ARTIGO – FUI AOS MORTOS PARA ENTENDER OS VIVOS – Podcast

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ARTIGO – IVON CARRICO – FUI AOS MORTOS PARA ENTENDER OS VIVOS – Podcast

FUI AOS MORTOS PARA ENTENDER OS VIVOS
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Ivon Carrico*
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Hoje, ao ler as notícias sobre o nosso País na Internet fiquei estarrecido ao saber  do bloqueio das nossas estradas em face do resultado do recente escrutínio eleitoral.
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Dificil acreditar que, em pleno Século XXI, sejamos ainda surpreendidos por tão inusitados acontecimentos. Comuns em um Brasil pretérito e que eu achava que estava precluso.
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Dificil para alguns entender, mas o Brasil é plural. Rico. Esta espetacular diversidade está muito bem explicitada na nossa música, costumes, dança, literatura e esportes.
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Mas, hoje, ao invés – também – de compor nossa imensa diversidade, a ideologia nos tem – entretanto – dividido. Um plano de clivagem perigoso está a ameaçar nossa integridade política, geográfica e social.
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Assim, angustiado por esses acontecimentos, procedi hoje – na véspera de Finados – à tradicional visita aos túmulos dos familiares da minha esposa, no Tocantins.
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Ao adentrar ao pequeno Cemitério da cidade deparei-me com uma cena inusitada: pessoas cantavam e dançavam em torno de um túmulo. Com tambor, pandeiro, violão e porta-estandarte.
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Aproximei-me e falei com os familiares do falecido que me explicaram tratar-se da ‘visita de cova’
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Ou seja, uma semana após os familiares foram render suas homenagens ao falecido que era um tradicional ‘folião’. Não se trata aqui, todavia, do conhecido folião burlesco. E, sim, do integrante das folias religiosas. Tão bem expressas nas canções do Milton Nascimento.
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Incrivel: foi necessário eu ir ao mortos para entender os vivos! Não só o choro e a tristeza reverenciam aqueles que se foram. Mas, também, a alegria e o riso. Interessante e estonteante dicotomia que une e não afasta. Esplêndido Brasil! Como o expressaram Euclydes da Cunha, Mário de Andrade e outros tantos fantásticos escritores.
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Que bom se fosse assim, também, na Política para que as divergências nos unam e nos fortaleçam e, não nos afastem e nos fragilizem para um projeto maior de Nação.
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Como o experimentaram os Estados Unidos na Guerra da Secessão  e a Espanha na Guerra Civil. Este é o principal exercício da democracia.
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*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 01/11/2022