ARTIGO – EL BRUJO E O AMIGO BRASILEIRO

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Luiz Ricardo Lanzetta, 72, jornalista, é pelotense e reside em Brasília.

El Brujo e o amigo brasileiro

Luiz Ricardo Lanzetta – Jornalista

(Gran Jefe 4)

Esta é uma história tanto intrincada quanto aterrorizante. Ela é um caleidoscópio giratório composto de múltiplas participações associadas:

– Máfia Italiana;

– Maçonaria Internacional;

– Umbanda Brasileira e pais de santo brasileiros;

– Vaticano;

– Aliança de caça aos comunistas da argentina; dinheiro e ouro roubado dos nazista;

– Tráfico de nazistas;

– Jurerê Internacional e mercado imobiliário;

– Ascensão e a queda de governos e regimes.

Mas podemos desfolhar a margarida a partir de três pétalas. Uma italiana, outra argentina e a última brasileira. Os dois primeiros são os conhecidos, o italiano Lúcio Gelli e, o segundo, o todo poderoso do governo Peron/Isabelita, Lopez El Brujo Rega. O terceiro é um brasileiro que vendia seus fármacos caseiros que acabaram sendo prospectados por gigantes da publicidade. Tornou-se poderoso no Brasil e na Argentina. Umbandista, ele e El Brujo misturaram suas magias, quase sempre para o mal. Entre mortos, feridos e depenados da história, estaria o papa João Paulo I, que durou poucos dias no trono.

LÚCIO GELLI 

O italiano Lúcio Gelli, o principal personagem do caso P-2, viveu na Argentina, com passagem pelo Brasil, onde deixou uma filha, e virou amigo de Juan Perón, apresentado por Lopez Rega. Outros que estão nesta história e no filme O Chefão 3, de Francis Ford Copolla, são: Michele Sindona, Roberto Calvo e Paul Marcinkus. O banqueiro Michele Sindona, o Tubarão – contato da Máfia da Sicília e da família Gambino, de Nova Iorque -era assessor financeiro do Vaticano. Morreu envenenado na prisão. O chamado banqueiro de Deus, Roberto Calvo, foi encontrado morto sob a ponte Blackfriar’s (Frades Negros), no Tâmisa, com o bolso forrado de pedras e dinheiro. Típica execução da Máfia. E o Arcebispo norte-americano Paul Marcinkus. Presidente do Banco do Vaticano, que morreu sem ser tocado pela lei. Lúcio Gelli teve várias condenações mas despediu-se em casa há pouco tempo. Esses quatro formam o elenco principal da tramoia que quebrou o Banco Ambrosiano, onde a máfia e a maçonaria tinham investimentos. Por baixo de tudo, uma relação que começa com o fascismo – da Itália e da Espanha -, passa pelo nazismo e termina com a caça aos comunistas na Argentina.

EL BRUJO 

A primeira página da edição de 22 de julho de 1975 do Jornal do Brasil destacava o terrível e poderoso argentino Jose Lopez Rega, conhecido como El Brujo, em mangas de camisa passeando no calçadão da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. A seu lado, um homem bem mais alto fumava um cachimbo: era o pelotense Claudio Ferreira, presidente à época da Casa do Comércio Brasil e Argentina e que representava em nosso país a Telam, empresa nacional de telecomunicações dos nossos vizinhos.

Claudio Ferreira era o homem de confiança de El Brujo para vários temas, além dos oficiais. Era uma espécie de “capa preta (como eram então chamados os conselheiros) que o assessorava nas suas atividades políticas, financeiras e espirituais. Do Rio, El Brujo iria para Madrid, deixando para trás o agonizante governo de Isabelita Perón com seu enorme rastro de centenas de vitimas produzidas pela Associação Anticomunista Argentina, mais conhecida pela sua horripilante sigla. A Triple A funcionava clandestinamente apoiada no Ministério de Ação Social, de Lopez Rega. Sempre junto a Juan Domingo Perón, desde o primeiro governo do caudilho, nos anos 40/50, Lopez Rega era o chefe da extrema direita armada do peronismo. Mas o apelido El Brujo nasceu das suas relações com um gaúcho de Pelotas, a partir de um encontro de Rosas Cruzes em Paso de Los Libres.

El Brujo morreu na prisão, onde foi parar por lavagem de dinheiro, tortura, sequestros, assassinatos e terrorismo de estado. Enquanto ele esteve no poder, na Argentina, durante três anos, houve 30 mil assassinatos políticos. Dois mil são atribuídos aos 154 facínoras da Triple A. El Brujo tinha poderes mas não muitos. Quando Perón caiu duro para morrer, ele o sacudia pelos pés e gritava: “Ele já morreu uma vez, eu trouxe de volta. Não vá embora. Levanta meu faraó, levanta meu faraó, levanta meu faraó”. Não adiantou. Perón continuou morto.

