ARTIGO – MITOLOGIA GREGA REVISITADA

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MITOLOGIA GREGA REVISITADA

NEIFF SATTE ALAM*

Poder e Força, juntos, fazem com que Vulcano cumpra ordens do deus Júpiter de acorrentar Prometeu às rochas, que Ésquilo assim resume: “…Acorrentando esse celerado sobre escarpados rochedos com indestrutíveis cadeias e liames de aço. Pois a chama do fogo é seu atributo, esse fogo pai de todas as artes que ele roubou e entregou aos mortais. É preciso que pague aos deuses por esse crime e que aprenda a se curvar perante o reinado de Júpiter, deixando de favorecer os homens dessa maneira”.

Que crime terrível foi cometido por Prometeu. Não apenas deu aos homens o fogo, mas ensinou tudo o que sabem; ensinou a fala; mostrou como trabalhar a madeira; mostrando a diferença entre as estações do ano, ensinou-os a utilizar os frutos de cada época; ensinou a utilizar os animais para os serviços mais difíceis e penosos; para navegar, mostrou como deveriam ser feitas as velas que utilizariam o vento para deslocar os barcos que também mostrou como fazer.

Que triste fim para quem foi o educador da humanidade e que tirou o homem da barbárie e da escuridão, que transformou seres errantes em sedentários e produtivos para que pudessem desfrutar da terra, dos rios, dos mares e do ar.

Ao dar ao homem o conhecimento do fogo estava, em verdade, iluminando os caminhos da humanidade. Os deuses governados por Júpiter ficaram mais perto dos homens e isto incomodou a todos eles.

Mas o que fizeram os homens com toda a sabedoria doada por Prometeu e que lhe causou tal castigo? Como tratam os homens uns aos outros em razão de suas diferenças? O fogo, mais que luz, pode trazer dor e sofrimento, pois dos canhões, das bombas e das labaredas causadas por artefatos de guerra, vai se esvaindo, pelos caminhos da inconsequência, todo o saber acumulado e que foi presenteado pelo deus acorrentado.

O próprio Prometeu responde a todas estas perguntas: – “Aaah! Os atos se seguem às palavras: a terra vacila, e das profundezas vem o estrondo do trovão; os relâmpagos riscam o ar em trajetórias flamejantes. Um ciclone faz rodar a poeira com a velocidade de um turbilhão. Todos os ventos se chocam uns contra os outros, e o éter se confunde com o mar.” Dos primitivos conhecimentos nasce a ciência, em todas as suas ramificações foi utilizada para o bem e para o mal. Desde a “ciência sem rosto”, cujos resultados servem para os poderosos subjugarem e, em muitos casos, eliminarem aos que a eles se opõem, até aquela que salva vidas, alimenta e dá saúde ao homem para que esse viva prazerosamente, em alto índice de satisfação.

Como se sentiria Prometeu ao ver que todo seu sacrifício de ficar preso às rochas e ter seu corpo permanentemente dilacerado foi transformado em brutais ações de Putin, entre outros senhores da guerra a utilizar o fogo para promover escuridão? Teriam sido proféticas as palavras do próprio Prometeu, já acorrentado, de que a sabedoria é muito mais fraca que o destino?

Bem, pode ser que o destino seja relativo e mutável como a realidade e que ambos sejam um caso da possibilidade, desta maneira poderemos fazer justiça a Prometeu e devolver, pela sabedoria, o fogo à humanidade, mas em forma de luz para iluminar os caminhos do homem em direção ao seu destino…

*Biólogo, Professor de Biologia e Especialista em Informática na Educação. Participa do Treze Horas desde a sua criação, em 1978.