ARTIGO – VOLTAIRE, O BAVÁRIA E UM RIM PELOTENSE

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Voltaire, o Bavária e um rim pelotense

Henrique Pires*

Eu presidia o Instituto João Simões Lopes Neto quando conheci o Voltaire Schilling, na ocasião diretor do Memorial do RS em Porto Alegre. Fizemos alguns trabalhos em conjunto, um deles possibilitou que lembrássemos em Pelotas o centenário do falecimento da figura maiúscula que foi Joaquim Nabuco. Além das palestras lá e cá, tivemos lançamentos de livros e revelações surpreendentes, como a que nos fez o José Antônio Mazza Leite ,o qual mostrou em fotos um Carnaval Pelotense na Rua XV de novembro, no fim do século XIX, onde um carro alegórico puxado a bois (na época podia) trazia grande alegoria em homenagem a Nabuco, ou seja, Pelotas teve a oportunidade – e não deixou passar – de enaltecer esse brasileiro exemplar até em festejos populares, quando ainda vivia o grande abolicionista.

Nossos encontros em Pelotas sempre incluíam almoço ou jantar no Restaurante Bavária, que Voltaire adorava. Num encontro desses ele nos confidenciou: amava Pelotas por tudo que ela representava na história da cultura no RS, por tudo que ele encontrava aqui e que era incomum encontrar fora de capitais e além disso, por uma condição muito pessoal vivenciada anos antes. Tendo um único rim, em péssimas condições, fazendo hemodiálise em Porto Alegre, entrou na fila de espera de um transplante renal.

Tempos depois, recebe o aviso que havia uma doação que poderia ser compatível com sua necessidade. Recebeu o rim, que funcionando perfeitamente, lhe devolveu as condições de saúde que precisava para lecionar, escrever, voltar a viver com qualidade. Naturalmente ele quis saber quem havia sido o doador e soube então que era um jovem doador pelotense, falecido num acidente de trânsito. Voltaire disse que também nisso Pelotas lhe dera razões para se orgulhar e enaltecer a cidade: havia aqui um movimento pela doação de órgãos e tecidos, que salvara sua vida e permitia que ele pudesse seguir trabalhando e produzindo.

No começo deste ano, Voltaire faleceu aos 77 anos, deixando família, um legado literário admirável, dentre este cinco livros prontos para serem publicados ,além de uma legião de amigos e admiradores a lembrar dele com saudade.

Henrique Pires

*Jornalista