Para Isabelita ganhar forças extraordinárias, ele a deitava sobre o túmulo da antecessora Evita. O caixão de Evita que voltara a Bueno Aires depois de ter sido sequestrado por peronistas e levada, escondida, para Roma e Madrid. Era um cadáver mumificado no exílio.
Ele tentava fazer uma espécie “transfusão de espíritos” entre as duas. Nada adiantou. Isabelita caiu.

CLÁUDIO FERREIRA

Em 1965, Cláudio Ferreira, levou o seu laboratório Claufer, que tinha sede em Porto Alegre, para São Paulo. Seu carro-chefe era um suplemento alimentar que teve como garoto-propaganda o próprio Juan Domingo Perón. Era como se Getúlio Vargas tivesse protagonizado comerciais do Biotônico Fontoura na terra de Gardel. “Os grandes líderes mundiais tomam Pertônico”, afirmavam os impressos do produto, que estampavam foto de Perón em destaque. Na televisão, os conhecidíssimos Tônico e Tinoco cantavam as maravilhas curativas da droga de Cláudio Ferreira. Como procurador pessoal de Lopez Rega no Brasil, Cláudio comprou para ele terras em Sombrio e São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Foram 30 anos de amizade.

O irmão de Cláudio, Ney, morando em Florianópolis, atuou em várias áreas. Teve uma agência, a Public Propaganda, e, em 1976, fez lançamentos imobiliários nas praias da Ilha. Nesta área, Ney era sócio de Francisco Grillo, genro do ex-governador de SC, Aderbal Ramos da Silva, chefe político e grande empresário, dono das terras onde foi construído o luxuoso balneário Jurerê Internacional. Sempre circulou como verdade que o financiamento do grande empreendimento, teve uma lavagem do dinheiro mafioso do El Brujo, feita por Ney.

Cláudio Ferreira morreu em dezembro de 1985, aos 52 anos, em Cruz Alta, por problemas nos rins e no coração. Sua viúva prometeu escrever um livro contando bastidores dessas histórias. Recheio das histórias e de seus personagens.

LÚCIO GELLI NO BRASIL

Abril de 1981, houve uma operação sigilosa da PF atrás de Lúcio Gelli, que estaria escondido na Ilha do Francês, em Florianópolis. Nada foi achado. Gelli, nascido em Pistoia, teria 68 anos, na época. Ele era protegido da maçonaria e da Igreja Católica. Na Itália, por exemplo, em 1966, filiou políticos e 400 oficiais do exército com o fim de “preparar um governo de generais, preferível a um governo comunista”. Algo soou atual? Na segunda guerra, era oficial de ligação com a SS nazista.

Em função disso, Gelli era o guardião de 200 toneladas de ouro e de um milhão de libras esterlinas, pertencentes a fascistas italianos e iugoslavos, que sumiram misteriosamente. A P2 funcionava na Itália com associações nos Estados Unidos e AL, principalmente na Argentina.

No Uruguai, Gelli associou-se a um banqueiro, Umberto Ortolani. Fizeram fortuna transportando nazistas clandestinamente. Por este canal, teria entrado Klaus Barbie. Na Argentina, protegido por Perón e Rega, foi condecorado com a Ordem do Libertador San Martin. Era cônsul horário da Argentina no Uruguai e conselheiro econômico da embaixada da Argentina em Roma.

Em 82, por conta das fraudes do Banco Ambrosiano, foi preso por 11 meses em Genebra. Conseguiu fugir e desaparecer. A filha de Gelli que morou no Brasil chama-se Maria Grazia Gelli Coninni. A Loja Propaganda 2 foi descoberta a partir da prisão de José Miceli Orimi, um cirurgião da máfia que morava nos EUA. Foi preso no começo de 1981 por tráfico de heroína e revelou suas ligações com Gelli. Gelli fazia lavagem de dinheiro. Envolvia o mundo político e empresarial italiano. O escândalo derrubou o governo de Arnaldo Forlani. A P2 foi fundada em 1967 e abriu uma filial em São Paulo em 1973. As investigações sobre Gelli no Brasil estavam arquivadas no SNI. Este material certamente pode ser localizado.

OS MAÇONS LATINOS

A PF brasileira recebeu da Interpol, dia 24 de agosto de 1984, um rol de envolvidos com a P2 de Lúcio Gelli. Muitos eram absolutamente desconhecidos. Mas Heitor Corrêa de Mello, ex-presidente da V Zona da Confederação Maçônica Latino Americana, no Rio de Janeiro, havia prestado serviços a Gelli.

