MEMÓRIA DO TREZE HORAS: LUIS FERNANDO LESSA FREITAS

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Na mesa de debates do Estúdio Banlavoura da esquerda para a direita: Clayton Rocha, Sérgio Corrêa, Luis Fernando Lessa Freitas, Dr. Amilcar Gigante (Reitor da Universidade Federal de Pelotas, Jornalista João Garcia e Paulo Gastal Neto. A foto é do início dos anos 90.

O ‘Memória do Treze Horas’ deste domingo presta uma homenagem a um dos mais marcantes integrantes da mesa de debates do programa: o jornalista Luis Fernando Lessa Freitas. Nos próximos dois textos de Clayton Rocha você ficará conhecendo o ‘velho’ Freitas do Treze. Uma marca inquestionável durante um grande período desta existência de mais de 4 décadas do programa!

TESTEMUNHO DE UMA VIDA

 Clayton Rocha

Recordar é a única maneira de deter o tempo!

Quando se tem uma só vontade, a de servir, alcança-se um patamar que é raro na vida de um homem. Luis Fernando Lessa Freitas era  escravo da memória de Pelotas,  tendo feito de sua vida um exemplo de solidariedade humana e de  devoção a esta freguesia de São Francisco de Paula, não por acaso identificada em seu brasão com a palavra “charitas”.

Precisei de um tempo para falar a respeito desse amigo do coração. Os recentes acontecimentos, entremeados de comemorações e de momentos de dor, enfraqueceram meu  ânimo  e entristeceram por demais todos os colaboradores de uma antiga mesa de debates. O amigo de uma vida que se vai, depois de ter brigado demoradamente com a doença, renegando-a, questionando-a  e desafiando-a num primeiro momento, preferiu, por último, morrer consciente  a viver enganado.

Eu o conheci, lá no outro século, através da Vera Guido  Satte Allam. O alicerce de pedra de nossa amizade resistiu ao tempo e aos desencontros e tornou-nos inseparáveis. Corremos mundo e lidamos com a notícia,  tendo sempre  Pelotas  como pano de fundo e razão de viver.

Fernando Lessa Freitas tinha 50 anos e eu 29 quando nos conhecemos. As lições recolhidas desse convívio, tantas, e tão ricas em conteúdo, expressavam gestos de lealdade, solidariedade na adversidade, profundo respeito ao deficiente físico, plena valorização do negro na sociedade, assistência ao desvalido, amor ao esporte, dedicação e paciência com a velhice,  ação permanente em favor da cultura e espírito inteiramente dedicado à comunidade. 

Fernando Freitas vivia da leitura, era arguto observador do comportamento humano, e  por isso repassava boas lições. Viajava,  da poltrona de sua biblioteca, pelos espaços sem fim que podem ser visitados pela imaginação humana.

Vertical, leal, generoso, era um amigo que não fingia afetos. Repelia com veemência a dissimulação e a farsa, e abominava a ingratidão, que permanentemente se repete no coração humano.

Em seus  74 anos de vida, sempre teve consciência de que   o homem tinha o dever de saber conviver com suas loucuras e teimosias.  Não queria ser grande, apenas verdadeiro, rodeado de amigos, e senhor de seus atos. Figura chave em 24 anos de debates, o “ arquivo móvel” do Treze, como o identificávamos, não tinha dobradiças na espinha. Implacável na crítica,  era duro com o adversário. Usava, como ninguém, sua conhecida metralhadora giratória, e tocava fogo nas grandes rodas de conversa e de debates, especialmente contra os inertes e os  pobres de espírito.

Visitava  Cemitérios, ouvia clássicos,  enchia com a fumaça perfumada do seu cachimbo os ambientes que frequentava, cuidava dos cegos,  era um pedaço vivo da Biblioteca Pública Pelotense, e vivia para os livros. Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, dizia, o mais espetacular era o livro. Para ele, os demais instrumentos eram extensões do seu corpo.  O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz;  o arado e a espada,  extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Isso é o livro. Isso é Jorge Luis Borges. Isso também é Fernando Lessa Freitas.

Lembro-me agora daquele cego que chorava,  durante a apresentação da Orquestra Sinfônica de Berlim, no Auditório do Sistema Berlim Livre de Rádio.  Foi em 1990, na reunificação da Alemanha.  Estávamos juntos, testemunhando felizes  aquele grande momento  da História. Eu ainda ouço sua voz, em tonalidade baixa, expressada de forma solene,  recordando o Padre Vieira, no instante em que estava inteiramente fixado naquele cego germânico:

 –  os olhos têm dois ofícios, ver e chorar. E mais parece que os criou Deus para chorar do que para ver,  pois os cegos não vêem e choram.

