ARTIGO – UM DESGASTE DESNECESSÁRIO

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UM DESGASTE DESNECESSÁRIO

Ivon Carrico*

O Jânio Quadros, nos idos de 1960, foi um Presidente que se preocupou mais com o varejo do que com o atacado. Assim, questões como o uso do biquíni nas praias, as brigas de galos de rinha, dentre outros, tomavam a sua agenda. E, enquanto isso, assuntos de maior relevância e repercussão eram, sistematicamente, ignorados.

Não poderia ser, então, outro o final da ‘ópera bufa’ instalada – àquela ocasião – no Palácio do Planalto. E, ao ser indagado sobre os motivos da sua renúncia, em 1961, emendou: ‘fi-lo porque qui-lo’!! Ou seja, era patente, também, o desprezo, a falta de respeito e de empatia para com a Nação.

Anos depois, quando Ministro da Casa Civil no Governo Geisel, ao ser indagado sobre a renúncia do Jânio Quadros, o poderoso General Golbery do Couto e Silva saiu-se com essa: ‘faltou alguém que o trancasse no banheiro do Palácio do Planalto’.

Esses fatos dão a exata dimensão dos estragos que a postura histriônica e inconsequente de um Dirigente pode trazer para a governabilidade de qualquer espaço político e administrativo. Principalmente quando esse espaço é a Presidência da República.

Infelizmente, nos últimos anos o brasileiro tem sido surpreendido, quando – muitas das vezes – essa inconsequência vem revestida de muita vulgaridade com a adoção, inclusive, de uma linguagem pra lá de escatológica. Mais do que desrespeitosa, obscena.

Nessas ocasiões a liturgia do cargo tem sido, solenemente, escamoteada. Principalmente quando opositores, interpretados como desafetos, são publicamente desqualificados. Parece que tem faltado banheiro no Palácio do Planalto.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 01/04/2023