ARTIGO – CAFÉ AQUÁRIOS

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CAFÉ AQUÁRIOS

Dr. Nei Guimarães Machado*

Em tempos de mundo globalizado há uma uniformização de costumes careta. Neste “mundaréu sem fronteiras”, como diria o gaúcho, ligado apenas por redes de telecomunicações transnacionais, todo mundo assiste aos mesmos filmes, usam as mesmas roupas, escutam as mesmas músicas, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam com menos de cento e cinquenta toques virtuais.

Nesse angu geral muitas coisas vão morrendo ao longo do caminho, como recentemente ocorreu com uma série de acentos em nosso amado “português brasileiro”. Por trás de tudo isso cria-se uma lógica perversa: posso morrer de bala perdida, de gripe asiática ou por causa do aquecimento global (olha aí a Rio + 20), então o negócio é viver intensamente o dia de hoje. O resto que se exploda! Daí porque shoppings e academias de ginástica estão sempre cheios de pessoas apressadas querendo consumir tudo. Desde coisas supérfluas e desnecessárias, até corpos moldados pelos padrões estéticos do corpo-máquina dos atletas ou do corpo-esquálido das modelos.

Como a insatisfação segue sendo geral, dê-lhe caixinhas de antidepressivos para compensar (diria eu, pasteurizar) as frustrações. Mas na minha cidade de origem (hoje vivo no Rio de Janeiro) há um espaço de compensação a tudo dito acima: o Café Aquários! Ele corresponde ao botequim, o velho boteco, onde não havia grifes, corpos sarados, consumo exagerado.

O Café Aquários é o espaço por excelência da grosseria e do afeto, do debate das fraquezas e das certezas, da dor de corno, da gozação do time adversário, das propostas mirabolantes que salvarão a cidade da decadência, enfim, uma forma de cidadania muito peculiar. É ali, no Café Aquários, que várias gerações vêm inventando a vida, construindo ideias e utopias, que nada têm a ver com tênis novo ou corpo moldado.

Entre cafezinhos, e do outro lado sanduíches, o Homem segue desenvolvendo sua capacidade de sonhar sem delírios, festejar e afogar suas dores e manter intata a alma da cidade que sempre foi, e continuará sendo, a Princesa do Sul.

*Dr. Nei Guimarães Machado – Médico Psiquiatra – Rio de Janeiro, junho de 2012.