100 ANOS DE NASCIMENTO DE MOZART VÍCTOR RUSSOMANO – DISCURSO DE MÔNICA BEATRIZ CORRÊA MEYER RUSSOMANO (FILHA)

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Mônica Beatriz Corrêa Meyer Russomano, filha de Mozart Víctor Russomano em sua fala na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, por ocasião dos 100 Anos de nascimento de seu pai.

Exma. Sra. Prefeita, em quem concentro os meus parabéns a esta nossa cidade de Pelotas pelo seu próximo aniversário de 210 anos e pela criação da Rua do Doce, de que o Pai teria sido frequentador assíduo, demais Autoridades presentes ou representadas, queridos conterrâneos tão amigos, em primeiro lugar quero agradecer, em nome de todos os meus, as significativas homenagens prestadas nesta data ao meu Pai, Mozart Victor Russomano, a quem tenho o imenso prazer de desmentir neste ato, porque ele dizia, lá por 2009, 2010, que, fora do círculo mais íntimo, ninguém se lembraria dele 1 ou 2 anos depois da sua morte. E já fazem quase 12 que ele se foi…

Em segundo lugar, quero me desculpar por trazer cola. Não sou capaz de falar em público sem ela, como meus Pais, ainda mais com a emoção desta data e a de estar de novo em casa e nesta Casa, que era deles de certo modo.

Em terceiro lugar, vou pedir desculpas ao Dr. Clayton Rocha, aqui presente, pois vou desconsiderar o conselho dele de só citar os 10 títulos mais importantes do Pai. Não vou citar nenhum: estão todos na internet. No site do Tribunal Superior do Trabalho, por exemplo, e em dois dos meus blogs tipo Álbum de Família, no mínimo. Assim é que vou preferir me deter em coisas mais sentimentais e menos conhecidas para trazer a dimensão mais humana do jurista e magistrado, aproveitando esta oportunidade, uma das últimas, talvez a última, para eu dar de público este meu testemunho.

E começo por dizer que estamos todos reunidos aqui, hoje, neste Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFPel, por causa do nascimento de um bebê rechonchudo – com impressionantes 5 quilos – ali na rua Dr. Cassiano, 152, se é que o número segue o mesmo, há exatos 100 anos, 7 horas e 40 minutos, chamado Mozart Costa Russomanno, e Russomanno com 2 enes. Sim, meu Pai trocou de nome duas vezes na vida. Na primeira, só perdeu um dos enes do último sobrenome, mas, na segunda, trocou o Costa por Victor em memória do pai, o médico obstetra, advogado, Deputado Federal por dois mandatos – Constituinte em 1936 – e orador brilhante (perdoem a imodéstia), Dr. Victor Russomano, que morreu muito moço, na data máxima gaúcha, dia 20 de setembro de 1937. O Pai fizera 15 anos pouco antes e o vovô Victor faleceu aos 46, na sequência de um AVC, sofrido enquanto discursava ao vivo na rádio, em Caxias do Sul, na campanha de Armando de Salles Oliveira para a Presidência da República. E, o pior, é que a minha vó e os dois filhos, a tia Rosah e o Pai, coitados, estavam ouvindo o discurso e escutaram quando o locutor entrou no ar para dizer que o Dr. Victor tinha passado mal… Que susto e preocupação em época de comunicações precárias… com a pior notícia vindo depois do que lhes pareceu uma eternidade…

