MEMÓRIA DO TREZE HORAS: ENTREVISTA COM O ALMIRANTE EDDY SAMPAIO ESPELLET

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Almirante de Esquadra, EDDY SAMPAIO ESPELLET, recebeu o repórter Paulo Gastal Neto, representando o Treze Horas e o Programa de Sábado, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 16 de março de 2009.

O ‘MEMÓRIA DO TREZE HORAS’ deste domingo relembra uma das entrevistas históricas do programa e que, também, foi veiculada no Programa de Sábado e publicada no jornal Diário da Manhã. Em março de 2009 o almirante Edy Sampaio Espellet, recebeu o repórter Paulo Gastal Neto, em seu apartamento, em Copacabana no Rio de Janeiro, para uma longa conversa informal e histórica. Foi uma das poucas vezes que esse pelotense falou ao público, de maneira íntima. Eddi Sampaio Espellet nasceu em Pelotas, no dia 10 de agosto de 1919, filho de Pedro Espellet Filho e de Silvia Sampaio Espellet. Ingressou na Escola Naval como aspirante em abril de 1936. Ele faleceu no dia 23 de junho de 2010, um ano após a entrevista. Sem dúvida uma merecida ‘Memória do Treze’.

Confira:

ENTREVISTA
EDDY SAMPAIO ESPELLET – Almirante-de-Esquadra

Paulo Gastal Neto*

Chefe do Estado Maior da Armada no governo do presidente Ernesto Geisel, Adido militar naval nas embaixadas do Brasil no Canadá e nos Estados Unidos, Presidente da Fundação dos Estudos do Mar, responsável direto pela instalação do 5º. Distrito Naval em Rio Grande, testemunha viva da história pelotense, o almirante Eddy Sampaio Espellet me recebeu no seu apartamento em Copacabana na tarde do dia 16 de março de 2009 para uma conversa informal, mas recheada de emoção e pautada por revelações inéditas.

A JUVENTUDE E A OPÇÃO PELA MARINHA

Paulo Gastal Neto – Como foi que, aos 14 anos, um menino, em Pelotas, em 1933, você fez a opção pela Marinha?

Almirante Espellet – A coisa é seguinte…esse negócio eu até fico meio cismado, porque quando eu tinha uns cinco anos a minha mãe me perguntava sempre no meu aniversário: – O que você quer Eddy ? Qual é a roupa que você quer vestir no seu aniversário? Eu sempre dizia: – Mamãe, eu quero o uniforme de comandante da Marinha…!  Olha aí! Eu tenho fotografia. Calça azul, jaqueta azul e um bonezinho branco e eu devia ter uns cinco anos. Bom, passado algum tempo, quando chegou em 1932, na Revolução de São Paulo, o governo federal do presidente Vargas achava que o Flores da Cunha tivesse ligações com a revolução de lá, e então determinou que três navios contratorpedeiros de guerra viessem para Rio Grande com a missão inspecionar todos os navios mercantis que viessem com destino a Porto Alegre, porque achavam que o Flores estava comprando munição e armamento na Tchecoslováquia. E eles então mandavam os navios parar e inspecionavam minuciosamente e, após a revista, os navios seguiam viagem. Nunca foi descoberto material de guerra nenhum. E quando terminou a missão, que durou durante o período da revolução de São Paulo, nove de julho a outubro de 1932 o comandante da missão, como havia sido homenageado em Pelotas, determinou uma visita à Pelotas de despedida. Então ele levou os três navios à Pelotas num fim de semana para colocar à visitação pública. E eu li no jornal e disse ao papai: – Olha aí papai…navios de guerra no porto, vamos visitá-los domingo? E eu fiquei encantado com os navios. Aquilo ficou na minha cabeça. Quando eu saí do porto eu disse ao papai: – Papai…eu quero ir para Marinha! E ele respondeu: – Menino…você tá maluco. Que vai para a Marinha coisa nenhuma. Você é filho único, como é que você vai para o Rio de Janeiro, você tá louco? De jeito nenhum!

