A SEITA DOS LEITORES DE RELATOS BREVES

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A SEITA DOS LEITORES DE RELATOS BREVES

Lourenço Cazarré*
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Publicado originalmente no site:

https://paginaum.pt/ 

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É simples, como disse. À noite, o praticante deita-se, acende o abajur, apanha um livro e lê um conto entre os indicados por nós.

Nosso critério básico: amplitude mundial.

Por exemplo, digamos que alguém, um de nossos crentes, leia religiosamente durante vinte anos (sete mil e trezentas noites). Obviamente, ao cabo desse tempo, ele terá adquirido uma sólida base de leitura, mais do que suficiente para que se transforme, caso queira enveredar por essa penosa senda, em escritor.

É impossível que alguém, num prazo tão dilatado como o do exemplo acima, não consiga descobrir o secreto mecanismo que move as histórias enxutas.

Dizem os jocosos taoístas – que não devemos confundir com os enfadonhos budistas – que, com a experiência prolongada, o artesão se transforma em ferramenta.

Não somos preconceituosos. Aceitaremos até mesmo contistas norte-americanos. Nesse caso, daremos preferência a Herman Melville, claro. Dele recomendaremos especialmente a leitura de “Bartleby, o escriturário”. Não só porque a fruição dessa tragicômica novela curta (ou conto demorado) esteja hoje na moda, mas, sim, porque se trata de um causo especialmente comovente para brasileiros e portugueses porque tem como personagem um escrivão, figura destacada na ficção destas nossas nações advocatícias e cartorárias.

Ernesto Hemingway entrará também, com aquele conto estendido (ou novela curta) sobre o peixe que fisga o velho cubano do pescoço gretado pelo sol e que o leva a passear pelo golfo incendiado de luz dourada.

Que uma coisa fique clara! Hemingway foi aceito no nosso rol não pelo seu contestado talento literário, mas porque nasceu em 1899, o mesmo ano que nos presenteou com Nabokov e Borges.

Outro convocado para a nossa lista será o senhor Bret Harte, autor de “Os exilados de Poker Flat”, aquela comovente história sobre a lufada de azar que matou mister John Oakhurst, jogador de profissão, e que levou junto, de cambulhada, seus companheiros de infortúnio: Mamãe Shipton, Duquesa, Tio Billy, Inocente e Piney Woods.

Para quem não sabe, esclareço que o filosófico mister Oakhurst foi o sujeito que cravou em um pinheiro, com uma faca de mato, uma carta de baralho (dois de paus), na qual estava escrita, com letras firmes, a seguinte sentença:

Ao pé desta árvore jaz o corpo de John Oakhurst que encontrou uma aragem de má sorte em 23 de novembro de 1850 e sucumbiu aos seus golpes no dia 7 de dezembro de 1850.

Aceitaremos mais uns poucos americanos. Entre eles, a querida senhorita Carson McCullers.

Na verdade, admito, criamos severas restrições para a entrada em nosso cânone de ficcionistas de uma nação que ama esportes violentos, entre os quais se sobressai a caça às mulheres alheias. Mas só a invenção do beisebol já bastaria para expulsá-los do convívio humano.

A excelência literária é o nosso único critério.

 

Mas advirto: não seremos tão democráticos a ponto de aceitar muitos franceses. Ficaremos restritos a Mérimée e Maupassant. Quatro contos para cada um. E, vá lá, três para Flaubert! Não, não insistam, não aceitaremos nenhum outro comedor de lesmas.

Sem dúvida, escolheremos as melhores narrativas curtas. Estilo, conteúdo e originalidade serão critérios inarredáveis.

O melhor conto do mundo, como já afirmamos, trata-se de “A sereia”, de autoria do Senhor Príncipe Lampedusa, um homem avesso a badalações, alto e bem-vestido, um tanto frouxo de carnes, de olhar impenetrável.

Não quero descer a detalhes sobre a produção local, mas um dos contos do ministro Machado de Assis será “Noite de almirante”, uma historieta na qual nos defrontamos, novamente, com mais uma mulher vulgar, promíscua e lúbrica, exatamente como Capitu, a protagonista do romance Dom Casmurro.

Outra presença luminosa do senhor Joaquim de Assis Machado será o conto “Uns braços”, que retrata um caso clássico de pedofilia, no qual uma insidiosa e viciosa mulher madura avança sobre o imaginário de um jovem abobado de quinze anos.

Ninguém soube retratar tão bem como o Bruxo do Cosme Velho a desfaçatez e a iniquidade femininas.

A relação de contos que indicamos a nossos seguidores já se encontra, sob cláusula de sigilo, com o Concílio para a Propagação da Fé entre os Gentios Devoradores de Letras Impressas.

Nós, luminares desta nascente religião, não prometeremos recompensas terrestres ou mesmo celestiais a nossos fiéis.