Até ali meu Pai teve uma vida feliz, acho eu. Era bastante mimado, ao menos pela vó Didi (Elda da Costa Russomano), segundo ele mesmo contava. Disparava correndo completamente nu pela rua, com 2 ou 3 aninhos, para a casa do avô paterno, Frederico Russomanno, que não ficava muito perto, não. Mas, após a morte do vovô Victor, tudo mudou. Ao contrário do que se possa pensar da leitura do currículo do Pai, nada foi fácil dali por diante para ele, pelo contrário. Foi tudo muitíssimo batalhado. Os três – a minha avó, a tia Rosah e o Pai – tiveram de peitar o dinheiro escasso para as necessidades práticas do dia a dia. É que, naquela época, a grandessíssima maioria das mulheres do status social da vó era “do Lar” e dependia do marido para tudo. E – pasmem! – os deputados federais, que não tinham mordomias e pagavam do próprio bolso as despesas de viagens a trabalho, as mudanças da família, a locação de moradia no Rio de Janeiro, e assim por diante, não deixavam pensão ou quaisquer garantias quando morriam… As viúvas não recebiam lhufas, os filhos, muito menos. Nem um tostão furado. Céus, que situação medonha!

Pois a vó não era exceção. Sem formação, sem profissão e sem experiência, se viu de repente, não mais que de repente, como tão bem dizia Vinicius de Moraes, como a única responsável por ela mesma e por dois filhos jovens demais: a tia Rosah, com 17 anos ainda, e o Pai, com 15. Quem veio em socorro dela? Getúlio Vargas! Que, apesar do vovô Victor estar na Oposição, mostrou grande largueza de espírito e generosidade, oferecendo ao Pai um cargo público. Mas, ora, como aceitar a oferta sem interromper os estudos do rapazinho?! Ainda mais que o meu recém falecido avô achava que estudar era tudo… Não, impossível, nem pensar! E a vovó Didi agradeceu e… dispensou a oferta, com uma coragem tirada não sei de onde, porque eu, no lugar dela, teria ficado seriamente tentada. O Doutor Gegê? Por sorte não se deixou demover, que não era homem de se deixar levar, nomeando-a, ato contínuo, Inspetora de Ensino do Colégio São José, aqui ao lado.

Minha avó aceitou, imagino que morta de medo de não dar conta, mas era a única saída. O aperto durou de 1937 a 1945, pelo menos. O salário dela não era nenhuma maravilha, mas que deu, deu. Apertadíssimo, mas deu. É verdade que, quando o Pai foi estudar em Porto Alegre, ele morou no Grande Hotel, um senhor luxo, ao alcance dele graças à hospedagem gratuita: o dono tinha sido um grande amigo do vovô Victor e se recusou terminantemente a cobrar qualquer coisa do Pai. Ou seja, o Dr. Mozart morava lá de favor e, mesmo assim, minha avó fazia sacrifícios medonhos para sobreviver e arcar com os demais gastos dos três. Encarou até sair da própria casa e ir morar com a tia Rosah no antigo escritório do meu bisavô Frederico para ganhar um extra com o aluguel da residência da rua Dr. Cassiano.

A família Russomano tivera recursos, devo dizer, mas eles tomaram um chá de sumiço na velhice do bisa Frederico, um imigrante que veio da Itália atrás do grande amor da vida dele e que, aqui, teve um certo sucesso com a Fábrica de Calçados Russomanno, que chegou a ter mais de 100 funcionários, mas que depois faliu… Acredito eu que, em parte, pela viuvez – Dona Carmella era fera nos negócios e fez falta! – e, em parte, porque ele se desiludiu e desistiu de lutar. Já tinha perdido há muito a filha mais velha, Leonilda, mocinha ainda, e tornou a perder o primogênito (o vovô Victor), coisa de que ele soube, segundo o tio Clóvis Russomano, que estava lá e tinha 12 anos, por ter ficado escutando atrás das portas fechadas. Ou – daí quem sabe? – por ter ouvido o locutor da rádio, ele também. Seja como for, para mim, ele entregou os pontos no ato. Foi a nocaute. E ficou de cama 6 meses, segundo a Nailê Russomano.

Um “segredo” do Dr. Mozart? Em moço, sonhou ser escritor. Não o autor técnico e tremendamente profícuo em que se tornou, como magistrado famoso, mas um na linha de romances, contos, ficção – e poesia – em tempo integral e dedicação exclusiva.