Um prédio de oito milhões de dólares foi adquirido na Itália em 1976, onde funcionava a fachada legal da loja maçônica P-2. O dinheiro para compra fora remetido ilegalmente por maçons integrantes da OMPAM (Organização Mundial do Pensamento e Assistência Maçônica). Gelli era, em1976, presidente da organização e o secretário-geral era Heitor Corrêa de Mello, Gran-Mestre da Grande Loja da Guanabara. Pouco depois disso, Heitor venderia a Livraria Lidador para comprar uma loja de joias em Copacabana. As ramificações da P2 na América Latina espalhavam- se por México, Venezuela, Uruguai, Panamá, Costa Rica, Paraguai e Bolívia.

EL BRUJO

Há muito material na Argentina sobre El Brujo, que foi comparado também com russo Rasputin, que atuou junto aos últimos Romanov. José López Rega foi influente na política ao final do governo dos Perón, mas sua atuação resultou em catástrofe. “El Brujo” começou a se infiltrar na política quando conheceu Isabelita Perón, terceira esposa do ex-presidente Juan Domingo Perón, em um congresso de esoterismo em 1965. Encantada com as “habilidades” do mago, a ex-dançarina de cabaré decidiu levá-lo para conhecer seu marido que estava em exílio em Madri. E assim, Rega ganhou espaço. Tornou-se secretário particular. Com o apoio de Isabelita, continuou interferindo na política de Perón, aliado ao esoterismo e à extrema-direita.

Nomeado Ministro do Bem Estar Social da Argentina, criou a Aliança Anticomunista Argentina, um grupo paramilitar de ultradireita que tinha como intuito “caçar comunistas”, a fim de combater a ameaça da ideologia de esquerda no continente latino-americano. A milícia agia de maneira ilegal e clandestina, realizando explosão de bombas, sequestros e assassinatos.

A Triple A passou a atuar abertamente a partir da morte do presidente em 1974. O corpo militar recebia apoio financeiro da CIA, cooperando na Operação Condor juntamente com a Aliança Americana Anticomunista, na Colômbia. Alguma surpresa com a semelhança de fatos e personagens atuais?

Depois, no exílio, tentou comprar armas para tentar derrubar o governo argentino, articulado com a rede da maçonaria.

JURERÊ INTERNACIONAL / NEI FERREIRA

Nei Ferreira, com o irmão Cláudio, fazia aquisições imobiliárias para El Brujo no litoral de Santa Catarina. Nei era sócio, neste ramo, de Francisco Grillo, genro do ex-governador Aderbal Ramos da Silva, que legalizou em seu nome a grande parte da praia que se tornou o sofisticado empreedimento Jurerê Internacional.

Há muita gente viva em Florianópolis que trabalhou tanto nas empresas de Nei e Grillo, quanto nas de Aderbal. Ele tinha várias empresas, entre elas o que foi o maior jornal catarinense, O Estado, cuja sede ficava na estrada que leva ao norte da Ilha. O autor dessas linhas trabalhou naquele jornal em 1977, com o telefone de Nei Ferreira no bolso. Nunca ligou. Na época jornalista não falava com publicitário.

Jurerê ainda era uma praia considerada de farofeiros. Poucos moravam ali. Era tipo popular, ocupada por moradores do continente pouco considerados pelos ilhéus, que se consideravam superiores socialmente.

Um pouco da história:
Todas as terras que vão do Rio das Conchas (limite com Canasvieiras) até a Ponta da Daniela eram usadas pelos habitantes das proximidades como “terras comunais”, de uso comum. Ninguém morava ali, mas o espaço era utilizado como pasto para o gado e como fonte de lenha (tanto para consumo próprio quanto para a venda).

Todos reconheciam a região como “Campo de Antônio Amaro”, nome que até hoje é lembrado pelos mais antigos. Há relatos de que Amaro construiu engenhos para que aqueles que não os tinham pudessem também produzir farinha – desde que lhe pagassem o terço. Ele passou a ser também o vendedor de lenha retirada da área e enviada para o centro. Com sua morte, a sua viúva, não conseguindo legalizar a posse, vendeu as terras para Aderbal Ramos da Silva, em 1935. Em 1945, Aderbal é eleito governador de SC e, com o poder do Estado, corre com quem ainda insistia em morar ali.

Muitos dos produtores que haviam construído benfeitorias no local – galpões, engenho, etc. – tiveram que abandonar tudo, pois os “capangas” do partido no poder iam lá e destruíam o que não era de correligionários. O encerramento das atividades comunais na região foi marcado pelo surgimento da Imobiliária Jurerê, cujo principal sócio era Aderbal Ramos da Silva.

