A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR – 7

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A MISTERIOSA MORTE DE MIGUELA DE ALCAZAR

Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira*

20. Quando a matéria-prima é a tragédia

É claro que os escritores não se calaram. Continuaram a entrecruzar diálogos nervosos enquanto Batota do telefone do corredor disparava ligações em busca de uma autoridade policial que se dispusesse a dar uma olhada na falecida.

Encostado na parede, fazendo cara de sonso, eu observava atentamente o que ocorria diante de mim: os olhares, gestos, tiques e cacoetes de todos os escritores. E, com o uso do gravador, registrava todas as frases pronunciadas ali. Frases que, se bem analisadas, teriam outro significado além daquele que o mero alinhamento das palavras parecia indicar. Frases que eu deveria escutar novamente, com atenção ainda maior, mais tarde.

Naquele momento eu me senti realmente um verdadeiro profissional do jornalismo em ação. Subitamente, minha reportagem ganhara intensidade, densidade e profundidade. Era uma reportagem que simplesmente se iniciava com a morte de uma das mais famosas escritoras de livros policiais do mundo. Era sorte demais! Do ponto de vista jornalístico, claro. O que fazer se a matéria-prima da minha profissão é a tragédia?

De repente, uma idéia penetrou na minha cachola com a fulguração e a contundência de um raio. Eu, Campestre de Campos Campelo, jovem e modesto repórter do Correio de Brasília, era simplesmente o único jornalista de toda a vasta terra a presenciar um acontecimento histórico: a morte de Miguela de Alcazar na abertura de um congresso de escritores policiais.

Um tremor nervoso me sacudiu dos pés ao cabelo.

Imaginei então, naquele já distante fevereiro de 1978, que, no dia seguinte, as primeiras páginas de todos os jornais de todo o mundo exibiriam a minha assinatura. By Campestre de Campos Campelo, from Brasília. Pour Campestre de Campos Campelo, en direct de Brasília. E abaixo das manchetes garrafais, meu texto. Nervoso, ágil e irônico. Vívido. Envolvente. Uma obra-prima de concisão e ironia, segundo o The New York Times.

Suspirei fundo para me livrar daquele delírio.

Perguntei-me em silêncio: de que terá morrido a maior escritora espanhola de todos os tempos?

Uma banal morte por velhice empobreceria o meu relato, mas um assassinato…

Eu queria travar os pensamentos que me acossavam, para me concentrar no que estava vendo, mas a minha excitação era muito grande. A reportagem que eu escrevesse a respeito daquela morte, morrida ou matada, seria vendida para o mundo inteiro e desviaria rios de dinheiro para o meu bolso. Em dois ou três dias, eu seria famoso mundialmente. E rico. Logo, minha reportagem seria editada em livro e adaptada para o cinema. Depois, o Nobel de Literatura e o Oscar. Adeus, miséria!

– Vou dizer uma coisa pra vocês, macacada – anunciou Sim et Non, entre duas cachimbadas. – Miguela era uma figura muito venenosa. Tão venenosa que, se mordesse a língua, morreria por causa de sua própria peçonha.

 – A quenga era mesmo safada! – concordou Fedorova. E, depois de um grande gole bebido diretamente no gargalo da garrafa, acrescentou: – Ela não se contentava só em falar mal duma pessoa, tratava logo de humilhar também.

– Mas não será o esnobismo maledicente uma característica comum a todos os escritores ocidentais? – perguntou Foo Lee Shi Man, fingindo-se de tolo.

 – Bah, estamos mais parados que água de poço – lamentou-se Dax Chamber. – Ou a gente começa logo esse congresso ou investiga a morte de Miguela. Se ficarmos neste lero-lero, vou pro meu quarto escrever porque americanos estão sempre ocupados…

– Verdade! – comentou Águeda Christine. – Ocês estão sempre muito ocupados com batata frita e Coca Cola.

– Muié, tu qué insinuar que os americanos são todos barrigudos? – perguntou Fedorova.

– Nada disso, uai – reagiu a inglesa. – Americano é gordo por inteiro, da canela ao pescoço. Tudinho obeso. Pançudo a gente acha mais nos países pobres. É verme, minha fia.

– Quem trabalha duro, mano, são os chineses – comentou Foo Lee Shi Man. – Eu escrevo quinze horas por dia, seis dias e meio por semana. Aproveito as tardes de domingo pra ler jornais, pingar colírio nos olhos e aparar as unhas.

 – O que é um jornal? – perguntou Jorge Luís Bugres. E ele mesmo respondeu: – Um museu de minúcias efêmeras.

21. Morta mesmo antes de falecer

Aproveitei a deixa do argentino

– Por falar em jornalistas, senhor Bugres, eu lhe pergunto: o que pensa sobre a morte de dona Miguela?

