ARTIGO – PATRÃO, O JANTAR ESTÁ SERVIDO!

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Paulo Corrêa (ao centro) fez história na rádio de Pelotas quando, por ocasião de uma partida de futebol no estádio Nicolau Fico, do Farroupilha, onde lhe fora impedida a entrada porque criticara o ‘general’ presidente do clube, montou uma estrutura de madeira sobre a carroceria de um caminhão da empresa proprietária da rádio, as Organizações Fonseca Jr., e lá de cima, narrou a partida. Foro: Arquivo da família.
Paulo Ricardo Corrêa

PATRÃO, O JANTAR ESTÁ SERVIDO!

Paulo Ricardo Corrêa*

No palco do teatro da rádio, ensaiavam a novela que iria ao ar dali a alguns instantes e em cujo elenco figurava um galã: Salimén Júnior. Os presentes faziam silêncio. Na primeira fila, um rapaz de seus 16 ou 17 anos, aficionado por rádio, prestava atenção em tudo, desde os efeitos da sonoplastia até os movimentos dos radioatores. Costumeiro frequentador do auditório da rádio Pelotense, pois quase ao lado de sua casa, foi facilmente reconhecido pelo diretor do programa.

É que, naquela noite, um figurante havia faltado ao show e, precisando que alguém lhe ocupasse a função, o rapazinho foi chamado: “Ei, rapaz, tu sabes ler?” perguntou o diretor ao jovem, agora espantado. “Claro.” respondeu convicto. “Então sobe aqui, ligeiro.” Meio trôpego, mas confiante, foi ter com o diretor que lhe pediu: “Lê prá mim esse cartaz.”, disse-lhe entregando uma folha onde estava escrito: “Patrão, o jantar está servido!”.

O rapaz sabia que, naquele momento, tinha que dar tudo de si e, com voz empolada, mas firme, leu a primeira frase que, mais tarde, repetiria nos inúmeros encontros familiares, quando “contava contente” as inúmeras histórias, e “nos seus olhos era tanto brilho, que mais que seu filho, eu virei seu fã!”. Desde aquele início dos anos 50 até a primeira década do século XXI, foram tantos os trabalhos, as aventuras, as discussões, as polêmicas, que em um artigo tão curto não caberia contar.

Paulo Corrêa, como ficou conhecido o locutor esportivo, comentarista, jornalista, articulista e advogado, mas principalmente pai e avô dedicado, bairrista convicto, apaixonado pela Noiva do Mar, pela praia do Cassino e pelos times do Flamengo e Riograndense (com o perdão da má palavra, diria ele…), fez história na rádio de Pelotas quando, por ocasião de uma partida de futebol no estádio Nicolau Fico, do Farroupilha, onde lhe fora impedida a entrada porque criticara o ‘general’ presidente do clube, montou uma estrutura de madeira sobre a carroceria de um caminhão da empresa proprietária da rádio, as Organizações Fonseca Jr., e lá de cima, narrou a partida. Contam que, durante a semana antecedente, Paulo Corrêa, e a sua equipe esportiva anunciava, a todo instante, que o jogo seria transmitido e que, por isso, o ‘general’ mandara cortar todas as árvores ao redor do estádio.

Não adiantou, pois a peleia foi levada ao ar no horário normal do jogo, embora a equipe da Pelotense estivesse em cima da torre móvel de madeira.

Um arrependimento cruzava as histórias, nas reuniões entre a família e os amigos: durante seu programa na Pelotense, intitulado ‘Bailável Fonseca Júnior’, que ia ao ar aos sábados, das 22 às 24 horas, ao comentar um episódio envolvendo atos de arbítrio praticado por um delegado contra um homossexual, foi mal interpretado, gerando grande polêmica, que inclusive o acompanhou na ida para Rio Grande, onde, a pedido de Manoel Marques da Fonseca Júnior, assumiu a direção geral da recém-adquirida Rádio Minuano a qual, nos anos que se seguiram desenvolveu enorme sucesso, especialmente na área esportiva.
Grandes campanhas foram encabeçadas por Paulo Corrêa, mormente na cidade de Rio Grande, sendo a maior delas a criação da Fundação Universidade de Rio Grande, mais tarde FURG, que teve como principal incentivador o inesquecível Francisco Martins Bastos, então presidente da Refinaria de Petróleo Ipiranga, sediada em Rio Grande.

Uma recordação triste, daqueles tempos áureos do rádio, me leva à madrugada do dia 31/03/1964.

Toca o telefone em casa, ligado diretamente com os estúdios e transmissor da rádio Minuano e ouço meu pai esbravejando: “Seu Armindo! Não entregue nada a eles! Estou indo aí!”, falava com o funcionário responsável pela manutenção dos transmissores da rádio Minuano, naqueles tempos instalados em um terreno na Avenida Buarque de Macedo (creio que até hoje lá estão…). Os gritos acordaram minha mãe que, chorosa, assistia meu pai colocar o revólver na cintura e alertava: “Mulher, fecha toda a casa e ninguém sai hoje!”. Se eu não der mais notícias, liga pro Fonseca!”, referindo ao patrão e amigo, Fonseca Jr.
Acontece que, tanto nos estúdios da rádio, na rua Marechal Floriano quase esquina Travessa do Afonso, quanto na casa do transmissor, estavam guarnições do exército, com ordens de retirar o cristal do transmissor, pois os engendradores do Golpe Militar não queriam que as rádios permanecessem no ar enquanto se perpetrava o movimento golpista.

Resultado: o poder de convencimento de Paulo Corrêa, aliado à informação de que a rádio Riograndina, então de propriedade de Ay Lima, simpatizante do golpe, não sairia do ar, resultou que a rádio Minuano comprometeu-se a permanecer funcionando, porém tocando apenas músicas clássicas.

Conta a lenda que, a cada duas músicas clássicas, a terceira tocada era de Fréderic Chopin, Funeral March.

Nesse mês de maio, no dia 26, Paulo Gilberto da Silva Corrêa, filho de Elverides de Almeida Corrêa e Clara da Silva Corrêa, completaria 90 anos de idade. Sua voz está gravada no Museu da Comunicação, da FURG, na Rua Luiz Loréa, 261, em Rio Grande, bem em frente à primeira casa onde Paulo Corrêa e a família moraram, quando chegaram em Rio Grande. Mas, em minha memória, ainda escuto quando ele nos dizia, com sua inesquecível irreverência, mas seriedade: “Patrão, o jantar está servido!”

E o bordão com o qual sempre fechava seus comentários, nas noites da Minuano:
“É só por hoje senhores, boa noite amigos!”

*Paulo Ricardo Corrêa é advogado e filho do radialista Paulo Corrêa.