A família materna da vó Didi, idem. Foram charqueadores abonados no auge da atividade em Pelotas e proprietários da São João, mas a herança deles acabou quando o filho armou um bafafá danado contra as irmãs e… ganhou…

Isto posto, devo frisar que meu Pai virou um Grande Homem. Fez jus aos sacrifícios. Perdoem a corujice, mas que ele foi, foi. Daqueles em quem choviam elogios por onde ia, que os principais jornais alardeavam e repetiam, que os focas perseguiam nos aeroportos, que era saudado com honras de General – de Exército, de Brigada ou de Divisão, sei lá, não entendo disto – em época de regime militar e que circulava com batedores da PM e sirenes ligadas em visitas oficiais a cidades. Ao discursar pelo mundo afora era invariável e merecidamente aplaudido em pé. Não recordo de qualquer exceção.

Um “segredo” do Dr. Mozart? Em moço, sonhou ser escritor. Não o autor técnico e tremendamente profícuo em que se tornou, como magistrado famoso, mas um na linha de romances, contos, ficção – e poesia – em tempo integral e dedicação exclusiva. Foi deste sonho juvenil que emergiram as suas crônicas posteriores e sobretudo as do “Viajante Apressado”? Creio que sim. Creio que elas vieram na esteira, na sequência, do pendor precoce de que conservo, zelosa e ciumentamente, algumas brochuras, publicadas pelo próprio com justificado orgulho – e, arrisco eu, com alguma esperança de sucesso literário – de 1941 a 1946. Mas não. Não era este o tipo de sucesso que lhe estava reservado, como se sabe.

Uma paixão dele que não era segredo? O Dr. Mozart era pelotense da gema e da gema dos Ovos Moles e que tais. Era fissurado neles!

Morou aqui quase sempre, excetuados os períodos em que estudou em Porto Alegre – onde se formou na Faculdade de Direito em dezembro de 1944, com 22 anos, sendo Orador da Turma – e em que foi Ministro do Tribunal Superior do Trabalho e sucessivamente seu Vice-Presidente, Presidente e Corregedor. Ainda lembro dos meus Pais saindo para o jantar, acho que de gala, no Clube Comercial daqui, em homenagem ao Presidente da República, Sua Excelência General Artur da Costa e Silva, em visita à cidade. Era o ano de 1968. Tenho foto do momento exato em que o convite foi feito ao Pai pelo Presidente. E, aí, ele se fixou primeiro no Rio de Janeiro, mantendo um pingue-pongue de lá para cá e de cá para lá, até meus irmãos mais moços terminarem o Clássico e o Ginásio, e depois em Brasília.

Tomou posse no TST do Rio em 25 de junho de 1969 e aposentou-se em 1984 – contra a vontade da Mãe…. – para assumir a OIT. Antes, quando juiz do TRT de Porto Alegre, também ficava num vaivém semanal. E já era professor universitário e juiz quando se casou, em 9 de maio de 1946, com 23 anos. Tinha conhecido a Mãe justo aqui ao lado, no Colégio São José, onde ela estudava, em dezembro de 1938. Também tenho o texto em que ele conta como foi o primeiro encontro dos dois, porque sou uma colecionadora ávida de velharias pelas quais ninguém mais se interessa. A primeira filha nasceu em abril de 1947. Pai aos 24 e logo, logo, com uma segunda menina a caminho, eu, que nasci em 10 de junho de 1950, mas não contem para ninguém! E quanta responsabilidade sobre alguém tão jovem e com tão parcos recursos, já que os da Mãe também tinham ido pro beleléu com o rombo e afundamento à la Titanic do Banco Pelotense, de que os Antunes Maciel foram grandes acionistas. Mas o Pai manobrou bem aquilo que tinha tudo para ser uma senhora crise e sou eternamente grata pelo universo seguro que ele e a Mãe criaram para nós.