Sei  que o Freitas  gostaria que eu escrevesse sobre ele como estou escrevendo:  com veracidade, dureza e admiração.  Espero ter retratado o que ele realmente foi.  Um homem justo, que se sentia responsável pela memória de  sua cidade.  Nós, do Treze Horas, haveremos de guardar os seus encantos, enquanto tentaremos esquecer o desencanto de  sua partida.

Sua poltrona não será ocupada por ninguém. Em posição de honra, sobre a mesa, em frente ao seu lugar cativo, haverá apenas uma foto. Nela, alguns amigos de sempre: ele e o seu cachimbo inconfundível, todos nós em momento de comunhão e alegria.

Por fim, que ele tenha cuidado. Porque, ao contrário do que pensava, há sonhos em seu sono. Que ele se esforce em compreender essa nova luz que o envolve.  Espero que ele vença sua velha impaciência. Para tanto, rogo a Deus que não lhe  seja proibido fumar no céu.       

Luis Fernando Lessa Freitas quando Patrono da Feira do Livro de Pelotas.

O RÁDIO NA VIDA DE FREITAS

Um dos grandes colaboradores da Rádio Universidade foi o jornalista Fernando Lessa Freitas. Intelectual, historiador, jornalista diplomado, firme em suas posições, incisivo, corajoso e profundo conhecedor da história de Pelotas, ele deu vida e tornou polêmico o espaço tradicional do “Treze Horas.”  Em sua carreira, no debate diário da R/U, ele marcou  forte presença, valorizando a temática comunitária e tomando posição em qualquer assunto que merecesse exame por parte dos integrantes da mesa.

O  Jornalista Fernando Lessa Freitas acompanhou a Equipe do Pelotas:13 Horas em importantes coberturas internacionais, na França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Holanda. Aqui na América, acompanhou as visitas do Papa João Paulo II a Buenos Aires ( em duas oportunidades), a Montevidéu e a Mello no Uruguai; e a Florianópolis, em Santa Catarina.  Ele também participou de programas especiais, Salvador:13 Horas e Rio de Janeiro:13 Horas, e destacou-se em série de rádio gerada de Brasília,  (Rede Sul-Riograndense de Rádio/ Brasília:13 Horas) por ocasião dos atos de instalação da Assembléia Nacional Constituinte, em 1984.  Ele voltaria ao Distrito Federal,  juntamente com Clayton Rocha e Aldyr Garcia Schlee (comentarista convidado) para a sessão solene de promulgação da nova Constituição da República Federativa do Brasil.

Além das coberturas especiais ligadas à  Constituinte,  Fernando Lessa Freitas participou de inúmeras outras transmissões que foram geradas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e acompanhou, com vivo interesse, o debate comunitário em defesa da preservação do patrimônio arquitetônico de Pelotas. Num “ Treze Horas Especial”, gerado de Brasília e de Pelotas, ele conversou demoradamente com o Presidente Tancredo de Almeida Neves. Eles falaram de política e de amenidades, e não deixaram de trocar idéias sobre as construções históricas da cidade de Pelotas, elogiadas por Tancredo Neves, detalhadas por Fernando Lessa Freitas.

Até mesmo na praça pública a sua voz se fez ouvir, por ocasião de histórica campanha “ 12 Horas Beneficentes” que tinha por finalidade angariar recursos em favor da instalação de um novo Banco de Sangue para a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas. Ao lado de Clayton Rocha e de Norma Stone Gastal, esta última representando o Conselho de Entidades Assistenciais, ele fez valer a fôrça de sua mensagem, apelando à população no sentido de que Pelotas viabilizasse aquele antigo sonho da Santa Casa.  Os recursos foram obtidos, o Banco de Sangue foi instalado, e a verba foi viabilizada em doze horas de transmissão ininterrupta de rádio.

Em suas ações jornalísticas, durante os últimos dezoito anos, sempre esteve ao lado de seu amigo Clayton Rocha em busca de conquistas para a cidade de Pelotas. Numa  dessas lutas, nos anos oitenta, ele apoiou a idéia de criação de uma linha aérea Pelotas-São Paulo, e o “ Pelotas:13 Horas” encarregou-se de viabilizar, juntamente com as lideranças comunitárias, e com o apoio do Prefeito José Maria Carvalho da Silva, o vôo do avião Brasília, entre o Aeroporto de Pelotas e o de Congonhas, no centro de São Paulo.