Outra comunidade que sofreu com as ações da imobiliária foi a da região do Forte, onde vários pequenos produtores possuíam engenhos e foram expulsos pelo Exército, por solicitação da empresa. Havia cabanas para o abrigo de barcos dos pescadores. Era a preferida das famílias numerosas, que logo escolheram o local pela comodidade, pela sombra. A vegetação chegava até a beira da praia, com árvores de porte médio, e tinha também os eucaliptos plantados para enxugar o solo.

O lugar era um convite ao descanso numa preguiçosa rede de dormir. Isto depois de um churrasco feito ali mesmo, entre as pedras dos trechos de costão que se encontram com o mar. A areia, limpa e suave, era o espaço perfeito para jogos de futebol, vôlei e frescobol. O mar calmo, uma piscina para as crianças e uma tranqüilidade para os pais.

O empresário gaúcho Péricles de Freitas Druck (Presidente do Grupo Habitasul), em meados de 1978, foi chamado por Aderbal Ramos, que já estava praticamente cego e passava a maior parte do tempo na sede do Iate Clube. Começava, então, o empreendimento, que afetou muito o estilo de vida da Ilha. Desde então comentava-se que o Banco Sul Brasileiro estava quebrado mas participou de empreitada. De quem era o dinheiro?
Pericles Drucker está vivo em Porto Alegre e os herdeiros de Aderbal não cuidam bem da sua herança.

CLÁUDIO / NEI / PELOTAS

Nos anos 50, em Pelotas, RS, Nei Ferreira, Odilon Selemio e Getúlio Dias eram funcionários do Samdu, o serviço municipal de ambulâncias. Odilon Selemio estava vivo até antes da pandemia. Conheceu bem os irmãos Ferreira. Getúlio Dias estava se lançando na política. Brizolista, foi deputado federal. Era dos autênticos do MDB. Uma bancada aguerrido que batia duro na ditadura. Morreu fora da política. Foi ele quem me falou primeiro sobre o Cláudio Ferreira. Na ocasião, Cláudio era já era conhecido por causa das relações com Lopez Rega. Ele me deu o telefone do Nei, em Florianópolis, quando para lá me transferi.
O que unia a todos funcionários do Samdu não era a política. Era a Umbanda.

No início, Cláudio tentava que os três introduzissem seus produtos milagrosos no serviço municipal de saúde. Mas foi através da rede de centros umbandistas que ele conseguiu uma forte distribuição nacional, principalmente para o afamado Pertonico, concorrente do Biotônico Fontoura. Celso Kauffman, um amigo, lembra que, quando era publicitário, a agência McannErickson abriu uma subsidiária para novas contas. Uma de suas missões era conquistar a conta do Pertonico.

Celso não conseguiu, pois Cláudio não abriria mão da distribuição via Umbanda. Não dava para explicar o processo para uma multinacional. Mas nasceu uma amizade. Celso chegou a receber Cláudio e El Brujo em Porto Alegre, numa visita ao jornal Zero Hora, onde então trabalhava. A viúva de Cláudio está viva. Mora no interior do Rio Grande Sul e tem um filho chamado Cláudio Ferreira.

OS PAIS DE SANTO
O que aconteceu com os templos de Porto Alegre e Bueno Aires? Que fim levou Garrincha? Existe ainda alguma coisa? Teriam seguidores? E os de Wilson Ávila em Porto Alegre, Córdoba e Buenos Aires? A extrema direita hoje persegue os cultos de origem indígena e africanos. Mas, antes, se valia deles para estar no poder.

Lopez Rega foi consagrado pai-de-santo no Templo do Sol Urubatā e Oxossi, do babarolixá Wilson Ávila, em Porto Alegre. Wilson, que trabalhou intensamente em Buenos Aires e Córdoba, recebeu um diploma de honra ao mérito da Casa de Comercio Brasil-Argentina, assinado por Claudio. Graças aos conhecimentos adquiridos no Brasil, Lopez Rega ficou mais forte junto ao peronismo que voltava ao poder, com a assunção de Isabelita, após a morte do marido, em 1974.

A influência de Lopez Rega acabou levando para Buenos Aires outro curandeiro, o Garrincha, de Uruguaiana, que lá se associou a milicianos de El Brujo. Quando a primeira-dama assumiu a presidência, depois da morte de Perón, Lopez Rega, por trás do trono, comandava nos porões o terrorismo de estado.

O Filme de Coppola abrange um lado desta história, na Itália e EUA. Mas o outro, o sul-americano, ainda está para ser contado integralmente. As máfias, as milícias, os sicários, a extrema-direita armada, os negócios imobiliários e a lavagem de dinheiro ainda estão por aí.