Mas o Pai foi, acima de tudo, um grande Amigo dos filhos. Com “A” maiúsculo. “O” Amigo incondicional e pronto a nos socorrer e a nos tirar, aos quatro, dos apertos em que a vida nos mete – e em que nos metemos sem qualquer ajuda – tivéssemos culpa ou não. Não vinha ao caso.

Em casa, ele era meio exigente, e até, ocasionalmente, meio severo, sobretudo nas refeições, que seguiam à risca as normas de etiqueta inglesa do Colégio Aldridge do RJ, onde ele estudou nas temporadas cariocas da Câmara Federal. E idem quanto às cobranças do rendimento escolar dos filhos. Tínhamos como única obrigação, estudar, contando com um exército de empregados e facilidades para isso e de desempenhar, mas não apenas no colégio. Era acordeão, piano, ballet, Escolinha de Artes, Cultural, Aliança Francesa, tênis, e por aí vai, dependendo das inclinações de cada um.

Mas o Pai foi, acima de tudo, um grande Amigo dos filhos. Com “A” maiúsculo. “O” Amigo incondicional e pronto a nos socorrer e a nos tirar, aos quatro, dos apertos em que a vida nos mete – e em que nos metemos sem qualquer ajuda – tivéssemos culpa ou não. Não vinha ao caso.

E se era dureza durante o ano letivo, as férias eram moleza. Eram o máximo! De início, na praia do Cassino e nos melhores paradouros do Uruguai, para onde íamos de avião ou de carro, pela estrada ou pelo litoral – numa viagem meio assustadora pela praia deserta, sem nada à vista além de naufrágios e carcaças de animais enormes. Cruzar com outro automóvel era uma festa de abanos e cumprimentos… A aventura costeira era feita em dois carros, para maior segurança. Nós, no nosso Studebaker Bullet Nose preto, comprado usado, a um caro custo, em 1957 ou 1958, e os Vasconcellos no automóvel do saudoso “tio” Mário, um grande amigo do Pai com pinta de galã, sempre alinhado e bonitão. Mais adiante, em altíssimo estilo, na Europa e nos Estados Unidos, e destas falarei melhor depois.

O Pai ODIAVA cheiros, tanto os ruins, quanto os de comida, que era fartíssima lá em casa, com duas refeições principais. Almoço e jantar iam de uma entrada a dois pratos quentes seguidos, com todos os acompanhamentos, mais sobremesas de ovos, que goiabadas e demais “adas”, compotas e frutas não contavam, não eram sobremesas que se prezassem, conforme ele pontificava. Por outro lado, ADORAVA os bons perfumes, tanto os de ambiente, quanto os pessoais, e se encharcava com colônias francesas masculinas. Hoje acho que o olfato hiperdesenvolvido dele pode ter sido uma espécie de compensação para a incapacidade de ver cores. Enxergava bem somente o amarelo e alguns tons de azul, razão de sua dispensa sumária do Serviço Militar. Custou a decorar a ordem das sinaleiras e até para aprender os sinais de trânsito. Mas adorava brilhos como o da prata de lei, o do ouro e de tudo que era dourado. E cristais azuis, claro.

Acho meio engraçado que o nome dessa deficiência dele, conhecida como acromatopsia ou agnosia, lembra muito o da agnose ou agnosticismo, já que ele era agnóstico, religiosamente falando. As suas crenças – ou descrenças… – me levaram a procurar freneticamente o significado da palavra, em eras pré-Google, nos dicionários e enciclopédias do sobrado da Barroso, mas não fui feliz. Acabei deduzindo, das minhas conversas com ele a respeito, que ele não acreditava no Absoluto. Ou se permitia duvidar do Absoluto. Isto é, de Deus. Apesar da criação católica. Era algo que eu achava assustador e me deixava em alas pelo Inferno para onde ele iria… Sigo sem ser expert na matéria, mas acredito que ele era um agnóstico do tipo teísta, se não antes, pelo menos no final, quando pode ter admitido a hipótese de ter passado a vida errado.

