ARTIGO – ZONA DA LUZ (PARTE 3)

388
Quadro feito a partir de uma fotografia da antiga igrejinha da Luz, encomendado por José Cordeiro de Araújo à artista plástica Cristiane Carbone, especialista em retratar prédios antigos. Arquivo pessoal.
Lourenço Cazarré. Foto: José Cruz.

ZONA DA LUZ (3)

Lourenço Cazarré*

Havia uma venda (misto de armazém e boteco) numa das quatro esquinas da Rafael Pinto Bandeira com a Gonçalves Chaves. Detalhe a dona do estabelecimento era conhecida como dona Pereca. Não se engane: as sílabas eram apenas três.

Jogo do bicho

Na venda da dona Pereca, todo dia, meu avô fazia o seu joguinho do bicho. Ganhava umas mixarias de vez em quando. Ele tinha a mania de fazer apostas de dezenas ou centenas do primeiro ao quinto, e invertido.

Guri bom de Matemática, eu não sabia exatamente do que se tratava, mas entendia que o velho, na medida em que aumentava suas chances de premiação, diminuía, em idêntica proporção, as suas possibilidades de beliscar um bom prêmio.

O Elefante

Da venda da Dona Pereca eu guardo uma lembrança. Era nela que comprávamos as figurinhas de um álbum que foi uma febre em meados dos anos 1960. Não sei o nome do álbum, mas posso garantir que a figurinha mais rara era a do Elefante, a 126.

Já o Zé Cruz afirma que a maior atração daquela venda era um papagaio, domesticado ou de asas cortadas, que fazia a alegria da garotada.

Nomes incomuns

Lembro de outros dois garotos da Zona da Luz que tinham nomes incomuns: um se chamava Johnson e outro Alois.

Botões

Muito anos depois de ter deixado Pelotas (saí em 1976), meu irmão Carlos Augusto, o Guto, costumava ir frequentemente à Zona da Luz para comprar botões (para o futebol de mesa) do Antoninho Beck, que os fabricava em acrílico.

Assis Brasil

Não, eu não estudei no óbvio Assis Brasil, inclusive porque, naquela época, (acho) ele só recebia garotas.

Peculiaridade: nos anos 1960, havia colégios em Pelotas que só domesticavam viventes de um determinado gênero. Exemplos: São José, só gurias; Gonzaga e ETP, exclusivamente barbados.

O Assis Brasil, informam-me fontes fidedignas, funcionou como escola mista até 1961 ou 1962. Dali para a frente, os varões que quisessem continuar a estudar naquele mesmo educandário precisavam obrigatoriamente migrar para os cursos (ginasial, clássico ou científico) noturnos ou se transferir para outros colégios.

Aliás, durante a noite aquele prédio mudava até de nome: tornou-se Dom João Braga e, depois, Monsenhor Queiroz.

Quando escrevi a palavra “óbvio” foi porque aquele era o grande colégio da Zona da Luz.

Alunos do Primeiro Ano do Curso Primário do Assis Brasil em 1955, comandados pela professora dona Ione. Gostaria qe quem identificasse alguém na foto enviasse uma mensagem para contato@pelotas13horas.com.br    Foto: Arquivo pessoal.

Nome de santo

Estudei, isso sim, no modestíssimo Grupo Escolar São Vicente de Paulo, escolinha que ficava encravada na lateral do Assis Brasil pela Anchieta. Nunca entendi como uma escola pública pudesse ter recebido um nome de santo.

Rezando muito em Bagé

Voltando no tempo. Atravessei rezando as três primeiras séries Curso Primário no Instituto São Benedito, de Bagé. Orávamos quatro vezes por turno: na entrada, na ida ao recreio e na volta e, por fim, ao deixar a escola.

Se reza ajudasse nos estudos, nós todos seríamos gênios em algum momento de nossas vidas.

A surra

Em abril ou maio de 1963, ingressei na quarta série do Primário do São Vicente de Paulo.

Lembro-me especialmente de uma surra que tomei de um guri bom de boxe (ou seria eu um péssimo boxeador?). Atravessei o pátio, andando de costas, recebendo um soco atrás do outro. Foram uns dez metros de retirada em acelerado. Não acertei um só murro no indivíduo. Muitos anos depois, já taludos, nos reencontramos. Ele era então bem mais baixo do que eu. Me senti tentado a uma desforra.

A merenda

Outro fato de que me recordo do São Vicente: tínhamos um colega – o mais abastado, cujo pai possuía um comércio forte no centro que, além de devorar o farto lanche que trazia de casa, insistia em comer a merenda escolar.

Não me lembro de ter comido, nunca, a merenda da escola. Mastigava com gosto o pão recheado com mortadela ou goiabada pela vó Edméa, que era quem, aliás, assinava com sua bela letra torneada os meus boletins.

Minhas professoras do GESVP: no quarto ano, dona Noemy Borda; no quinto, dona Zilda Coelho.

O fracasso no Pelotense

No final do quarto ano, inscrevi-me para o exame de ingresso ao Admissão ao Ginásio do Colégio Pelotense.

Esse tal Admissão era, na verdade, o quinto ano do Primário. Lembro de ter sido levado ao grande colégio do final (ou seria começo?) da Avenida Bento Gonçalves pela minha avó.

Mas não estudei para as provas. Era aluno de boas notas do São Vicente e achei que estava dentro. Não estava.

Aquela não-aprovação foi um excelente remédio, porque, no final de 1964, ingressei entre os primeiros no muito disputado exame de admissão ao Ginásio Industrial da Escola Técnica de Pelotas.

