MORRE JOÃO SOUZA, PELOTENSE ILUSTRE, GURI DO FRAGATA, UM DOS MAIORES CRONISTAS POLÍTICOS GAÚCHOS

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Jornalista João Borges de Souza, um dos principais cronistas políticos gaúchos na segunda metade do século passado e que foi também um importante líder da categoria, tanto no Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre (Sindjors), que ele presidiu, quanto na Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e ainda na Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

MORRE JOÃO SOUZA, PELOTENSE ILUSTRE, GURI DO FRAGATA, UM DOS MAIORES CRONISTAS POLÍTICOS GAÚCHOS

Lourenço Cazarré*

Faleceu em 13 de junho, no Hospital Viamão, aos 88 anos, o jornalista João Borges de Souza, um dos principais cronistas políticos gaúchos na segunda metade do século passado e que foi também um importante líder da categoria, tanto no Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre (Sindjors), que ele presidiu, quanto na Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e ainda na Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

João Souza, como era mais conhecido, nasceu em Pelotas – mais precisamente na vila Caruccio, no Fragata – em 1933. Aos dezesseis anos, mudou-se para Porto Alegre, onde pretendia exercer o jornalismo. Inicialmente, empregou-se em uma gráfica.

– Quando jovem, o João foi um rato de sebo – conta o jornalista Paulo de Tarso Riccordi, que trabalhou com ele na Folha da Manhã, a mítica Folhinha, durante toda a primeira metade da década de 1970.  – Lia alucinadamente e vivia enfiado nas lojas de livros usados. Mais tarde, já jornalista, passou a frequentar as livrarias. Sem estudos universitários, que não eram exigidos quando começou, ele fez a sua formação intelectual pela leitura permanente.

Sobre o trabalho jornalístico de João Souza, escreveu Luiz Cláudio Cunha – autor de O sequestro dos uruguaios (LPM), livro que desvenda a tétrica e mortífera Operação Condor – que o teve como freelancer-colaborador quando chefiava a sucursal da Veja no Rio Grande do Sul: “João sempre vinha com material de primeira qualidade. Era inigualável pelo tom cordial, bem-humorado e sempre alegre”.

Um contador de histórias

Além da correção pessoal, do trato cordial e da excelência de seus textos, João Souza era também um grande contador da causos, diz seu amigo e pupilo Paulo de Tarso Riccordi.

Nos longos e áridos plantões de final de semana e nas intermináveis conversas que varavam noites no restaurante Itabira, onde costumava jantar com os coleguinhas, João desfiava com muita verve suas inúmeras e divertidas historinhas, algumas das quais Riccordi reproduziu depois nos livros de crônica que publicou.

Bordoadas e amizade improvável

Vamos registrar aqui apenas duas delas, lembradas por Riccordi, sobrenome italiano que serve para designar recordações, lembranças.

Certa vez, no começo dos confusos anos 1960, durante uma manifestação de protesto em Porto Alegre, João Souza recebeu umas bordoadas de um guarda da temível Polícia de Choque que – anonimamente, secretamente, claro – também era simpatizante da esquerda.

– O que houve, camarada? – perguntou o jornalista, passando a mão pelo braço dolorido, no qual recebera a pancada. – Não estás me reconhecendo?

– É claro que estou – respondeu o policial. – Mas eu preciso baixar a borracha pra valer porque os meus chefes já andam desconfiados de mim, estão achando que eu sou comuna ou brizolista.

Outra historinha de João que marcou Riccordi foi a da profunda e improvável amizade entre um vendedor de bíblias e um jornaleiro da Voz Operária, publicação do proscrito Partido Comunista. Os dois atuavam no centro da capital gaúcha, mais exatamente na frente do Mercado Público, o hoje Largo Glênio Peres. De início, inimigos figadais, o vendedor do jornal subversivo e o negociante do livro sagrado, percebendo que tinham em comum as mesmas dificuldades – padeciam de idênticos problemas econômicos e sociais -, tornaram-se grandes amigos e colaboradores a ponto de um vender o produto do outro quando este precisava se ausentar do local por algum tempo.

João Souza e seus netos Priscilla e Anderson em agosto de 2021. Foto: Acervo da Família.