Uma curiosidade – que é uma senhora indiscrição? Ele tinha algum DNA paranormal da bisavó Carmella, a imigrante italiana que encontrava poços, munida duma simples forquilha, onde os técnicos juravam não haver a menor chance de se tirar sequer uma gota de água, entre outras façanhas. Sim, ela tinha coisas estranhas e, o Pai, por vezes, premonições, em que dizia “não me pergunta como sei, mas…” e o que ele falava a seguir, acontecia tal e qual, sou testemunha. E era um dom corriqueiro. Ninguém mais se espantava lá em casa. Aliás, precognição e alguma estranheza não faltaram nos dois acidentes de avião em que ele esteve envolvido. Num, não sobrou ninguém pra contar a história e não preciso acrescentar que ele não embarcou. No outro, em Monróvia, salvou-se quase miraculosamente, em 1967. Depois deles, brincava – meio a sério? – que não sabia se os acidentes foram sinais de que ele não deveria mais viajar de avião ou se nada mais de ruim lhe aconteceria numa viagem aérea…

Uma incógnita – e que está longe de ser unicamente minha – era sobre a orientação política dele. De Direita? De Esquerda? Quase impossível dizer, até para mim. O posicionamento de um juiz daqueles tempos sobre essas coisas era impenetrável. E ele era imparcial por definição. Portanto, também não falava em quem ia votar, nem na própria casa. A exceção que confirma esta regra se deu na campanha eleitoral do Marechal Lott, o candidato dele e da Mãe, porque achavam o opositor, Jânio Quadros, um tanto quanto, digamos, “extravagante”, com a sua “vassoura”, com que ia varrer inclusive maiôs de duas peças e coisas do tipo do mapa. Agora, no entanto, posso dizer com relativa certeza e tranquilidade que o Pai era Castilhista e, por extensão, deduzo eu, Positivista. Mas não boto minha mão no fogo por nada disso.

Mas será que, no fundo, no fundo, ele não pendia a favor de um dos dois lados? Para a Direita? Para a Esquerda? Não dá pra saber… Foi chamado de “comunista”, denunciado na ID3 de Pelotas, onde teve de depor, e ajudou, com o próprio dinheiro, amigos e colegas esquerdistas assumidos que tiveram de fugir do País, mas, mesmo assim, foi perseguido pela guerrilha durante mais de uma década. Por outro lado, defendeu abertamente o Regime Militar, que vivenciou de camarote no DF, mas não por ter sido nomeado Ministro pelos militares, como alguém poderia achar, de modo algum! Ele não se vendia! E não se vendia, não por falta de ofertas – de civis, bem entendido – mas por correção. Deixou a respeito desse período (o militar) um depoimento pessoal de valor histórico, com o exato título de “Depoimento”, em que ele atesta que os militares JAMAIS tentaram influenciar, nem sequer minimamente, a Justiça do Trabalho brasileira, o que provo, citando um trecho: “Em todo esse tempo (1969/1984) de pleno regime militar, em nenhum momento, a qualquer título, qualquer pessoa do governo me fez qualquer pedido ou interferiu, de qualquer forma, nas minhas funções; nem sequer me indicaram um funcionário para cargo de provimento em comissão ou função gratificada.

E no ministério estavam amigos íntimos… Ao contrário, eu fiz, em nome da Justiça do Trabalho e a bem dela, pedidos e indicações aos governantes, sempre aceitas, sem condições ou contrapartidas. Em relação a mim, descontadas as visíveis futricas locais, digo de público o que tenho dito em conversas privadas: o regime militar se portou bem. Não sei se em relação a outros a conduta oficial foi a mesma. Espero que sim. Posso afirmar que a Revolução de 64 parou na porta da Justiça do Trabalho, embora tivesse todos os meios e forças para entrar e nela instalar-se. Um ponto positivo na história do Brasil.” E tem mais, tem uma outra crônica sobre Itaipu e sobre a condução acertada da mesma pelos militares. Saíram ambas no jornal e estão as duas no seu livro póstumo “O Poeta Anônimo”.