Mas eu escrevi uma carta para o meu tio Geraldo que morava aqui no Rio de Janeiro pedindo todas as informações sobre como ingressar na Marinha. Esse meu tio era vizinho, no mesmo hotel, de um oficial da Marinha que tinha um curso preparatório para quem quisesse ingressar na Escola Naval. Ele me mandou todas as instruções pelo correio, eu recebi o material, li as instruções e percebi que estava preparado para o exame. Aí eu falei novamente para o meu pai dizendo que queria ir e estava em condições. Aí a minha tia aqui no Rio, tia Zilda casada com o tio Loca, Lourival Maciel, quando soube disso imediatamente escreveu uma carta para o papai dizendo: – Manda o Eddy pra cá que ele fica aqui em casa e faz todos os exames e fica aqui em casa pô…sem problema nenhum. E aí com esse respaldo do tio Loca o papai cedeu e eu fui. E graças aos cursos que eu fiz nos Gonzaga e no Pelotense, graças aos conhecimentos que eu adquiri nesses dois ginásios, quando cheguei ao Rio não me matriculei em curso nenhum. Fiz uma recapitulação e passei em 20º lugar entre 750 postulantes para 75 vagas. E foi assim que fui parar na Marinha!

Paulo Gastal Neto – Você é um pelotense do início do século passado?

Almirante Espellet – Eu nasci em 1919. Meu avô materno – Alfredo Sampaio – (falecido em 1911) era filho de portugueses e nascido em Rio Grande criou o Bazar Bule Monstro. Após uma desavença na família e com a morte do pai do meu avô ele acabou ficando como tutor da viúva transferindo-se para Pelotas tentou vender o bazar para o Dr. Urbano Garcia, que era médico, mas não tinha condições de atender o comércio e então resolveram vender o bazar para o Afonso Peres Bernardes que passou a ser o dono do Bule Monstro que aplicou o dinheiro em ações do Banco Pelotense que foi a gaita em 1931, uma coisa terrível para Pelotas.

O almirante Eddy Sampaio Espellet foi Chefe do Estado Maior da Armada no governo do presidente Ernesto Geisel, Adido militar naval nas embaixadas do Brasil no Canadá e nos Estados Unidos, Presidente da Fundação dos Estudos do Mar, responsável direto pela instalação do 5º. Distrito Naval em Rio Grande, testemunha viva da história pelotense.

A MARINHA E A GUERRA

Paulo Gastal Neto – Qual foi o principal período que você esteve na Marinha?

Almirante Espellet – Eu fui à guerra! Eu sou veterano de guerra! Eu faço parte de um grupo muito pequeno que recebeu a medalha chamada “Serviços Relevantes”! Essa medalha só foi concedida àqueles que ficaram mais de trezentos dias embarcados no mar durante a guerra. Eu fiquei trezentos e cinqüenta dias! Eu participei da guerra em dois navios. Então eu embarquei certo que o meu navio era um navio hidrográfico e era um navio de guerra mesmo. Embarquei em outubro de 1942, a guerra foi declarada no dia 31 de agosto de 1942. Em janeiro ele ficou pronto com canhões, metralhadoras, sonares e no dia 25 de janeiro de 1943 saímos para a guerra incorporados a força naval do nordeste, onde fiquei até dezembro de 1943. Em dezembro deste ano eu fui classificado no contratorpedeiro Marcílio Dias, que foi um navio construído aqui no Brasil no arsenal de Marinha através de um plano americano que nos foi cedido. Eu fiz a guerra a partir de janeiro de 1943 até o fim da guerra.

LEALDADE À PELOTAS IMPEDINDO O FIM DA CAPITÂNIA

Paulo Gastal Neto – Você negou-se a assinar o fim da Capitânia dos Portos em Pelotas ?

Almirante Espellet – Eu era diretor geral de material da Marinha. E o comandante geral de operações navais morreu de uma hora para a outra. Ele ocupava dois cargos consultivos e deliberativos e com isso eu assumi o lugar dele por ser um almirante de esquadra. Então no meu primeiro despacho eu me deparei com um estudo que reorganizava as capitânias dos portos em todo o Brasil e nesse estudo constava a extinção da capitânia de Pelotas. Então eu decidi que não iria assinar a aprovação daquele estudo. Eu disse para o almirante Braga – autor do trabalho – : – Esse papel eu não assino de jeito nenhum. Se eu assinar eu vou ficar execrado na minha terra. Não entro nunca mais lá. Então você faça um novo estudo com a manutenção da capitânia dos portos de Pelotas. E ele então fez e assim foi mantida a capitânia de Pelotas.

