ARTIGO – POR QUE O BRASIL TRATA TÃO MAL OS SEUS ÍDOLOS? 

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POR QUE O BRASIL TRATA TÃO MAL OS SEUS ÍDOLOS? 
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Ivon Carrico*
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Nos últimos meses uma sucessão de famosos deu adeus aos seus milhões de fãs e admiradores. São artistas, escritores, esportistas… Enfim, pessoas que nos permitiram sonhar, diminuindo a distância entre o imaginário e o real. Entre a dificuldade e a superação. Entre a tristeza e a alegria.
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Algumas dessas pessoas nem sempre, entretanto, tiveram o reconhecimento do seu trabalho em vida, pois ao romperem barreiras passaram – então – a ser rotuladas como transgressoras. De todas as matizes.
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Os exemplos são vários. Uns até bem antigos. Como o caso da Maestrina Chiquinha Gonzaga que, tocando na noite, foi comparada a uma pessoa devassa. E, por isso, foi massacrada – àquela época – pela sociedade e pela imprensa.
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Já, há algumas décadas, a atriz Leila Diniz escandalizou o Brasil ao se mostrar de biquíni, na praia, grávida. E, teve a sua conduta – também – muito mal avaliada.
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Contemporânea da Leila a Cantora Elza Soares, na década de 1960, ao se envolver em um rumoroso ‘affair’ com o Jogador Garrincha, comeu o pão que o diabo amassou. Naquela oportunidade foi intitulada, pela imprensa, como uma ‘destruidora de lares’, na medida em que o célebre atacante da Seleção Brasileira era casado e pai de 08 filhas.
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Nos dias atuais, o Pelé – também – tem sido massacrado em face do conhecido imbróglio com a sua filha Sandra, já falecida, e os filhos dela.
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Há poucos dias, vi e ouvi na CNN um interessante ponto de vista acerca dessas tantas incompreensões. Ao se comentar o caso do Tenista Servio Novak Djokovic no Aberto da Austrália, o jornalista disse da dificuldade que se tem para se separar o ídolo da pessoa e vice-versa.
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Complicado. Pois difícil essa dicotomia. Entendo que a hipocrisia exacerbada, exalada por todos nós, talvez seja a raiz dessa questão.
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Basta comparar o noticiário sobre a Elza Soares, da década de 1960 e o de ontem, quando do seu triste falecimento. Naquele, era uma devassa. Neste, foi canonizada.
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*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 22/01/2022
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