Pelotas, Fragata e o cusquinho amigo

Filho do meio de Virgilino (portuário) e de Manoela, João Souza teve dois irmãos: Adão e Nina Rosa. Do seu casamento, em 1956, com Lisete Mascarenhas, nasceram quatro filhos. O primogênito foi Vladimir (que ninguém da família assegura ou nega que tenha sido uma homenagem a Vladimir Ilitch Lênin). Os outros três filhos são: Volnei (falecido em 2020), Carlos Aurélio e Jairo. João teve quatro netos: Anderson e Priscilla (de Vladimir) e Gabriel e Vanessa (de Jairo).

Segundo sua neta Priscilla, 41 anos, psicanalista em Porto Alegre, João Souza gostava muito de viajar a Pelotas. Lá visitava seus irmãos e sobrinhos e, havendo ocasião, dava uma chegadinha ao Laranjal.

Priscilla lembra da última história pelotense que o avô – que adorava cachorros – contou a ela, já em anos recentes. Quando guri, João teve um cusco chamado Negrinho que ia com ele até a escola e que ficava por lá, deitado na calçada, quando ele entrava no prédio. Não adiantava João ordenar ao cãozinho insubordinado que voltasse para casa. O pulguento não obedecia. Permanecia pela frente do colégio – tentando abocanhar moscas insidiosas, latindo para inimigos invisíveis e coçando-se com gosto de vez em quando – até o final das aulas, quando, saltitante de felicidade, acompanhava seu patrãozinho na volta ao lar.

Uma das brincadeiras preferidas do menino João era a pesca nos arroios do bairro em companhia dos amiguinhos. A gurizada se divertia mesmo quando, ao puxarem o caniço, em vez de peixe, aparecia um muçum se retorcendo todo. Muçum, para quem não sabe, é um peixe sem escamas ou nadadeiras que mais lembra um ofídio. Daí ser chamado também de enguia da água doce ou peixe-cobra.

João Souza e sua neta Priscilla, em 2018, no lançamento do livro, A função po-ética na psicanálise: sobre o estilo das psicoses, escrito por ela. Foto: Arquivo da família.

Sindicato dos Jornalistas

Segundo Priscilla, nas reuniões familiares João contava muitas histórias de sua larga vivência no jornalismo. Mas falava com especial entusiasmo da sua atuação nas entidades de classe. Participando do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre desde 1971, como ocupante de diversos cargos de direção, João o presidiu entre 1973 e 1977, anos duríssimos do ponto de vista político.

– João Souza foi sempre um presidente de sindicato exemplar – acrescenta Luiz Cláudio Cunha. – Sereno, firme, digno e consciente dos seus deveres, dos quais jamais se omitia. Esse João Souza foi um orgulho da raça. Da raça dos jornalistas.

– O meu avô era um homem negro – ressalta Priscilla. – É importante mencionar isso.

Nesse aspecto, na verdade, João foi um precursor. Ingressou no jornalismo em uma época em que as redações eram territórios quase que exclusivos de homens brancos. As mulheres só começaram a ganhar espaços nos jornais, rádios e tevês no começo dos anos 70. Já a chegada massiva de negros e pardos à comunicação é fenômeno bem mais recente.

Credencial vetada e placas anotadas

Luiz Cláudio Cunha lembra de dois episódios, ocorridos durante a gestão sindical de João Souza, que são simbólicos da coragem e da habilidade política daquele homem de fala mansa.

Em 1973, de repente, as autoridades militares negaram ao jovem Luiz Cláudio – da sucursal gaúcha de Veja – uma credencial para que cobrisse a visita do presidente Médici ao Estado.

O embargado pediu o apoio de João Souza, que solicitou às autoridades de coisa nenhuma – expressão cunhada pelo poeta Vitor Ramil – que justificassem o veto imposto àquele jornalista que, embora sabidamente encrenqueiro, não militava em partidos clandestinos, não era terrorista e nem mesmo jogava pedras em gatos sarnentos.

O simples pedido de João fez com que as tais autoridades recuassem. Explicar o veto daria a elas um tremendo desgaste e uma trabalheira danada.

