ARTIGO – QUE COMAM BRIOCHES

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QUE COMAM BRIOCHES
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Ivon Carrico*
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O auge da França ocorreu no longevo reinado do Louis XIV, de 1643 a 1715. Tempos após sua morte eclodiu a Revolução, em 1789.
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Àquela ocasião a aristocracia, composta pela realeza, nobreza e o clero, era contemplada por inúmeros privilégios, enquanto o povo pobre se esvaia de fome pelas ruas de Paris.
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Quando informada desse estado de pobreza e da consequente fome – a Rainha do plantão, esposa do Rei Louis XVI, Maria Antonieta – reverberou: “Que comam brioches”!
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A Revolução Francesa – para combater esses privilégios – consubstanciou-se no famoso lema: Liberté, Egalité, Fraternité. Era o grito dos revolucionários em prol da democracia  e da derrubada de governos opressores à sua realização.
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Todavia, a liberdade, a igualdade e a fraternidade nunca desembarcaram nos Territórios ultramarinos franceses, permanecendo só na metrópole.
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A indigência do Haiti, ainda hoje, e a da Guiana Francesa que serviu, inclusive, de inspiração para Henri Charrière escrever ‘Papillon’, corroboram essa tese.
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Já no Brasil  a CF/1988 nos trouxe o Estado Democrático de Direito. Mas, tal qual o lema da Revolução Francesa que atendeu a metrópole e suas castas, aqui os ideais do Constituinte têm, quase que sempre, se cingido às Corporações incrustadas no Estado brasileiro. Quer sejam públicas ou privadas.
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No que tange às Corporações estatais a pauta salarial é um acinte e um despropósito visto ser fruto de acordos solertes que estão ocorrendo nos porões e nas madrugadas dos 03 Poderes.
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Assim, para aqueles que não integram essas castas resta tão somente, então, comer brioches. Ou seja, tal qual os ideais da Revolução Francesa, o Estado Democrático de Direito – aqui, também – não é para todos.
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*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 21/12/2022