
Uma ironia bem-humorada e gentil
Lourenço Cazarré*
Tenho uma certeza quase absoluta de que foi em 1971 que tive, no Colégio Municipal Pelotense, dois professores aos quais eu me misturaria mais tarde, quando todos nós passamos a fazer parte de um mesmo mundinho de faz-de-conta que se chama Literatura.
Com Aldyr Garcia Schlee eu me reencontrei em 1984, em São Paulo, quando fomos premiados na I Bienal Nestlé de Literatura, ele em conto e eu em romance.
Agora, tantos anos passados, recebo aqui em Brasília um livro do outro mestre, José Luís Marasco Cavalheiro Leite, uma bela coletânea de 23 contos, intulada Um leitor comum.

Quando conheci Marasco, ele era um jovem professor do Colégio Pelotense que estava retornando à cidade depois de concluir um curso de pós-graduação em sociologia na Universidade canadense de Manitoba (belíssima palavra).
Homem das letras, inclusive das do Direito (e não falo de letras de câmbio), Marasco abre seu livro com um conto sobre um escritor, ao qual se segue um a respeito do leitor anunciado no título.
Antônio Holfeldt, um dos maiores de uma geração de brilhantes intelectuais gaúchos forjados nos anos 1960 e 1970, escreve no prólogo: “No primeiro texto, significativamente intitulado “O escritor”, não sem certa ironia (a ironia é marca de quase todos os texto, às vezes dirigida à própria pessoa do narrador, outras aos personagens envolvidos), o narrador busca apresentar a si mesmo e a explicar o seu trabalho, “penoso”, como reconhece em algum momento, mas que, apesar de tudo, dava-lhe prazer porque, “sinceramente gostava deles” (dos textos).
Socorrendo-me deste comentário de Holfeldt, eu diria que uma ironia bem-humorada e gentil é a marca da maioria dos contos. Especialmente nos fechos, alguns deles verdadeiramente hilários. Mas também há dramas. A infância e a adolescência se esparramam por muitas dessas composições. Aqui e ali também surgem sombras do Direito, profissão à qual o autor sempre se dedicou com reconhecida competência.
Abro meus comentários, de crítico apressado e leviano, pelos dois mais belos retratos humanos ali estampados. Um do impagável e inapagável (das nossas memórias) Marcola, torcedor-símbolo da equipa da baixada do Pepino. O outro é um tal Otacílio, engraxate, figura popular que não conheci, cujo traço marcante seria a sua imensa capacidade de decorar e depois recitar poemas. Inclusive um, de Lobo da Costa, que declamou, na Biblioteca, diante de uma placa de bronze com o nome do nosso maior poeta, aliás, personagem do conto nomeado “Embriaguez e poesia”.
Há causos sobre a decadência da elite rural (“De terras e de diversão” ou que falam da gente muito pobre do campo (“Falta de papéis). Ainda há causos de amor e sexo: “Perhaps love”. “Trajetos perigos e tentações” e “História romântica: O senhor tem alguém?”).
Mas, como anunciei acima há muitas histórias divertidas, cuja leitura a gente fecha ou com um sorriso ou com uma gaitada: “Como burro em atoleiro”, “Pós-graduação em Fawcett City” e “Desde os campos neutrais”.
O livro se encerra com uma crônica que é também uma homenagem ao terceiro cidadão que apareceu na abertura deste texto, Aldyr Garcia Schlee, mestre de incontáveis gerações de estudantes da UFPel, do Pelotense e do Santa Margarida, contista da mais alta estirpe, figura simpaticíssima, marcante pelas suas risadas e pela melena loira de poeta romântico.
Cantada em prosa e verso pelos seus filhos escrevedores, a elegante Princesa do Sul ou a sangrenta Degoladora de Bois, como queiram, ganha agora mais um apanhado das histórias às quais serviu de cenário.
*Jornalista e escritor.











