ARTIGO – PAULO BRASIL DO AMARAL, A VOZ AVELUDADA DO RÁDIO

205
Na foto, Paulo Brasil do Amaral (a direita) ao lado do deputado federal Lélio Miguel Antunes de Souza. Foto: Arquivo pessoal.

PAULO BRASIL DO AMARAL, A VOZ AVELUDADA DO RÁDIO!
Ele criou Chacrinha lá no pequeno sítio de Niterói.

Clayton Rocha*

Nós tínhamos algumas sintonias, sendo o amor por Pelotas a principal delas. O café Aquários era o seu palácio das boas conversas desde aqueles marcantes anos setenta. Ele trocou a projeção nacional e a glória pela sua Pelotas, pela poesia do seu torrão natal. Lá em Niterói ele fazia rádio numa ” chacrinha” afastada da cidade, shows de auditório, endereço de sua voz aveludada e de seu improviso fácil. Certa tarde, cansado da mesmice, disse ao seu técnico de som que estava voltando para o Rio Grande: – Fique com tudo, Abelardo, e tenha boa sorte. E assim nascia Chacrinha, um fenômeno de rádio e de Tv que conquistou fama nacional.
.
Nos anos oitenta, quando um jatinho foi colocado à minha disposição para um jantar com o Governador de Minas Gerais, iniciativa do Sinval Guazzelli, amigo íntimo de Tancredo, Paulo Brasil do Amaral foi testemunha privilegiada no terceiro andar do Banlavoura. – Ah, menino, você que tem agora esse “tapete voador” que poderá levá-lo para qualquer parte do mundo, numa possível era Tancredo Neves, deve pensar melhor, pois BH é logo ali, você vai, ouve, avalia, decide se fica por lá ou se volta. Eu não fui!
.
Paulo, a testemunha, sabia melhor do que ninguém o que significava refugar um cavalo encilhado. – Menino, dizia-me ele, o cavalo encilhado só passa uma vez, a valer! Visitou-me durante toda a vida lá no Banlavoura, apreciava boas gravatas e bengalas, e brilhava com a sua palavra aveludada, irônica por vezes, inteligente, aquele timbre elogiável, raciocínio límpido e divinamente explicitado.

Ele gostava de desfilar nos invernos desta vida com a capa vermelha que pertencera a Flores da Cunha, mais a beleza daquela sua bengala que acrescentava 20% de charme ao notável tribuno pelotense. A sua fala comovia pedras e encantava brutos, e recuperava passagens memoráveis quando pronunciava trecho de Mozart Víctor Russomano: – ” Não me deixem o campo livre, não me deixem as rédeas soltas, porque, no mesmo instante, eu estarei, a galope, trilhando a estrada de ouro que conduz à Cidade de Pelotas“.

Ainda o ouço num entardecer gelado dos anos 80, lá na rua 15 de Novembro com 7 de Setembro: – Menino, não desperdice esse “tapete voador” que o tem levado para toda a parte… E suba, menino do Cerrito, aos poucos, com método, em nome dos anseios do povo, mas fazendo isso pelas escadarias das próprias virtudes e jamais pelas escadarias desprezíveis do favoritismo.
.
Sinto saudades dele, cujo capítulo final – lá na Câmara de Vereadores – por ocasião de sua despedida, mereceu justa homenagem graças à presença de espírito, ao alto brilho e à admirável memória do jornalista José Henrique Medeiros Pires.
.

*Jornalista e coordenador do Treze Horas desde 6 de novembro de 1978.

.