ARTIGO – ENQUANTO VOCÊS EMPURRAVAM O CARRO, EU SUAVA!

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Paulo Guilayn Santos da Silva. (foto) – 1975.

ENQUANTO VOCÊS EMPURRAVAM O CARRO, EU SUAVA!

Clayton Rocha

Cid Moreira, Rio de Janeiro, ano de 1975.
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Texto em homenagem ao meu afilhado Paulo Guilayn Santos da Silva.

Conceição e Cid não abriam mão de um drinque leve de fim de tarde no apartamento do Rio. A nossa conversa fluiu fácil naquele dia avaliando aquele ano intenso de 1975 em jornalismo, na política e na música. E esse bate-papo avançou tanto, mas tanto, que fez soar um velho despertador que repousava sobre a mesa da ampla sala de estar com vista para o mar. Pois esse som, por vezes irritante, perturbou profundamente o nosso anfitrião de bermudas: – Meu Deus, o JN! Eu perdi a noção do tempo, e já estamos muito atrasados.
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Paulo Guilayn Santos da Silva e eu entramos na mercedes vermelha do apresentador ainda na garagem do edifício. Tenso, ele deu a partida no veículo, mas pouco mais de uma quadra depois o motor do “bólido” apagou. O nervosismo do Cid Moreira era tanto, mas tanto, que simplesmente não deixava outras alternativas aos seus convidados: a não ser a de empurrar aquela “lata velha” (uma maldade momentânea!) na verdade uma flamante máquina dos anos setenta.
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Um Guilayn solícito, para desencanto meu, saltou lépido do banco dianteiro enquanto eu me amarrava um pouco nesse tipo de solidariedade capaz de exigir algum esforço físico. Diante da intensa irritação do meu amigo, desci com determinação do carro e joguei “todo” o meu entusiasmo na nova missão, lombada acima!
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De repente, para sorte nossa, o motor deu sinal de vida. Foi quando ouvimos o desabafo agradecido do motorista, que secava o rosto com um lenço de papel: – enquanto vocês empurravam o carro era eu quem suava!
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Menos de meia hora depois, lá estava ele, Cid Moreira, ao lado do Sérgio Chapelin, na bancada de um JN então identificado pela alta credibilidade naqueles tempos. Terminaríamos aquela noitada num restaurante do Leblon, molhando a palavra entre whiskies e chopes.
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Éramos todos muito jovens, numa década que era um convite ao exercício de nossos melhores sonhos de vida. Havia poesia nas ruas, nas boates e nos ambientes públicos, onde as calças boca-de-sino desfilavam com elegância. E de vez em quando usava-se um lança perfume de embalagem metálica dourada, mais o som envolvente dos Beatles e dos Rolling Stones. A gargalhada fácil enchia de entusiasmo as conversas sempre infindáveis e ninguém havia esquecido ainda as peripécias de Pelé e Cia naquela copa do mundo vencida magistralmente no México/70.
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Benditos tempos aqueles, pois todas as riquezas do mundo não valem uma boa memória, enquanto a liberdade vivida em sua plenitude é mais importante que o pão. Lembremo-nos da leveza e do descompromisso no auge das idades do sonho: lá, a risada flui fácil e a vida é para sempre!
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Por estas razões, conveniente dizer agora ao leitor de todas as idades: NÃO TE ESQUEÇAS DE VIVER! E não te conduzas como se fosses durar milhares de anos, pois sobre ti paira o inevitável. Enquanto vives e podes, esforça-te apenas para tornar-te homem de bem, com o merecido direito de desfrutar da poesia da vida.
Isso é o que basta!
Isso é o que fica.