ARTIGO – A INDEPENDÊNCIA FOI MUITO MAIS QUE UM GRITO

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Além do Grito, de José Severo, aborda 10 anos de luta pela independência. Foto: Divulgação / Editora JÁ
Jornalista escritor Lourenço Cazarré – Credito: Barbara Cabral.

A Independência foi muito mais que um grito

Lourenço Cazarré*

José Antônio Severo recorreu às suas três paixões – História, Jornalismo e Cinema – para escrever seu último livro: Além do grito – A grande aventura épica do surgimento da Nação brasileira, publicado recentemente pela editora JÁ, de Porto Alegre.

Dividida em 14 capítulos, quase todos estilhaçados em várias cenas ocorridas em diversas cidades do Brasil e de Portugal, é obra que foi planejada tendo como objetivo principal a sua conversão em um roteiro cinematográfico. Daí vem o seu feitio particular e o seu charme inusitado.

Autor de vários livros, entre os quais se destacam o monumental Cem anos de Guerra no Continente Americano (2 volumes, editora Record, 2012, 1.120 páginas), Severo – cuja carreira jornalística se estendeu por mais de meio século – era conhecido por sua vasta erudição. Leitor voraz, interessava-se por tudo e de cada assunto levantado conhecia ângulos inesperados e surpreendentes. Mas o seu forte era mesmo a História do Brasil.

É o que se vê em Além do Grito. O primeiro e breve capítulo descreve o surgimento no cenário internacional de um país chamado Brasil, dono de um dos mais extensos territórios e o único falante de português na América do Sul. Isso ocorre em 1815, quando se reúnem os integrantes da Sagrada Aliança, que pouco antes havia derrotado os exércitos napoleônicos. Portugal estava lá porque lutara ao lado das forças inglesas contra o general corso.

Os capítulos seguintes retratam os efervescentes acontecimentos do início da década de 1820 no Brasil e em Portugal que culminariam da independência brasileira, mas que ainda se prolongariam por mais algum tempo.

Nessa época, o rei lusitano, Dom João VI, é bom registrar, estava no Brasil, onde chegara em 1808.

Usando do recurso de apresentar conversações entre os principais personagens dos mais relevantes episódios históricos que antecederam o nosso afastamento de Portugal, o autor acaba formando um retrato multifacetado daquele tempo agitado.
Revolução do Porto

Após a derrota de Napoleão, a Europa estava sendo sacudida por ventos de mudança. O absolutismo que vigorara por séculos estava sendo contestado.

O centro nervoso de Portugal estava situado no Porto, onde, em agosto de 1820, tropas daquela nação rebelaram-se pelo fato de serem comandadas por generais ingleses. Maçons lideraram o motim bem-sucedido. Mas, embora republicanos, eles não queriam derrubar o rei, por medo de serem depois atacados pela Santa Aliança. Entre as muitas tendências dos revoltosos, havia até mesmo quem sonhasse com Portugal incorporado de novo à Espanha.
Com a chamada Revolução do Porto ressurge – depois de 200 anos fechado – o Parlamento português. Chama-se Cortes Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa e é integrado por militares, nobres e clérigo. Exaltados quase todos, logo passam a exigir que o rei Dom João VI regresse do seu doce exílio tropical.

Mandam então o brigue Providência ao Rio de Janeiro, onde chega de surpresa. A informação da súbita chegada dessa nau causa um furor na corte exilada. Às pressas, Dom João reúne-se com os ministros. Dom Pedro e Dona Leopoldina, a cavalo, se dirigem à Quinta da Boa Vista. Em Botafogo, a rainha Carlota Joaquina chama o jovem Dom Miguel, filho mais novo que Pedro, e os dois correm também para lá.

Na sala do trono, Dom João conta a novidade. Por exigência das Cortes, o rei ou um membro da família real deve voltar imediatamente a Portugal, a bordo do mesmo Providência. A rainha Carlota Joaquina esbraveja. Pedro e Leopoldina trocam olhares intrigados.

O sempre indeciso Dom João vacila. Se enviar Dom Pedro, não poderão os portugueses entregar a coroa ao jovem príncipe? Mas ele poderia talvez enviar o infante Dom Miguel… Carlota Joaquina se entusiasma com essa hipótese e quer partir com o filho mais novo.

Mas voltar não seria tão simples assim, pondera o cauteloso Dom João. Ele temia o inflamado ambiente político da sua terra. Imaginava que poderia ser até mesmo posto a ferros ao desembarcar.

A decisão final pelo retorno de Dom João VI, segundo Severo, foi tomada em cima de um fato familiar. Dona Leopoldina – grávida, receando perder o filho que carregava no ventre – recusou-se a acompanhar o marido Dom Pedro em uma arriscada viagem a Portugal.

Assim, o rei acaba partindo do Brasil. Viajou na companhia de 14 mil nobres e levando com ele todo o dinheiro depositado no Banco do Brasil.

A tela de Pedro Américo, de 1888: visão romanceada do que ocorreu às margens do Ipiranga – Pedro Américo, 1888 / Museu Paulista da USP

O Patriarca
Pouco depois desses acontecimentos, somos apresentados, na cidade de Santos, ao Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, que retornava depois de três décadas vividas na Europa. Homem de cultura vastíssima, desfrutava da amizade de alguns dos mais ilustres cientistas e homens públicos daquele continente. Ele será o cérebro por trás da nossa libertação.

