ARTIGO – TEMPOS DUROS

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Tempos duros

Neiff Satte Alam*

Tempos duros que nos encaminham para momentos em que a simples percepção de que há uma realidade onde a complexidade e seus sinergismos sócio/cultural/político avançam para além de uma normalidade, onde um mínimo de compreensão sobre o futuro do País nos deixa desconfortáveis, para dizer o mínimo.

Quando a relativização rasa e inconsequente da democracia fica banalizada para atender conveniências de pessoas/grupos sectários e que desrespeitam a simples lógica da representatividade dos governantes eleitos, atingimos um patamar muito próximo do desmantelamento de um estado de direito e, pior, abandonamos o fato de que na democracia o poder é do povo e que seus representantes eleitos por ele, povo, devem explicações e obediência e não o contrário.

Os convictos alimentados pela arrogância de seus ídolos de barro quando governam, esquecem que há de se respeitar as opiniões alheias, valorizá-las e inseri-las em seus argumentos, podendo contestá-las, mas jamais desqualificar as pessoas que emitem estas opiniões, muito menos criminaliza-las, pois, isto fazendo, estariam flertando com a ante sala de uma neoinquisição, que não nos levaria a um futuro harmônico, positivo e de real sustentabilidade social/econômica/política.

Temos que ter muito cuidado quando o debate político valoriza os que menos erraram em uma comparação que é a clara aceitação dos erros do presente por parecerem menores que os do passado e vice-versa. O correto seria comparar os acertos e a valorização destes acertos. O mais correto ainda seria desenvolver uma prática reflexiva em relação às ações do passado, ações do presente (realidade) e futuras ações, pois desta maneira estaríamos ganhando tempo, eliminando desperdícios e avançando com mais segurança e velocidade sobre as soluções ambicionadas pelo cidadão, que de fato detém o poder, e uma cidadania clara, plena e em crescente melhoria de qualidade.

Importante considerar o volume de informações que saturam nossa capacidade de armazenamento e seleção impostas e proporcionadas por novas tecnologias de informação e comunicação. Estas novas tecnologias geram um volume enorme de opiniões de diferentes qualidades e quantidades, conflitantes na maioria das vezes, que aceleram debates em todas as áreas do conhecimento. Por serem diferentes e baseadas em premissas algumas verdadeiras, outras falsas, tendem a acirrar os ânimos, embora sejam situações saudáveis em razão de aprimorar um debate sobre nossa realidade social/politica/ideológica, podem causar aborrecimentos aos que querem dominar através de sectarismos ideológicos não saudáveis. Surgem, então, os censores de opiniões, de informações e de ideias, endurecendo o jogo democrático ao calar a voz do cidadão que deveriam representar.

Está claro que a autonomia do cidadão está em jogo e isto se verifica desde os bancos escolares quando há uma evidente e nefasta quebra de uma autonomia pedagógica com clara intervenção invasora sobre o caminho que devem seguir nossas crianças e jovens ao se imprimir uma pedagogia direcionada para uma tendência ideológica no lugar de ensinarmos a terem capacidade de construírem seus próprios pensamentos através das informações múltiplas, divergentes e que melhor se alinhem as individualidades de nossos aprendizes e suas realidades familiares/sociais/políticas, sem intervenções para que sejam livres na busca de seus caminhos rumo a uma cidadania plena.

Tempos duros devem ser enfrentados com fortalecimento da liberdade e democracia sem adjetivações e relativismos, em que o cidadão se sinta confortável em manifestar opiniões, ideias, vontades de mudança ou de manutenção nos rumos de seu país de forma harmônica, livre e com direito ao contraditório.

*Biólogo, Professor de Biologia e Especialista em Informática na Educação. Participa do Treze Horas desde a sua criação, em 1978.