O TRANSLADO DOS RESTOS DO ALMIRANTE TAMANDARÉ DO RIO DE JANEIRO PARA RIO GRANDE

Paulo Gastal Neto – Você foi presidente da Comissão que ficou encarregada de fazer o translado dos restos mortais do Almirante Tamandaré do Rio de Janeiro para Rio Grande ?

Almirante Espellet – A comissão do Tamandaré foi interessante, porque eu já estava na reserva, em 1995, e o ministro Almirante Serpa me telefonou e me disse: – Olha Almirante, eu estou ligando pro senhor porque o senhor é o almirante gaúcho mais antigo que a Marinha tem. Então eu quero fazer a transferência dos restos mortais do Tamandaré aqui do Rio para a terra natal dele que é Rio Grande. Perguntei por quê? E o ministro ponderou que os restos mortais do Tamandaré estavam aqui na Praça de Botafogo e a estátua que tinha um lago estava tomada pelos mendigos. Era um desrespeito tremendo ao Almirante Tamandaré. Então o ministro ficou muito incomodado com essa situação e resolveu fazer a transferência para o melhor local que seria a terra natal dele que é Rio Grande.

Deu-me carta branca para organizar os atos. Eu escolhi os membros da Comissão. Aí fui à Rio Grande escolher o local. Quando cheguei lá achei um bom local um largo que fica em frente a catedral. Poderia ser ali. A praça principal eu logo descartei, pois lá está o Bento Gonçalves. Pensei: – O Tamandaré não vai ficar subordinado à Bento Gonçalves…não! Aqui não! Aí eu descobri uma coisa fantástica. Que a Marinha tem um terreno muito grande que fica à beira mar onde está a capitânia dos portos e tem também, do outro lado o comando do 5º Distrito Naval. Entre os dois prédios tem um terreno bem grande com quatro figueiras seculares maravilhosas em semicírculo. – Então decidi, vou botar o Tamandaré aqui, de frente pro mar, não é uma beleza? O Almirante de frente pro mar! Não é uma beleza? Mas tem uma coisa curiosa. Quando o Almirante Tamandaré morreu, em 1897, ele como Monarquista, estava indignado com a República. Ele era muito fiel ao Imperador, inclusive tendo acompanhado o Imperador quando ele foi expulso para a Europa.

O episódio deixou Tamandaré indignado, pediu para ir para a reserva e ele fez um testamento que demonstrava toda a raiva que Tamandaré estava sentindo. Dizia o seguinte: Não quero honra nenhuma. Quero ser conduzido por seis marinheiros pretos, libertados pela Princesa Isabel. Não quero uniforme e quero ser enterrado em “cova rasa”! Com o seguinte epitáfio: Aqui jaz o “velho marinheiro” Joaquim Marques Lisboa! Então eu percebi que não deveria fazer nada ostensivo. Mesmo sendo procurado pelo prefeito, que me disse, que o município queria participar, pois Tamandaré é o filho mais ilustre de Rio Grande. Então, uma arquiteta do município fez uma “vela” em concreto com uma chama em cima de uma boia naval. Uma coisa simples que está lá até hoje.

Navio Rio Branco, que era um navio hidrográfico e que foi transformado em corveta para fazer comboio, foi o primeiro navio que o marinheiro Eddy Sampaio serviu.

5º. DISTRITO NAVAL – RIO GRANDE

Paulo Gastal Neto – Como foi à definição pela instalação do 5º. Distrito Naval em Rio Grande?