A segunda atuação corajosa e decidida do presidente João Souza ocorreu em 1976, quando o mesmo Luiz Cláudio e o fotógrafo Kadão Chaves – que hoje se camufla sob uma vasta barba de rabino ucraniano para escrever sua lidíssima coluna de Zero Hora – foram a Caxias para descrever a comemoração da vitória para a prefeitura do oposicionista Mansueto Serafini.

O enrosco começou quando o intimorato repórter anotou – acintosamente – as placas de duas viaturas militares que se meteram, rugindo, aceleradas e ameaçadoras, no meio do povão que festejava. O incidente, claro, foi também registrado pelas objetivas de Kadão.

No ato, os dois jornalistas foram levados na carroceria descobertas de uma dessas viaturas para dar explicações a um coronel em um quartel. Acionado de imediato, temeroso pela vida dos colegas, João Souza denunciou o fato. E os dois, soltos na hora, puderam voltar para cobrir o final do evento.

Olhados à distância, esses fatos podem parecer irrelevantes. Mas quem conheceu a violência e ferocidade vigentes naqueles anos tristes sabe que era preciso muita valentia para um líder sindical se insurgir contra uma arbitrariedade qualquer da ditadura.

Longa, bem-sucedida e movimentada carreira

João Souza iniciou sua carreira profissional em 1956, aos 23 anos, quando foi contratado como repórter da Tribuna Gaúcha. Antes, porém, já atuava, embora amadoristicamente, como colaborador da Gazeta Sindical, de São Paulo, publicação ligada ao Partidão.

Trabalhou depois no jornal A Hora, do grupo Diários Associados, desde sua fundação até o encerramento das atividades, em 1964. Naquele mesmo ano, ingressou na Zero Hora, onde labutou por muito tempo. Foi um dos criadores da Agência de Notícias da RBS e chegou a atuar nos microfones da Rádio Gaúcha.

João Souza ingressou em novembro de 1969 no grupo concorrente, Caldas Júnior. Ali comandou a aguerrida editoria política da Folhinha por muitos anos. Esse jornal era, digamos, o filho rebelde do grande grupo jornalístico. Seus dois irmãos, Correio do Povo e Folha da Tarde, eram bem-comportados.

Em 1984 João Souza deixou a Caldas – ao cabo de uma greve por salários – quando a empresa já marchava em direção ao traumático e melancólico fechamento.

O jornalista pelotense trabalhou também no Grupo Sinos e foi um dos conselheiros de Administração da famosa Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, editora do Coojonal.

Segundo o sítio do Sindjors, João Souza foi editor executivo do livro O Menino Que Se Tornou Brizola, de Cleber Dioni Tendardini junto com Kenny Braga e Elmar Bones. Também foi coautor de perfis biográficos de João Goulart e de Leonel Brizola para a Assembléia Legislativa do RS, junto com Tentardini, Elmar e Kenny. Participou da construção da biografia – ainda não lançada – de Bento Gonçalves, também com Tentardini, Elmar e Euclides Torres.

Cadê a minha redatora?

Nos seus últimos anos, João Souza enfrentou uma moléstia tremenda. Coube-lhe aquela que alguns chamam de doença alemã.

Nesses dias derradeiros, às vezes ele se via participando de movimentadas reuniões da ARI ou voltava a ser um jovem editor em meio ao trepidante fechamento de uma redação de jornal.

Certo dia, ele estava em companhia da esposa e da neta Priscilla, que, de repente, precisou sair.

Dali a pouco, João volta-se para a esposa e pergunta:

– Cadê a minha redatora?

Lembrete

Alô, vereadores da Princesa do Sul! Quem se adianta para propor o nome do jornalista João Borges de Souza, nosso notável conterrâneo, para uma nova rua, um novo bairro, uma nova escola? Se possível, no Fragata.

*Jornalista e Escritor.

Nota do site www.pelotas13horas.com.br

O vereador Marcos Ferreira – presidente da Câmara Municipal de Pelotas – protocola na próxima segunda-feira, 20.06.2022, proposição para dar o nome de Jornalista João Borges de Souza a um logradouro na cidade de Pelotas. A ideia sugerida pelo pelotense, também jornalista, escritor Lourenço Cazarré, será acatada pelo Legislativo Pelotense em respeito a história de vida, a obra jornalística e o conteúdo cultural repassado à população do RS, pelo conterrâneo João Souza.