
MEU AMIGO ZÉ
José Luis Marasco Cavalheiro Leite*
Meu amigo Zé, o Zé Gordo, não o conheci gordo, mas, dele, conheci muitas coisas. Eram elas notáveis a todos que com ele conviviam. De primeiro, com nitidez, via-se que era um pelotense. Tinha muito estima por sua cidade. Não gostava que falassem mal dela. Mas, quando digo que ele era um pelotense, quero dizer bem mais: guardava em si um pouco das características de Pelotas. Era uma pessoa ilustrada, conhecia o que havia de melhor em literatura, apreciava a arte pictórica, tinha entusiasmo pela música erudita (ouvia, rotineiramente, óperas), expressava-se com desenvoltura, dava-se à crítica de costumes e escrevia crônicas que celebravam memórias de coisas vividas, especialmente relacionadas à belle époque da Princesa de todos nós.
Soube, nos primeiros encontros que tivemos, o quanto diferente pensávamos sobre política, economia e sociedade. Aliás, foi para reprovar meu pensamento político que ele tomou a iniciativa de visitar-me em meu escritório, em um certo dia. Amantes da polêmica, logo em seguida, porém, recebemo-nos um ao outro como amigos e passamos a travar discussões, que nunca chegavam a um fim, mas que se foram tornando amenas, tanto pelo inegável afeto que se foi formando, como por algumas convergências essenciais: falávamos de coração aberto.
O Zé Gordo, que não conheci gordo, e eu participávamos de um grupo de amigos que se reunia no Café Aquário (acho que, em boa parte, o epíteto de “Academia de Ciência Política” que se associou a este café, deveu-se à nossa presença – professores – diária, ocupando alguma mesa, de preferência vizinha às vitrines da Sete de Setembro).
Ele – o Zé Gordo, que não conheci gordo – tinha um modo peculiar de discutir os temas que iam sendo propostos. Arrogava-se o direito de fazer as últimas observações, de colocar um ponto final no assunto, o que raramente conhecia garantir que assim fosse. Entre um modo brincalhão e um certo vezo autoritário, chegava a ensaiar um “é assim e ponto”! Dizia-se, para provocar, ser nosso “professor”, mas, na verdade, acolhia (contrariado, é verdade) as opiniões contrárias.
Mas, agora, na sua irremediável falta entre nós, o que tenho mais no fundo, bem no fundo, a dizer do Zé, que não conheci gordo, é que ele foi um bom, um grande, um inesquecível AMIGO.
E – sabemos todos – “AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR”.
*Advogado, professor e ex-diretor da Faculdade de Direito da UFPel











