ARTIGO – CLUBE COMERCIAL: O PATRIMÔNIO QUE TODOS QUEREM SALVAR, MAS NINGUÉM QUER FINANCIAR

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Clube Comercial: o patrimônio que todos querem salvar, mas ninguém quer financiar

Pedro Eduardo Almeida da Silva*

Em 2024, escrevi sobre o Clube Comercial de Pelotas como a memória da cidade em ruínas https://pelotas13horas.com.br/artigo-clube-comercial-de-pelotas-a-a-memoria-da-cidade-em-ruinas/. Dois anos depois, o tema retorna ao debate público não por uma solução concreta, mas por uma nova camada de complexidade: a Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público visando à preservação do prédio histórico.

O diagnóstico é correto e difícil de contestar. O casarão da Rua Félix da Cunha constitui um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos e culturais de Pelotas. Seu estado de deterioração é preocupante e a necessidade de preservação é evidente. O problema, contudo, não está no diagnóstico, mas na viabilidade das soluções propostas.

A decadência do Clube Comercial não é resultado de omissão recente ou de uma única gestão. Trata-se de um processo de décadas marcado pelo esvaziamento do quadro social, pela inviabilidade econômica da entidade e pela incapacidade de mobilizar recursos suficientes para restaurar um imóvel de grande porte. Diversas tentativas foram realizadas ao longo dos anos, mas todas fracassaram diante da mesma realidade: ninguém se dispôs a aportar os recursos necessários para preservar o patrimônio. Enquanto o poder público tem claras limitações orçamentárias, a iniciativa privada demonstra um desinteresse histórico pelo problema.

Essa realidade reflete características históricas da própria região. A riqueza produzida na metade sul do Rio Grande do Sul sempre esteve fortemente associada à atividade agropecuária e à propriedade da terra. Embora responsável por importantes ciclos de prosperidade, essa estrutura econômica produziu poucos mecanismos capazes de converter riqueza regional em investimentos permanentes na preservação da memória urbana e cultural. Os grupos econômicos que outrora encontravam no Clube Comercial um espaço de representação social e de afirmação de status desapareceram ou perderam sua conexão com a instituição. Seus descendentes e os novos agentes econômicos que passaram a ocupar posições de destaque na região não desenvolveram os mesmos vínculos simbólicos com o prédio. O resultado é um patrimônio reconhecido por sua importância histórica, mas sem uma base financeira capaz de assegurar sua preservação.

É nesse contexto que surge uma questão inevitável: quem financiará a recuperação do Clube Comercial?

A sociedade tem todo o direito de exigir a preservação de seu patrimônio histórico. Entretanto, parece haver uma contradição difícil de ignorar quando se discute simultaneamente a dissolução de uma entidade insolvente e a atribuição a ela da responsabilidade de liderar um processo de restauração de grande magnitude. Como exigir de uma instituição economicamente inviável aquilo que sucessivos governos, empresários e lideranças locais não conseguiram viabilizar ao longo de décadas?

O alerta do Ministério Público é legítimo e cumpre um papel importante ao chamar atenção para a gravidade da situação. Entretanto, a experiência acumulada ao longo de décadas demonstra que a simples atribuição de responsabilidades não produz recursos nem restaura edifícios. A preservação do Clube Comercial exigirá uma pactuação efetiva entre poder público, iniciativa privada, instituições culturais e sociedade civil, acompanhada de instrumentos concretos de financiamento compatíveis com a dimensão do desafio.

*Professor da Universidade Federal do Rio Grande e Universidade Federal de Pelotas