ARTIGO – O HOMEM É DO TAMANHO DO SEU SONHO

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O HOMEM É DO TAMANHO DO SEU SONHO!
Eis aqui uma imagem forte do Rio Grande.
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Clayton Rocha
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Às vezes ouço passar o vento lá nos Molhes da Barra; e só de ouvir o vento passar, sinto que valeu a pena ter nascido! Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o próprio sonho me foge.
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E sei que não sou nada, como dizia Pessoa. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. O que me faz lembrar neste instante de Francisco, o bispo de Roma, quando nos disse humildemente lá na Cidade Eterna: – Por favor, rezem por mim, pois eu venho lá do fim do mundo!
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Não se pode esconder uma obra gigantesca situada sob as águas porque, se levados a sério esses necessários sentimentos de justiça e de orgulho, ela deve ser colocada num pedestal, fotográfico que seja, para brilhar diante de todos aqueles que – além de admirá-la – sejam capazes de compreende-la.
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A imensidão daquelas águas todas, outrora embaladas por ondas até mesmo assustadoras, era a sinalização de uma natureza indomável exercitando a sua própria força. No entanto, num consagrado ponto da geografia do sul do Brasil, surgiria uma ideia preciosa, ou seja, a colocação de pedras na divisão dessas águas, e pedras leonenses a perderem-se de vista pelo oceano adentro.
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O jornalista Klécio Santos, em duzentas e trinta e cinco páginas escritas com talento, inspiração e apego às coisas da sua Noiva do Mar, mostra-nos a engenharia marítima posta a serviço do homem e esse resultado admirável que orgulha o povo gaúcho: Os Molhes da Barra do Rio Grande! Pois uma outra obra, a que dependeria de tinta e de textos e não mais de pedras, se encarregaria de oferecer às atuais e às futuras gerações um legado precioso que garantirá memória ao grande feito.
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Klécio Santos teve esse cuidado diferenciado: o de centrar as suas lentes e a tinta da sua caneta naquilo que está próximo, esse “Cartão de apresentação” que projeta um pampa muitas vezes esquecido e distante dos olhares do mundo. Sabendo-se que um livro bem feito é um Embaixador silencioso capaz de alcançar prateleiras de bibliotecas e vitrines de boas livrarias, esse tipo de obra oferece ao leitor a liberdade das datas e a disponibilidade de seu tempo para concentrar-se numa leitura envolvente em altíssimo padrão gráfico e histórico, por sinal cuidadosamente temperada com o sal do oceano que foi colocado à disposição de um “Chef” de palavras.
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Se um bom filho à casa torna, e considerando-se a sua ação jornalística e intelectual, afora as suas constantes andanças pela geografia nacional, Klécio Santos até merece uma atenção especial: a de não precisar voltar de vez, mas de vez em quando, para abastecer-se de conteúdos, avaliar as nossas melhores e mais ousadas conquistas, projetando-as em novas obras capazes de vencer o tempo, (esse adversário silencioso e impiedoso) que não faz caso quanto ao que se deixou de fazer, e cuja frieza diante dos homens é incapaz de emitir um sinal que seja, a não ser o recado dos relógios, cujos ponteiros nos dizem sem maiores constrangimentos: É mais tarde do que pensas! (CR).