O que acrescentar, em caráter geral, sobre o Pai, assim, en passant?

Na minha percepção – e, de novo, desculpem a falta de modéstia – era um sujeito genial, erudito, refinado, cativante, épatant! Um cortesão, no bom sentido da palavra. E, como já falei, extremamente honesto. Escrupulosamente honesto. Para os que estranharem as nossas idas a passeio à Europa e aos USA, em alto estilo, quando essas viagens eram raríssimas e caríssimas, e que incluíram os melhores hotéis, como o Ritz, de Londres, o Plaza Athénée, de Paris, o Negresco, de Nice, o Waldorf Astoria de NY, etc, etc, mais restaurantes luxuosos e programas espetaculares, explico: tudo bancado pela venda dos vários imóveis que o pai da Mãe deixou para ela no RJ. Os dois achavam que esses gastos se justificavam e ponto final. E foi assim que o dinheiro do vovô João Gaspar Corrêa Meyer foi (muito bem) gasto.

O Pai foi um figurão de coração mole. Mole à beça. Ajudou horrores de pessoas a arranjarem emprego num período em que cabia aos juízes fazerem nomeações para as vagas. O entendimento de então era de que eles somente poderiam julgar – e sentenciar… – com isenção e tranquilidade se assessorados por quem fosse de sua estrita confiança e compatibilidade. Pode parecer esquisito agora, mas não para mim, que sou velha. Pra mim é pra lá de sensato. E muitíssimo preferível a julgar – e sentenciar… – com estranhos e possíveis traíras à volta. Se houve abuso “nepotista” do Pai? Nunca! Pelo contrário.
Esqueci de algo? Bem, ele gostaria de ter sido Embaixador do Brasil em Paris. Acho que também teria aceitado Roma.

Convidado a ser Ministro da Justiça pelo General João Baptista de Oliveira Figueiredo, declinou pelas implicações políticas – e obrigações… – implícitas subjacentes. Ah, um detalhe adicional – e final, prometo! Ele se identificava com o Romantismo. Dizia ser “um homem do XIX que por acaso nasceu no XX e que, por um acaso maior ainda, iria morrer no XXI”. Como ocorreu, mansamente, aos 88 anos, em 17 de outubro de 2010, um domingo, às 17 horas e 35 minutos, na Santa Casa de Misericórdia de Pelotas – num aniversário de sua primeira posse como juiz – deixando imensas saudades em todos que o queriam bem e, a mim, atordoada.

Por quem dobram os sinos? Desde lá, dobram por mim. E assim é que vou terminar com a poesia “Sino”, do pelotense Tristão Veloso Nunes Vieira, de pseudônimo “Marcio Dias”, porque a mulher amada e falecida chamava-se Marcia Dias, nascido em 1900 e que se suicidou em 1919, uma das muitas que o Pai adorava e declamava, quando estava com a veia poética, pela casa afora:

“E esse sino não cansa!… é um ai de desespero!…
Parece o soluçar de Deus Nosso Senhor!
E dindala, e dindonda a noite e o dia inteiro;
Bendelengua pelo ar, seu cantochão de dor!

Eu já estou fatigado, ó sino regougueiro,
De te ouvir. Para um pouco ó sino, por favor!…
– O sino não tem culpa, a culpa é do sineiro,
Triste poeta infeliz, que enlouqueceu de amor.

O dobre dele é doce… é um bandolim chorando
O sineiro é que é mau… o sineiro que é um monge,
Cujo olhar é um adeus que nos está chamando!

Esse sino é a saudade a qual se sofre e sente,
Quando se tem alguém, que se quer bem, ao longe;
E esse sineiro louco é o coração da gente!…”

Pessoal, como este sino badala!

Boa noite e, mais uma vez, obrigada a todos por tudo.

O Pai teria adorado cada segundo de hoje!