– Respondo com outra pergunta: terá ela se defrontado com sua própria morte, pessoal e intransferível; ou terá sido alcançada por morte que lhe foi imposta por outrem?

Era uma frase forte demais para que eu não insistisse:

– O senhor acredita que dona Miguela possa ter sido assassinada?

Todos os escritores voltaram-se para o poeta argentino.

– Jornalistas! – exclamou Bugres. – Não posso vê-los, mas posso senti-los. Sempre afoitos, preocupados com insignificâncias… Mesmo assim, respondo com um poema esloveno, do século VII antes de Cristo.

Bugres limpou a garganta e recitou:

Apagou-se a mulher como uma vela

Seu coração era uma ardente chama

Azeitada de ódio, brilhante de rancor,

Que o Diabo para si reclama

Estávamos a deglutir as misteriosas palavras do poeta quando saltaram do elevador os policiais chamados por Batota.

Eram quatro. À frente, vinha a figura inconfundível do delegado Jerônimo Aroeira, titular da Primeira Delegacia, meu velho conhecido. Vestia-se de preto, com exceção da gravata borboleta, multicolorida. Por trás dele, estavam três policiais típicos: barrigudos, pescoçudos e mal-encarados.

– Quem é o responsável pelo hotel? – perguntou o delegado.

– Manoel Joaquim Batota, aqui estou às vossas ordens – o português estendeu a mão ao policial.

– Onde está a presumida vítima? – Aroeira fingiu não ter visto a mão do português.

Naquele dia, o delegado trazia duas cartucheiras cruzadas no peito, um fuzil no ombro e três granadas no cinto.

– O senhor parece estar preparado pra guerra, delegado – comentei.

– Eu estava numa guerra, gaúcho. Foi numa agência bancária no Setor Comercial Sul. Evitamos um assalto. De cara, matamos quatro, mas os bandidos sobreviventes fizeram alguns reféns. Lançamos granadas de gás lacrimogêneo e três outros criminosos se renderam logo. Dois deles resistiram e nós fomos obrigados a picotá-los a tiro. Mas só recorremos à violência em última instância.

– A polícia brasileira é competente demais da conta – comentou Águeda Christine em voz baixa. – Proteja-nos nossa Senhora!

– Mal botei o ponto final na operação, recebi ordem do secretário de Segurança pra vir imediatamente até aqui – continuou Aroeira. – Parece que temos aqui um óbito de qualidade internacional…

– Era uma famosíssima escritora espanhola – explicou Batota. – Das maiores do mundo.

– Onde está o corpo?

– Aqui dentro – o português abriu a porta do apartamento 1313.

– Esse bagulho aí? – o policial avançou na direção do cadáver. – Aposto meu pescoço que já estava morta antes mesmo de falecer. Com que idade estava?

– Noventa e seis anos – respondeu Batota.

– Morreu em boa hora, que Deus a tenha – Aroeira benzeu-se e, apontando para os escritores, indagou de Batota: – Você desconfia de algum dos integrantes desse clube da terceira idade?

– Fale baixo – sibilou o português. – São estrangeiros, mas falam todos a nossa língua. Também são famosíssimos escritores de livros policiais.

22. Turistas estrangeiros têm o péssimo hábito de morrer no Brasil

Depois de lançar um olhar de desprezo aos escritores, o delegado voltou a encarar a falecida.

– Vi milhares de mortos ao longo da minha carreira – disse ele. – Os que se vão naturalmente desta vida têm no rosto um ar de triunfo. Veja esta cara enrugada! Parece estar dizendo: bem-feito pra vocês, que ficaram aí nesse vale de lágrimas.

– É verdade – concordou Batota. – Dona Miguela devia estar muito feliz na hora da morte.

– Já os assassinados têm sempre uma expressão de contrariedade – o delegado se pôs a andar pelo quarto. – Ninguém gosta de ser despachado às pressas deste mundo.

 – Sem dúvida – admitiu Batota. – Ser empurrado para fora da vida deve ser algo muito irritante.

– Bem, mesmo estando certo da morte natural, enviarei pra cá os homens da Perícia Criminal – acrescentou o delegado. – Afinal, não é todo dia que eles têm um cadáver de alta categoria pra autopsiar.

– Precisamos provar que dona Miguela teve morte natural – insinuou em voz baixa o gerente. – Se alguém levantar suspeitas de um homicídio, a imagem do hotel fica beliscada.

– Devíamos proibir a entrada de estrangeiros no Brasil – filosofou Aroeira. – Morrem por qualquer coisinha. Turistas estrangeiros só nos dão dor de cabeça. Além de gastar pouco dinheiro aqui, costumam morrer atropelados por motoristas bêbados ou fuzilados por assaltantes. Isso quando não se metem na frente de balas perdidas.