Mas uma coisa é certa: o cidadão que está preso na malha de um conto perfeito certamente não esfaqueará, durante a leitura, sua esposa adúltera. Ele postergará essa sua inclinação criminosa. Por fim, vencida a leitura ritual, mais calmo e tranquilo, ele se contentará em tão somente surrar a vadia.

Por meia hora, uma hora, o praticante ficará embevecido com a leitura de uma história curta.

Se, porém, um dos nossos fiéis ceder à tentação de agarrar-se a um livro de autoajuda, mesmo que metamorfoseado em obra de ficção, nós lhe imporemos, a título de penitência, a travessia da Galícia espanhola na pernada lendo livros de bruxaria rabiscados por escrevedores do Hemisfério Sul.

A leitura de “Carmen” se estenderá por duas horas.

O passeio com “Emma Zunz” durará dez minutos.

Em uma hora e meia lê-se “O alienista”.

Função, natureza e fim último da literatura: entreter homens e mulheres, estas últimas em menor grau.

Um ensaio a ser escrito por um de nós, o Mestre ou um dos Iniciados, esclarecerá tudo que foi dito acima para a turbamulta de analfabetos e ignorantes crassos que povoa esta Nação Futebolística.

Reconheçam que nunca nenhum entre vocês imaginou que poderia ouvir em vida uma palavra tão insólita e inquietante quanto essa: turbamulta.

Os ignorantes são rancorosos. Quando nos veem com um livro nas mãos, logo pensam em arranjar-nos um trabalho braçal.

Pode existir trabalho decente – que não o de escrever ou ler – para aqueles que, como nós, só obtêm prazer e gozo com continhos ou de noveletas?

Não!

Mulheres, quando aceitas na seita, terão carga menor de leitura. Meio conto por dia. Para que não sofram lesões mais graves no aparelho cerebral, quando dotadas de um.

A cabeça de uma mulher só é equilibrada pelo uso dos brincos.

Amorosas? Vossa Excelência afirmou que mulheres são mais amorosas. De onde tirou essa conclusão? Sim, sim, aceito vosso argumento. Sim, é verdade que alguém precisa trocar as fraldas embarradas dos bebês. Sim, também é verdade que essa tarefa imprescindível só pode ser desempenhada por alguém que alcançou a suprema benção/maldição do amor genuíno. Não falta razão a Vossa Excelência: as mulheres são mais amorosas. Reconheço.

Mulheres preferem filhos às obras impressas.

Mulheres só se apaixonam por homens que as tratam como se fossem cortesãs.

Para que não sejamos acusados por falsários de incentivar e exaltar a misoginia, aceitaremos na nossa seita ledora pessoas pertencentes ao segundo sexo, mesmo que sabidamente tenham dificuldade de concentração.

Adúlteras ou não serão acolhidas em nosso seio.

Em nosso mamilo, quero dizer.

“Jesus mamilo” é um conto muito bom de Nick Hornby, que nasceu na Inglaterra. Ah, britânicos não são americanos! Autores britânicos terão preferência na cota que destinaremos aos cínicos e debochados.

Mulheres odeiam a solidão.

Enquanto lê o ser humano tem apenas a si mesmo.

Estar absolutamente só é inaceitável para uma mulher.

À solidão elas preferem a companhia de qualquer um. Mesmo que esse qualquer um seja uma pessoa constrangedoramente inculta.

Mulheres preferem amantes grosseiros, mesmo que sejam surfistas ou que se expressem em inglês de lutador de jiu-jitsu.

Quem lê basta-se a si mesmo.

A mulher, porém, enquanto avança na leitura de uma obra impressa, lança, de segundo em segundo, olhares angustiados em torno de si à procura de concavidades auriculares nas quais possa descarregar o furacão de palavras fúteis que lhe ocupa a mente o tempo todo.

Mas nós as receberemos de braços abertos porque tudo isso é sabido há milênios. Vide Bíblia.

O que direi a seguir já foi dito aqui, mas é imperioso repisar certos conceitos éticos e estéticos para que fiquem gravados na nossa mente.

Leitores não têm fome ou sede.

Leitores apaixonados não se movem até o banheiro ou à geladeira.

O corpo e a mente daquele que lê estão unidos, entrançados, visando um único objetivo, que é a perdição no encadeamento encantatório das palavras impressas.

A função última da literatura é o entretenimento.

Oratore, oraculu.

Confesso-vos que ficaria desvanecido caso um de vocês, meus queridos apóstolos, venha a elaborar no futuro (no passado seria ainda mais criativo) um breve ensaio, com ares de conto, sobre essa minha revelação a respeito da finalidade exclusiva – o entretenimento! – da obra literária.

Por fim, peço-vos humildemente que divulguem essa nova em todo o desmedido universo, vasta terra devastada, desde que, é claro, antes, vocês tenham comprado os devidos selos e estampilhas. Imprima-se em mimeógrafo. E dê-se o crédito ao autor.

*Lourenço Cazarré é escritor

Publicado originalmente no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas, 2018, Biblioteca Pública do Paraná