Almirante Espellet – O 5º. Distrito Naval estava sediado em Florianópolis, mas a cidade por problemas de natureza como a assoreamento do porto e com a desatualização da atividade portuária por lá perdendo o valor, eu, como comandante de operações navais, determinei um estudo ao comandante do distrito que era meu subordinado que encontrasse uma alternativa à capital catarinense. Então determinei a ele, ao almirante Caminha que fizesse um estudo junto ao estado maior sobre qual seria essa alternativa para sediar o 5º. Distrito Naval. O estudo, muito bem feito, determinou três alternativas: Rio Grande, Porto Alegre ou São Francisco. Em minha opinião, mesmo São Francisco sendo um porto razoável, não tinha a importância do porto de Rio Grande. Porto Alegre já tinha um general quatro estrelas e iria gerar alguma incompatibilidade. Então Rio Grande foi a opção. Depois da revolução o porto de Rio Grande havia se transformado no super porto. Mas o ministro da época – ALMIRANTE-DE-ESQUADRA GERALDO AZEVEDO HENNING – não concordou com essa solução. Então suspendi o envio do expediente a ele para não ouvir uma negativa. Eu sabia que seria nomeado chefe do estado maior da armada pela minha antiguidade. E então quando me tornei chefe do estado maior da armada fiz passar pelas comissões o expediente determinando Rio Grande como sede do 5º. Distrito Naval e guardei o documento comigo. Quando eu fui para a reserva, no meu último despacho com o ministro, obedecendo uma tradição de marinha, eu tinha direito a um testamento. O ministro me perguntou: – E o seu testamento? Eu disse: – Meu testamento está aqui. Você não leu. – Então guarde isso e espere o novo ministro que eu não sei quem é, nem você sabe, e o novo ministro vai ler e vai dizer se vai concordar ou não. E o ministro Henning concordou comigo e disse que cumpriria o meu pedido. Passaram-se uns 15 dias, o novo ministro assumiu. Era o almirante Maximiano que em seguida que chegou ao cargo leu o despacho do comando e me telefonou para dizer que concordava e iria fazer a instalação do 5º. Distrito Naval em Rio Grande. Eu respondi: – Então ministro você vai me convidar para a inauguração do Distrito em Rio Grande e assim foi. Lá está o 5º. Distrito Naval em Rio Grande.

A RELAÇÃO COM PELOTAS

Paulo Gastal Neto – E Pelotas ? Os contatos e ligações ?

Almirante Espellet – Tenho uma passagem que me marcou muito. O Dr. Irajá (Irajá Andara Rodrigues) que eu não conhecia, era o prefeito de Pelotas. Então ele me telefonou dizendo que a cidade queria me prestar uma homenagem. Era no dia do aniversário da cidade. Ano de 1979. Seriam três homenageados com o troféu Integração, criado por ele. Eu, o Joaquim Oliveira e o Antônio Caringi. E fiquei lisonjeado. Eu disse que era reformado, mas o Dr. Irajá insistiu: – Você é um pelotense ilustre e a cidade quer homenageá-lo. Então mandei uma lista de convidados e chegou o dia. Era um dia muito frio. Dia 7 de julho de 1979. Um frio terrível. E aí foi lido o currículo de cada um de nós e eu agradeci em nome dos homenageados. Quem recebeu o troféu em nome de Joaquim Oliveira foi a filha dele. Mas eu falei em nos dos três. Olha, foi a única vez que recebi uma homenagem da minha cidade. É preciso que se diga isso. O Dr. Irajá Andara Rodrigues foi a única pessoa que se lembrou de mim. Agora você está fazendo essa entrevista e está me proporcionando esse contato e dizer isso tudo.

A INVASÃO DE ZECA NETO – TESTEMUNHA DA HISTÓRIA

Paulo Gastal Neto – Almirante Espellet, você foi testemunha ocular da história de Pelotas. Você testemunhou e entrada do General Zeca em Pelotas em 1923?

Almirante Espellet – Isso é uma coisa fantástica! Eu tinha quatro anos de idade. Mas até hoje eu tenho guardado na minha retina, na minha memória, a imagem do Zeca Neto passando na frente da minha casa à frente de uma tropa, uma cavalhada com uns cem cavalos, sei lá quantos eram. Nesse dia, 29 de outubro de 1923, meu pai, que era “maragato” desses loucos, soube que o Zeca Neto iria chegar à Pelotas e ia passar na nossa rua. Nós morávamos na Rua Andrade Neves entre Voluntários da Pátria e Doutor Cassiano. E aí, nesse dia, de manhã bem cedo quando o Zeca Neto apontou lá na Avenida Bento Gonçalves, o meu pai me apanhou na cama, me enrolou num cobertor e fomos para a sacada da casa e dizia: – Meu filho olha aí o general…! O que eu me lembro era a imagem de um velho, de barba branca, com um “ponche” montado num cavalo zaino e aquela tropa atrás dele. E eles entraram, tomaram a prefeitura, mataram o chefe de polícia, o Vernetti, brigaram com o Aldrovando na Brigada, ali na lomba. E o exército fixou neutro. Curioso isso. O exército não se meteu. Ficou só a tropa do Zeca Neto contra a Brigada. Mas o efetivo da Brigada Militar era muito mixuruca. Empastelaram o Diário Popular. E chegou de noite e ele foi embora! Aí quando o Borges soube disso em Porto Alegre ficou louco. Mas a única comunicação com Pelotas e Porto Alegre naquela época era a lagoa. Então o Borges mandou embarcar a tropa em Porto Alegre e mandou para Pelotas, mas quando chegou não havia mais nada. O Zeca Neto já tinha ido embora. Mas esse fato eu nunca me esqueci disso. Tenho a impressão que sou a única pessoa viva que assistiu a entrada de Zeca Neto em Pelotas. Os com mais de 90 anos, muitos já morreram ou não viram. E os que tinham menos de quatro anos na época não lembram ou também não viram, de maneira que talvez eu seja a única pessoa viva que assistiu a invasão do Zeca Neto.

