Rio Grande do Sul estava em pé de guerra. Foi o ano da revolução. A atmosfera que preocupava era a política e militar. Os gaúchos enfrentavam mais um movimento armado em sua história que coloca de um lado os partidários do presidente do estado, Borges de Medeiros, os chimangos, identificados por lenço branco, e de outro os revolucionários aliados de Joaquim Francisco de Assis Brasil, os maragatos, de lenço vermelho.

Eis que em julho, em meio à conflagração, uma grande intempérie se abateu sobre os gaúchos. Na segunda semana do mês, ciclone extratropical intenso atingiu o estado com chuva excessiva, ventos destrutivos, violentas tempestades de raios e granizo, e inundações. Cidades por todo o estado enfrentaram transtornos e danos, além de inundações. Na noite de 9 para 10 de julho de 1923, fortes tempestades de chuva, raios e granizo passaram a castigar o Rio Grande do Sul. O jornal Correio do Povo descreve “terça-feira (10) desabou sobre a cidade de Santa Maria um violento temporal, caindo grande quantidade de granizo, chegando em alguns momentos a causar pavor, tal o barulho que produzia nos telhados e a profusão de relâmpagos que se cruzavam em todas as direções”.

O temporal de granizo e vento em Santa Maria quebrou vidraças, destelhou construções nas zonas rurais e ainda causou colapso de “rancho” e galpões. A chuva intensa gerou inundações com transbordamento de arroios e riachos. A cidade do centro do estado teve danos das redes elétrica e de telefonia.

A cidade de Santa Maria ficou às escuras por duas vezes em consequência da tempestade severa. Viagem de trem que deveria ter alcançado a fronteira teve que ser interrompida devido à queda de um pontilhão. Em São Sepé, também no centro gaúcho, as inundações foram descritas como grandes.

Em Porto Alegre, a tempestade na formação do ciclone ou passagem da frente fria associada – o que não é possível distinguir por inexistirem satélites à época – igualmente causou problemas na cidade com tempestade de chuva, raios e vento.

O Correio do Povo à época noticiou que a capital gaúcha foi atingida por muitos raios (“faíscas”) e que uma descarga elétrica chegou a causar incêndio na então residência do Dr. Maurício Cardoso, hoje nome de logradouro público na cidade.

FALTA DE LUZ, TELEFONE E BONDES PARADOS

No ciclone de julho de 2023, quase 800 mil clientes, ou entre 2,5 e 3 milhões de gaúchos ficaram sem luz. Um século antes, no ciclone de julho de 1923, muitos gaúchos também ficaram às escuras. O Leste do estado, especialmente a área de Pelotas, sofreu muito com a tempestade de um século atrás. Notas sobre o mau tempo publicadas pelo jornal Correio do Povo à época descrevem que os temporais e o intenso vento causaram graves problemas para a rede de telefonia que o diário descreveu como             “consideráveis” para a Companhia Telephonica Rio-Grandense. “Rara sendo a rua em que não houve linhas rebentadas e postes caídos”, descreve o jornal. O Correio do Povo noticiou ainda fogo na rede elétrica de Porto Alegre e também problemas nos serviços de bonde da cidade, o principal meio de transporte da época. O vento muito forte, que o jornal descreve como um “tufão” (hoje nomenclatura usada para ciclones tropicais no Pacífico Oeste, causou queda de árvores e danos como desabamentos. As notícias davam conta ainda de cheias de vários rios, como o Uruguai, pelas intensas chuvas.

PAVOR NO MAR E NAUFRÁGIOS

Se hoje o avião é a principal forma de transporte a longas distâncias, trens e barcos eram os meios para locomoção em viagens em 1923. O transporte de cargas por barcos também tinha grande importância e o tráfego de navios recebia grande atenção nos jornais diariamente.

O ciclone de 1923 causou um enorme impacto na navegação. As notas publicadas pelo Correio do Povo, a partir das informações do Porto de Rio Grande, relatam que várias embarcações pediram socorro na costa. Algumas relataram água entrando no casco. Outras estavam incomunicáveis.

O ciclone provocou graves consequências para o transporte marítimo também na costa uruguaia, o que sugere que o sistema atuava sobre o mar ou na costa do Rio Grande do Sul ou na região do Rio da Prata.

As notícias publicadas pelo Correio do Povo na segunda semana de julho de 1923 informavam de vários navios que encalharam na costa do Uruguai. Um deles, o brasileiro Cáceres, uma chata a vapor, teve um grande rombo no casco e foi dada como perdida no litoral do Uruguai. Os seus 28 tripulantes foram salvos e levados para o porto da cidade uruguaia de La Paloma, no departamento de Maldonado. FRIO EXTREMO E NEVE APÓS O CICLONE Como é comum depois de um grande ciclone de inverno com intenso vento “Minuano”, vem o frio e normalmente intenso. Foi assim em 2023, mas foi muito mais em 1923. Os dias que se seguiram à tempestade no Rio Grande do Sul foram congelantes no estado.

O Correio do Povo noticia que nevou por dois dias em Caxias do Sul, como não se via há anos. “Não só aquela cidade serrana, mas também seus arredores vêm apresentando um aspecto bizarro, pois telhados e árvores se acham completamente cobertos de neve”. Em Passo Fundo, nota descreve que nevou por um dia inteiro.

A grande nevada pela interação da umidade da circulação ciclônica com o ar polar. Trata-se da clássica situação de inverno de grandes nevadas com potente ciclone na costa e poderosa alta polar continental sobre o Centro ou o Norte da Argentina.

Passada a circulação ciclônica, chimangos e maragatos passaram a enfrentar temperaturas congelantes no estado com geada muito forte e generalizada. Com base em dados do Instituto Astronômico e Meteorológico, a temperatura em Porto Alegre desceu a 0,7ºC abaixo de zero em um dia e 1,1ºC abaixo de zero em outro com muita geada nos arredores da cidade. Em Vacaria, a temperatura despencou a 7,7ºC negativos. (Pesquisa histórica e texto de Alexandre Aguiar com agradecimento a Renato Bohusch do arquivo do jornal Correio do Povo).

Fonte: METSUL METEOROLOGIA – www.metsul.com

O grande e arrasador ciclone da última guerra civil dos gaúchos