ARTIGO – UNIDOS NA DIVERSIDADE

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UNIDOS NA DIVERSIDADE

Clayton  Rocha

Basta um texto curto para  dizer tudo: Carlo Maria Martini, 78 anos, Cardeal Emérito de Milão, tido como representante dos progressistas, foi o grande eleitor de Joseph Ratzinger. Num Conclave rápido, liderado por dois grandes Cardeais eleitores, do qual um deles saiu eleito Papa, a Igreja confirmaria a tendência de escolha de um nome europeu. E São Bento, fundador da Ordem Beneditina no século V, e que tem como lema “ Nada antepor ao amor de Cristo”, e como projeto de vida  Ora et Labora ( reza e trabalha), foi quem verdadeiramente inspirou o oitavo Papa alemão a adotar o nome de Bento XVI. O Santo e o Papa têm muitas coisas em comum: uma constante preocupação com o Velho Mundo, São Bento com a Roma decadente do 4º século, e Bento XVI com a Europa ameaçada pela “ditadura do Relativismo” do início do século XXI.  E quanto a Bento XVI, avaliado pelo consagrado Cardeal Martini como um homem de grande humanidade, cortesia e gentileza, sempre disposto a escutar opiniões distintas das suas, este primeiro Papa eleito no terceiro milênio reservará grandes surpresas ao mundo em relação aos estereótipos que lhe foram aplicados de forma um pouco superficial.

As correntes que foram lideradas pelos Cardeais da Itália e da Alemanha no Conclave de abril – denominadas conservadora e progressista –  certamente uma linguagem simplista mas que facilita a compreensão da complexa variedade de mentalidades presentes na Igreja hoje, acabaram de dar uma necessária demonstração de grandeza quando Carlo Maria Martini resume, numa frase cheia de significados, aquele que talvez tenha sido o compromisso assumido por ambos  na Capela Sistina: – “ A diversidade nos une”. Mesmo que nem sempre ele e Ratzinger tenham compartilhado das mesmas opiniões, até mesmo porque os dois são diferentes por temperamento e formação, esta busca comum em favor dos interesses superiores da Igreja, posta acima da conhecida fogueira das vaidades, bem que poderia servir de exemplo a outros governantes, em outros países, qualquer que seja a esfera de poder, nacional, estadual, ou mesmo na agressiva política municipal de confronto verificada quase que diariamente nas cidades de menor porte

Mas quanto ainda a grandezas de pensamento, significativa a manifestação de Bento XVI quando enfatiza a necessidade de comportamentos e opiniões distintos para que haja uma discussão elevada sobre inúmeras questões, dentre as quais figuram ecumenismo, diálogo inter-religioso, e relações com o mundo moderno, pontos estes capazes de ajudar a Igreja a alcançar resultados práticos num mundo esvaziado de Deus.

Tanto Martini quanto Ratzinger convergem em pensamento quanto ao que diz a primeira carta a Timoteo: – “ a caridade emana de um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera”. E o novo Papa é reconhecido como possuidor destas três fontes de caridade. Por outro lado, o culto à competência é natural em sua formação de professor alemão, que exige a informação mais ampla e sólida sobre qualquer tema que se pretenda abordar.

O mundo espera que o novo Papa não seja excessivamente rígido, e que saiba escutar e fazer reflexões com liberdade de sentimento e ampla abertura marcada por profunda espiritualidade. A preocupação atual de Bento XVI é a mesma de todos, ou seja, não permitir o esvaziamento do Evangelho, posto que todos querem um  Evangelho forte e valentemente executado, e que, precisamente por ser assim, não deveria temer o novo e o inesperado.

Os primeiros gestos do novo Pontífice confirmam esta expectativa: a mensagem de paz e solidariedade dirigida ao povo da República do Togo, martirizado por convulsões internas, o profundo interesse pela cultura e pela realidade da Índia, manifestado no diálogo com os Cardeais indianos recentemente, e este pedido aos Bispos latino-americanos da Presidência do CELAM, no sentido que lhe dessem sugestões sobre o que esperam do Papa as Igrejas da América Latina.

Bento XVI começa a surpreender. O braço direito de João Paulo II soube inspirar-se, através do nome que caracteriza seu Pontificado, naquele humilde monge que estava na raiz de uma obra civilizadora e evangelizadora que lhe valeu o justo título de Pai da Europa.

Este início de 3º milênio – também identificado pelo nome de Bento –  renova em nosso íntimo aquela velha máxima  do escritor francês Victor Hugo,  segundo a qual  Imortal, sim, é a Glória dos Santos da Igreja Católica. Dois mil anos depois de mortos, ainda no mundo inteiro se celebram os seus louvores.