“OS BACHARÉIS”: OSPA REEDITA JOÃO SIMÕES LOPES NETO EM PELOTAS

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Ensaio da nova montagem de Os Bacharéis, que retorna aos palcos após 18 anos. Foto: Vitória Proença/Ascom Ospa

O escritor regionalista João Simões Lopes Neto, conhecido por Contos gauchescos, é autor de uma obra que vai muito além. Parte desse catálogo menos conhecido engloba a sua produção teatral, focada em temas urbanos abordados de modo leve e com música original, cujo maior exemplo é a comédia-opereta Os Bacharéis. Quase 130 anos após sua estreia em Pelotas, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), fundação vinculada à Secretaria da Cultura (Sedac), realiza uma nova montagem do espetáculo que, por muito tempo, ficou esquecido.

A nova versão estreou ontem em Porto Alegre e aqui em Pelotas a sessão será no Auditório do Sicredi, em 8 de setembro, realizada em homenagem aos 150 anos da Associação Comercial de Pelotas. Os ingressos para a récita de Porto Alegre estão esgotados. Em Pelotas, o ingresso pode ser trocado por 4 litros de leite na Associação Comercial de Pelotas.

Usando o pseudônimo Serafim Bemol, o pelotense Simões Lopes Neto dividiu a autoria de Os Bacharéis com o conterrâneo José Gomes Mendes, que assinava como Mouta Rara. Além de ser cunhado de Simões Lopes, Mendes foi um importante parceiro artístico em diversas produções teatrais. Já a parte musical de Os Bacharéis coube a Manuel Acosta y Oliveira, um músico negro e estrangeiro (sua origem não é conhecida) que, a despeito do preconceito vigente no Brasil pós-abolição, teve prolífica e elogiada atuação como violoncelista, regente e compositor no país.

O diretor artístico e maestro da Ospa, Evandro Matté, aponta que a montagem está inserida em um crescimento da produção operística tanto na programação da Ospa como em todo o Rio Grande do Sul. Escrita por dois autores gaúchos, Os Bacharéis tem como diferencial suas raízes locais. “A obra de Simões reforça a presença da ópera brasileira na programação da Ospa e apresenta o desafio de resgatar essa comédia de costumes da sociedade”, salienta Matté, que assina a direção musical do espetáculo.

Após a estreia de sucesso, em 23 de junho de 1894, no Theatro Sete de Abril, em Pelotas, o espetáculo foi reencenado em algumas ocasiões, mas eventualmente caiu no esquecimento. Em 2005, um extenso trabalho de pesquisa possibilitou uma nova montagem. Cláudia Antunes pesquisou partituras e documentos originais, Márcio de Souza reconstituiu as partituras que tinham sido parcialmente perdidas, e a orquestração ficou a cargo de Rogério Constante. Élcio Rossini adaptou o texto e assinou a direção. As sessões, em Porto Alegre e Pelotas, causaram comoção. Naquela ocasião, Marcelo Ádams interpretou um dos protagonistas, Cincinatus. Agora, ele retorna como diretor cênico do projeto.

“Reencenar a peça é reapresentá-la ao público, que nos últimos 18 anos não teve acesso. Em 2005, foi diferente do que será agora. O elenco era composto por atores que cantavam, alguns dos maiores da época, como Margarida Peixoto, Julio Andrade e Sandra Dani. Agora será composto por grandes cantores líricos”, compara Ádams. Em 2023, o elenco traz Flávio Leite, Sérgio Sisto, Henrique Cambraia, Felipe Bertol, Elisa Machado, Guilherme Roman, Roger Nunez, Cristine Guse, Carolina Braga, Ricardo Barpp, Oséas Duarte e Izabella Domingos.

Os Bacharéis é uma comédia-opereta, ou seja, uma forma de arte que conjuga o texto falado com o canto e deriva da ópera (que explora unicamente o canto). No Brasil, o gênero artístico esteve muito em voga no final do século 19 e combinava ritmos brasileiros e europeus. Nas operetas, o texto descontraído frequentemente recorre ao humor como ferramenta de crítica social. Em Os Bacharéis, o alvo dos autores foi a hipocrisia e os costumes conservadores da sociedade pelotense, ainda que o texto não esteja situado em um local ou tempo específicos.

Embora o enredo seja construído a partir de uma clássica história de amor, com direito a vilão, os reais protagonistas são três irmãos, os bacharéis do título. Um deles, Cincinatus, impede o casamento entre os noivos Pombinho e Caricina alegando que os dois seriam parentes e, portanto, não poderiam se casar. Desolado, Pombinho deixa a cidade e só volta anos depois, com diploma de bacharel. O retorno abala os planos de Cincinatus, que tentava conquistar Caricina. Enquanto a plateia assiste às ações inescrupulosas dos personagens, a hipocrisia dos costumes conservadores é revelada, provocando efeitos cômicos.

Segundo Ádams, a obra revela uma faceta divertida de Simões Lopes Neto. “Sempre pensamos na importância de Simões em relação às obras mais rurais, mostrando o típico gaúcho e as lendas do interior, como a Salamanca do Jarau. Mas as comédias são peças urbanas, revelam a versatilidade do autor, a sua outra face”, explica.

Programa de Gratuidade da Ospa

Escolas públicas, ONGs, organizações sociais e educacionais podem solicitar entrada gratuita à comédia-opereta Os Bacharéis em Porto Alegre e Pelotas. Buscando democratizar o acesso à música de concerto, a Ospa disponibiliza 20% dos ingressos de todos os seus espetáculos para esse público, dentro do programa de gratuidade. Devido ao número limitado de cortesias, cada instituição deve fazer o pedido para o e-mail [email protected]. O pedido deve conter o CNPJ da instituição, o número de pessoas que irão ao concerto e o nome do responsável pelo grupo. Após o envio, é necessário aguardar a confirmação do benefício. Os pedidos são atendidos na ordem em que foram recebidos.

Os Bacharéis

Serviço – Pelotas

Data: 8/9, às 20h30
Onde: Auditório do Sicredi (av. Dom Joaquim, 1087)
*Ingresso solidário: mediante a doação de 4 litros de leite