Curtumes

Lembro que em outra das esquinas da Gonçalves Chaves com a Rafael Pinto Bandeira funcionava um curtume, o Thompsom, que pertencia a três irmãos que residiam em casas na mesma quadra.

Curtume, simplificando, era um estabelecimento que processava couro cru a fim de torná-lo adequado ao uso industrial ou para venda no atacado. Havia muitos deles em Pelotas.

O meu tio Antônio Milton batalhou por uns cinco anos no escritório do Curtume Júlio Hadler, que ficava na Professor Araújo. Durante esse tempo cursou História, à noite, na Universidade Católica.

Falecido precocemente, em 1996, tio Milton foi professor benquisto por alunos do Gonzaga e dos colégios públicos nos quais lecionou.

O tio Milton gostava muito de carnaval. Com alguns amigos, escreveu um samba-enredo para a Escola de Samba Ramiro Barcellos.

Também era louco por peladas de futebol de salão. Eu o vi atuando algumas vezes pelo time do padre Schramm. O tio era daqueles zagueiros que, por via das dúvidas, chutavam até mesmo a própria sombra.

Antônio Milton e Edméa em frente à casinha da Luz. Foto: Arquivo pessoal.

A palavra “zona”

Neste ponto da nossa conversa, alguém me informa que, como “pensão”, a palavra “zona” não tem em Pelotas o mesmo sentido de que desfruta em outros lugares da nação tupinambá. Sei bem disso porque sou um dos autores do valioso e celebrado Almanário de Pelotas.

Na princesa do Sul, “zona” é sinônimo de vila ou bairro.

Quando se apresentam um ao outro, dois pelotenses falam assim:

– Eu sou da Zona da Várzea e tu, da donde tu saiu?

– Da Zona da Luz.

Em terras incultas, ou seja, fora da Atenas Sul-rio-grandense, ou seja, em toda a terra dos papagaios, a palavra “zona” indica o lugar no qual se faz, digamos, o comércio de carne humana.

Até aqui eu não havia tocado do assunto porque, quando escolhemos a expressão Zona da Luz, para titular este artigo, estávamos a indicar que este escrito seria solar, luminoso, banhado pela Luz.

Padres boleiros

O padre Schramm era também um baita craque de bola, garante José Cordeiro de Araújo.

Aliás, tive um amigo, Carlos Moraes, padre e jornalista, falecido recentemente, que jogava uma barbaridade. Nunca entendi porque trocou o silêncio da sacristia pela balbúrdia das redações.

Índio grosso de Lavras do Sul, Moraes tomou um banho de cultura (literatura e música erudita) estudando no Seminário de Pelotas.

Dos seus anos de seminarista, Carlos Moraes guardava boas lembranças do Laranjal e de um campo de peladas dos irmãos do Gonzaga, lá pela Dom Joaquim.

Sobre a categoria do padre Moraes como atleta fala o artista plástico Ênio Squeff, gaúcho exilado na Paulicéia:

– Quando incorporava o centroavante, o padre era um verdadeiro demônio.

Visita com a ajuda do Google Earth

Dias atrás, recorrendo ao Google Earth, voltei à Rua da Luz. Visitei inicialmente as duas casas das esquinas, das quais eu me lembrava bem. São as mesmas.

Na confluência com a Anchieta, há uma residência que foi inovadora naquela época, ou seja, possuía um pátio na frente e uma garagem.

Como todos sabem, as casas mais antigas da velha Pelotas – eu diria que a maioria – são de portas e janelas rentes às calçadas. Os pátios, quando existiam, ficavam nos fundos do terreno. E as garagens, nos anos em que os automóveis eram poucos, eram muito raras.

Recordo que um morador daquela casa tinha, na metade dos sessenta, um automóvel incomum, uma berlineta Interlagos.

O Google Earth me mostrou que as casas daquela rua de uma só quadra eram bem mais numerosas do que as da minha lembrança. São umas dez, com um pequeno edifício pelo meio.

Do outro lado da rua, só havia duas construções: a igrejinha e a residência do pároco. Para ir à missa, bastava que eu e vó atravessássemos a rua.

Coroinha atarantado

Certa vez, não sei como, me vi sobre o altar, ao lado do padre Schramm. O coroinha oficial não comparecera. Era de manhã bem cedo e não havia por ali, naquela hora, outro mandinho dando sopa. Lembro da tortura que padeci durante uma hora porque não sabia a hora certa de ajoelhar ou de me pôr em pé.

O meu agacha e levanta não coincidiu, em momento algum, com o do paciente pastor de almas.

Por falar nisso, confesso que só frequentei a Casa de Deus até os catorze anos. Abandonei-a quando era um fiel não muito fiel da igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Vila do Sapo.

A morte

Vou fechar o causo da Rua da Luz com a morte do meu avô, em julho de 1968. Eu ainda não havia feito 15 anos e já trabalhava, fazia uns poucos dias, como contínuo (entregador de correspondência) do Banco da Lavoura de Minas Gerais, que tinha uma agência na rua Quinze, perto da praça Coronel Pedro Osório.

Não sei como fui informado da morte, mas o certo é que, pelo meio da tarde, chego à capela mortuária da Santa Casa na qual estava o corpo de meu avô.

Não permaneci por ali muito tempo, não fiquei para o enterro, porque precisava acabar de entregar umas cartas. Saí logo.

Mas me lembro bem que, ao chegar à capela, fui recebido pelo seu José Beck, que me disse: “O nosso amigo morreu”.

*Jornalista e Escritor.