– Sim, devíamos aceitar apenas turistas imortais – palpitei. – Porque, mesmo quando eles morrem de causas naturais, os jornais do exterior sempre arranjam um jeito de atacar este nosso pacífico e seguro país.

– Você continua metido a engraçadinho, gaúcho? – indagou o policial.

– Ganho pouco, delegado. Preciso me divertir de vez em quando.

– Não há divertimento melhor do que lambuzar a bunda de mel e sentar-se sobre um formigueiro – recomendou-me Aroeira. E, voltando-se para Batota, indagou: – Quer dizer que toda essa velharia que está aqui no corredor escreve livros policiais?

– Sim. Vieram de todos os cantos do mundo para um congresso aqui em Brasília. Vão discutir novas tramas para livros policiais, modernas técnicas de assassinato e como criar personagens marcantes.

– Se visse esse povo na rua, diria que são fugitivos de uma clínica geriátrica ou de um hospício – comentou o delegado enquanto se encaminhava para o corredor, seguido pelos seus auxiliares.

Os agentes de Aroeira ostentavam grossas correntes de ouro nos pulsos e no pescoço. Meganha sem corrente ou pulseira de ouro é como criança pobre sem vermes, dizia meu pai.

Da porta do elevador, o delegado gritou:

– Seu gerente, não deixe que ninguém entre no quarto antes dos peritos! Depois, se for constatado que a velha foi assassinada, eu volto!

23. Preferência pelos assassinatos em série

Pouco depois, já reunidos em torno da grande mesa redonda, destinada inicialmente ao debate das mais altas questões literárias, os romancistas decidiram investigar o caso.

Quem começou a conversa foi Águeda Christine:

– Gente, se todos os policiais brasileiros forem do nível desse delegado, o índice de esclarecimento de crimes não deve ser dos mais altos. Ele acha que Miguela morreu de velha. Esse moço parece não ter um espírito científico muito forte.

– Discordo – disse Sim Et Non, sorrindo cinicamente. – Ele está tão preocupado com os aspectos científicos que, inclusive, mandará vir a Perícia.

 – Sim, deve pertencer à elite dos investigadores brasileiros – constatou Fedorova ao mesmo tempo em que olhava a garrafa contra a luz para ver o tanto de bebida que ainda havia dentro dela. – Ele me lembrou bastante o chefe da Polícia de Moscou, Frascóvio Ilitch Botelhowhisky, que inventou uma técnica porreta de investigação. Antes do interrogatório, ele pega o suspeito pelo gogó, dá-lhe uns tapas na cara e diz: “Ô cabra, ou tu bebe uma garrafa de vodca todinha ou te espremo os bagos”. Quase sempre o sujeito prefere preservar os colhões, mas fica totalmente bebum e confessa o crime, mesmo não o tendo praticado.

– A gente podia adaptar essa técnica para o Brasil – palpitei. – É só trocar a vodca por cachaça.

– É um método bom e barato – ajuntou Fedorova. – O chefe de polícia anterior ao Frascóvio costumava meter a porrada nos amarelos, mas a posterior internação deles em hospital saía muito cara.

– Bah, que coisa mais ignorante! – meteu-se Dax Chamber. – Nos Estados Unidos dominamos as melhores técnicas de investigação. Somos um país rico porque nosso povo tem espírito científico. Somos pragmáticos e eficientes. Se me derem cinco minutos, descubro o que levou Miguela ao outro mundo. Americanos fazem tudo mais rápido e gastando menos dinheiro.

– Em se tratando de morte, ninguém é mais eficiente que os americanos – concordou Bugres. – Bons atiradores, eles matam dezenas de pessoas todos os dias em variadas chacinas nas escolas, estacionamentos ou supermercados. Mas, na literatura, a eficiência não é atributo relevante. Embora os serial killers dos Estados Unidos matem mais gente em menos tempo, eu prefiro os assassinatos em série praticados na Inglaterra. Têm mais apelo literário.

– Que conversa furada, mano! – chiou Foo Lee Shi Men, entediado. – Quem sabe apostamos pra ver quem descobre primeiro o motivo que levou dona Miguela à morte?

Dax colocou a mão no ombro de Batota:

– Seu gerente, será que a gente não podia ficar uns minutinhos na cena do crime, depois da Perícia. Só pra fazer uma investigaçãozinha.

– Está bem – concordou o português. – Vou tentar convencer os peritos para que vos deixem entrar no quarto. Mas penso que eles se sentirão ofendidos. Os brasileiros não gostam muito de trabalhar, mas ficam furiosos se alguém lhes propõe fazer de maneira eficiente aquilo que eles costumam fazer de má vontade.

*Jornalista e escritor.