AUDIÊNCIA COM GEISEL – FIDELIDADE AO PAÍS

Paulo Gastal Neto – Como foi a sua audiência com o presidente Geisel pouco antes da sua ida para a reserva? O presidente estava preocupado com os “famosos” assédios que os militares recebiam ?

Almirante Espellet – É verdade. Eu era Chefe do Estado Maior da Armada e como chefe do Estado Maior eu era subordinado ao Chefe dos Estado Maior das Forças Armadas. Acontece que ele foi representando o Brasil à posse do presidente do México representar o presidente e nesse meio tempo havia uma audiência com o presidente Geisel. Como o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas não estava eu fui representando na condição de mais antigo chefe entre as três forças – Exército, Marinha e Aeronáutica. Pedi a pauta com antecedência e coincidentemente era uma pauta de marinha que eu dominava bem. Chegou o dia da audiência e o chefe de gabinete veio me buscar para me levar ao Palácio do Planalto. Chegou o momento da audiência e eu entrei no gabinete do presidente, o presidente Geisel me recebeu e eu disse a ele: – Presidente, está aqui o assunto, é um assunto de marinha que eu conheço bem e é só o senhor despachar. O presidente Geisel olhou, leu com atenção e disse: – Está muito bem! Aí eu respondi: – Bom então está bem presidente, é só isso, posso então me retirar? E o presidente Geisel disse: – Não, não fique aí! Eu estou muito preocupado com o senhor! Eu respondi: – Pô presidente, preocupado comigo, que isso? Ele emendou: – Preocupado sim, pelo seguinte. Daqui a dez dias você vai cair na compulsória. Você vai para a reserva e é um almirante muito novo ainda, moço e vai começar a receber o assédio dessas multinacionais para ser presidente do conselho de administração, para ser diretor de multinacional porque eles sabem que o senhor é um homem de prestígio na Marinha e é amigo do ministro vai ser uma beleza para eles. Vai ser um “abre-te sésamo! Então eu respondi: – Olha presidente você está enganado. Eu já fui assediado e não aceitei. Uma empresa me convidou e eu não aceitei. Aí o presidente ficou mais tranqüilo e me contou o exemplo de dois generais revolucionários, de conceito, que estavam presidindo empresas multinacionais e que queriam audiências com o presidente e ele mandava dizer: Se for assunto das empresas eu não recebo! Passou-se o tempo, eu passei o cargo, deixei Brasília, voltei para o Rio e um belo dia recebi um convite para ir conhecer as instalações de um empresa naval na Holanda. Ir à Europa à convite da empresa. Eu respondi que “muito obrigado”! Quando eu quiser ir a Europa com a minha mulher eu vou por minha conta. Eu sei bem o que eles querem. Querem que eu vá lá. Aí tiram uma fotografia. Publicam aqui no O GLOBO e eu fico devendo favores para eles. Por isso muito obrigado.

Paulo Gastal Neto – Almirante Espellet. Muito obrigado pela entrevista.

Almirante Espellet – Muito obrigado a você! Eu que agradeço a oportunidade que eu tenho de mostrar aos meus conterrâneos as coisas que eu fiz na minha vida na Marinha. O pessoal lá em Pelotas vai tomar um susto: – Pô esse cara é pelotense…! Eles nem sabem que eu existo. Muito obrigado!

*Paulo Gastal Neto – Radialista da Rádio Universidade Católica de Pelotas

Colaboradores:
Produção: Antônio Flávio Ribas Maranhão
Apoio Institucional: Abastecedora Paulo Moreira

Esta entrevista foi veiculada sexta-feira, 21 de março de 2009 no Treze Horas e no sábado – dia 22 de março – às 09h30min da manhã no Programa de Sábado na Rádio da Universidade Católica de Pelotas.