Em rápidas pinceladas, Severo vai mostrando os lados brasileiros da questão. Os receios da sagaz Leopoldina. O crescente interesse de Pedro, mais conhecido como galanteador e cavaleiro audaz, pelas manobras políticas. Aos poucos começam a juntar-se as muitas forças que acabarão por romper com o jugo lusitano.

A Independência, claro, não se resumiu ao pretenso grito emitido às margens de um plácido riacho, como simplificam os livros escolares de História. Foi um processo que se estendeu por dez anos que vão do reconhecimento do Reino de Portugal, Brasil e Algarves (1815) à admissão pelos portugueses da emancipação brasileira (1825).

A Independência obtida rapidamente pelos Estados do Sudeste, demorou a chegar às províncias mais distantes, do Norte e do Nordeste, onde houve muita luta entre gente da terra e tropas enviadas pela metrópole. Essas batalhas são descritas em detalhes por um, digamos, historiador que gostava de enriquecer seus relatos belicosos com as miudezas (relevantes muitas vezes) que só mesmo um jornalista experiente saberia pinçar.

Além das movimentações oficiais – debates, manifestos, declarações e visitas – registradas nos livros históricos, Severo registra ângulos inusitados, que dão um condimento mais humano à aparentemente insossa maré dos acontecimentos.

Vejamos uma cena do quinto capítulo:
“Rio de Janeiro: Para refinada festa, abrem-se os salões da exuberante residência do Alto da Boa Vista do Embaixador da Rússia, Georg Heinrich Von Langsdorff, naturalista famoso. Ao piano, um instrumento moderno, a princesa Leopoldina dedilha um lieder de Mozart, acompanhada pelo marido, Dom Pedro, ao clarinete. O futuro imperador do Brasil e de Portugal teve esmerada formação musical. Além de clarinete, toca fagote, trombone, flauta e violoncelo. Tem voz forte e afinada… (Será autor do Hino da Independência, em parceria com o poeta Evaristo da Veiga). E às vezes, num sarau da aristocracia, mostra familiaridade com o violão, um instrumento estranho em ambientes sofisticados”.

Relatos guerreiros
Escritor apaixonado por relatos guerreiros – como demonstrou em sua grande obra, na qual retrata as principais batalhas ocorridas no Sul da América do Sul entre 1770 e 1870 -, Severo assim descreve aquela que ele considerou “a mais estranha batalha” da guerra da Independência do Brasil, travada nos mares da Bahia:

“Os líderes do movimento, coordenados pelo vigário da paróquia, padre Francisco Gomes dos Santos, passaram parte da noite preparando o contra-ataque. Pela manhã, com a baixa da maré, a canhoneira ficou inerte, sem poder se mover, pois era muito pesada para o baixio. Então os cachoeirenses atacaram por todos os lados com uma centena de canoas tripuladas por homens armados. Contra as canoas, os canhões não tinham utilidade, pois elas estavam muito próximas, abaixo da possibilidade de mira dos artilheiros. A abordagem era iminente. Os marinheiros perceberam que haveria um massacre. Renderam-se, foram aprisionados e jogados nos porões da Câmara dos Vereadores, onde funcionava a prisão local”.

Pegando carona na luta baiana, Severo conta outra historinha muito interessante, a de Maria Felipa de Oliveira, a Marisqueira, catadora de crustáceos e frutos do mar em Itaparica. Comandando outras oitenta mulheres do mesmo ofício, boas nadadoras e mergulhadores, ela teria atacado barcos portugueses. “Incendiou seis canhoeiras ou pequenos navios de apoio”. Além disso, acrescenta Severo, Maria Felipa e suas amigas “atacavam marinheiros inimigos borrifando-os com um líquido feito de folha de cansanção, uma planta que provocava, em contato com a pele, uma sensação horrível de queimadura e uma comichão insuportável”.

O autor do livro admite que não existem registros históricos dessas tais belicosas sereias baianas até mesmo porque “a burocracia dos partidários de Dom Pedro Itaparica não era organizada”. Mas essa historinha, levantada pelo historiador Ubaldo Osório Pimentel, é boa demais para ser descartada do livro por um jornalista que amava todas e quaisquer historinhas.

José Antonio Severo, em foto de Tânia Meinerz

Jornalista talentoso
José Antônio Severo, falecido em setembro do ano passado, aos 79 anos, teve uma trajetória profissional brilhante em veículos como Veja, Realidade, Exame, Estadão, Gazeta Mercantil e nas tevês Globo e Bandeirantes.

Gaúcho de Caçapava do Sul, cresceu no campo e sempre lembrava saudoso da infância vivida na fazenda da família. Formou-se na Escola Técnica de Agricultura de Viamão e foi essa sua graduação que lhe garantiu o primeiro emprego na área de comunicação: escrever boletins sobre temas rurais para a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul.
Passou depois pelo Jornal do Dia, veículo católico da capital gaúcha, de onde seguiu em 1964 para São Paulo, a fim de estagiar no Estadão, que em seguida o contratou. Trabalhou ainda na famosa revista Realidade e na revolucionária Folha da Manhã, de Porto Alegre. Em 1979, foi trabalhar no Jornal da Globo, do qual foi um dos fundadores.

A experiência com a televisão o aproximou mais adiante ao cinema. Foi produtor e roteirista de Os senhores da guerra, filme dirigido por Tabajara Ruas. Além do Grito, como dissemos antes, foi seu último trabalho, muito rico em informações, movimentado e de leitura agradável e escorreita, como tudo que produziu. O livro, já à venda na Editora e na Amazon, será lançado em Brasília no dia 19 de novembro, no Sebinho da 406 Norte.

*Jornalista e escritor.