ARTIGO – O PESADELO DE FEVEREIRO DE 2021

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O PESADELO DE FEVEREIRO DE 2021
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Por Clayton Rocha
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Encara cada dia isolado como uma vida inteira! Sem esquecer que nada está mais perto de ti do que tu mesmo.
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Marina Bernardi da Costa era o seu nome, mas Dadá era o apelido afetuoso que tanto a identificava. E Caco, o seu afilhado de batismo, era aquele que viajava sob sua proteção no vai e vem daquele trem puxado por uma “Maria Fumaça” na linha Cerrito-Pelotas.
Eles eram inseparáveis e se amavam muito, até mesmo na hora de olhar para o céu estrelado, sentados numa cadeira de balanço na frente da casa.
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Eles eram inseparáveis e se amavam muito, até mesmo na hora de olhar para o céu estrelado, sentados numa cadeira de balanço na frente da casa. E junto deles, o tio Nenê, um Anjo vivo venerado por todos aqueles que compreendiam o seu sofrimento: Uma vida inteira dependente daquele tubo de oxigênio da Cia White Martins.
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“Lá nas rosas do seu jardim”.

A Tia Marina, também tia do Henrique Medeiros Pires, carregava a marca dos Bernardi, Marina Bernardi da Costa, uma italiana enérgica, impositiva e adorável que cuidava de todos os detalhes da história poética de cada dia. Neste tempo de agora, que é o tempo das boa lembranças, eu a vejo em ação em seus espaços de sempre, aquele canteiro de morangos, junto às árvores frutíferas; lá nas rosas do seu jardim, ou preparando o feijão preto feito em fogão à lenha, mais aquele inesquecível carreteiro de charque. Ela continua presente buscando a água do poço, a ração do Tarzan, as encomendas que chegavam da roça e que eram retiradas da carroça de boi, incentivando sempre a leitura de todos os jornais e insistindo nas lições dadas ao seu jovem afilhado, este discursando em cima de uma cadeira ou lendo o DIÁRIO POPULAR lá naquela rede colocada embaixo do parreiral dos fundos. Ele queria ser político no futuro, e vivia sonhando com isso desde a mais tenra idade.

Aquele canteiro de morangos, junto às árvores frutíferas;
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Para cada avanço nas leituras pedidas ao menino, ou diante de sinais claros de boas notas, ele já sabia o que o esperava:– Se tudo fosse cumprido à risca e sem falhas, haveria uma retribuição à vista, aquela viagem de trem até Pelotas! E não era preciso dizer mais nada ao garoto, pois o recado já estava muito bem assimilado.
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Pois tantas e tantas décadas depois, isso chama-se segunda metade dos anos cinquenta, eis-me aqui a homenagear a memória da Tia Marina e do Tio Nenê, ele Antônio Silveira da Costa, irmão de meu pai.
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Eu os carrego agora, eles que estão sempre comigo no mais fundo do meu próprio íntimo, enquanto ainda os vejo derramando-se em contentamento e em sorrisos diante de mim. Por tais razões costumo dizer que distância nenhuma, ausência nenhuma ou mesmo morte nenhuma conseguirá descaracterizar esses sinais agregados de amor e de afeto que tendem a avançar, eternidade afora.
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Num desses sinais, e bem recentes, e desta feita em forma de pesadelo, convivi com algo muito forte e bem emblemático que ainda permanece em mim. Ela, a tia Marina, me perguntava através de uma voz que vinha de muito longe: – Meu filho, a Dadá precisa saber sobre o que queres que seja feito nesta hora tão difícil. E me responde logo, até para facilitar as coisas:- Tu queres ficar aqui em Pelotas, ou queres ficar junto ao teu pai, lá no Cerrito?
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Se para sorte minha essa conversa familiar não passou de um pesadelo, vale lembrar aqui preciosa lição de Shakespeare, segundo a qual o universo é ilusório e viver é, precisamente, sonhar ou ter pesadelos.
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– Senhor, dizia-me a Tia Marina, entre gasosas e bolinhos de polvilho lá na Confeitaria Brasil de outros tempos, sempre encantada com as lições de Gandhi: – Ajuda-me, meu filho, a dizer a verdade diante dos fortes e a não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos fracos.
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– Senhor, se me deres fortuna, não me tires a razão. Se me deres o sucesso, não me tires a humildade. Se me deres humildade, não me tires a dignidade.
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– Senhor, não deixes que me torne orgulhoso se triunfo, nem cair em desespero se fracasso. Ensina-me que perdoar é um sinal de grandeza e que a vingança é um sinal de baixeza. Se não me deres o êxito, dá-me forças para aprender com o fracasso.
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– Senhor, se eu ofender as pessoas, dá-me a coragem para desculpar-me, e se as pessoas me ofenderem, dá-me a grandeza de perdoá-las.
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– Senhor, recitava comovidamente a Tia Marina, lá naquela Confeitaria do tempo antigo: – Se eu me esquecer de ti, nunca te esqueças de mim. (CR).