ARTIGO – VIAGENS DO NADA PARA LUGAR NENHUM!

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VIAGENS DO NADA PARA LUGAR NENHUM
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Por Clayton Rocha
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A era de alguns inúteis sob a proteção do manto eleitoral.
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Não nasci ontem, e já tive vinte e poucos anos. Sei bem que até mesmo a juventude difícil já é uma festa, pois vive-se sonhando com grandes conquistas, além daquela sensação especial de que somos os donos do mundo.
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Esse filme vencido, o da juventude, ainda vive em nossa memória e nos ajuda a sobreviver, sobretudo a entender os adolescentes e – mais um pouco – a respeitar as histórias de vida das pessoas exemplares, tantas que são. Mas também nos torna exigentes demais diante daquelas pessoas deslumbradas com a sua própria juventude e com o seu poder, instigando-nos, a valer, a testar o seu possível despreparo para a missão, além de avaliá-los quanto à frieza desconcertante de algumas de suas atitudes diante das dores humanas.
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Digo isso – hoje – depois de ter trabalhado durante 24 horas ininterruptas diante de um computador caseiro, porque não aceito molecagem política. Vejamos, portanto, caro leitor, qual é o significado deste depoimento: Quando tomei a decisão de visitar a Santa Casa de Pelotas havia um motivo forte! Algumas centenas de mensagens de E-mail e de WhatsApp insistiam com uma só pergunta: – Por que só 10 leitos Covid instalados?
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Fui à Santa Casa na tarde de hoje e, devo confessar aqui, movido pelos outros, pelas perguntas dos outros, e também por conta das minhas dúvidas. E ouvi relatos corretos: A Secretaria Municipal da Saúde ofereceu 10 Leitos Covid completos, com ventiladores! Affonso Hamm, deputado Federal, que levou muito a sério a empreitada, conseguiu mais 10 ventiladores, estes obtidos junto ao Ministério da Saúde. Moral da história: 20 ventiladores, ao todo, garantidos.
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Mas quando deixei o hospital, carregado de anotações, não consegui esquecer da pergunta de tantos: – Por que só 10 leitos? Num município de 340 mil pessoas, mais os apoios hospitalares dados a outras cidades da Zona Sul. – Por que só 10 leitos? Por que não uns 30, uns 40 leitos?
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Assim cheguei ao estúdio improvisado de rádio na sala da minha casa, ainda envolvido pelas perguntas mentalizadas. E foi assim que – depois de postadas todas as notícias da tarde nas redes sociais, que se tornaram, digamos, uma espécie de Treze Horas de teclado e sem microfone – fiquei sabendo de algumas avaliações jovens e equivocadas, além de irresponsáveis, feitas por “celebridades” meteóricas locais, que me rotulavam, às gargalhadas, como uma pessoa voltada para a promoção de alguns políticos.
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Ora, ora, foram exclusivamente as perguntas de ouvintes que me levaram lá, e o fiz com seriedade e alto dever profissional. Bem ao contrário do comportamento costumeiro de uma meia dúzia de deslumbrados com um poder que acham que detém, sentindo-se no direito de rir e de debochar de terceiros.
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Aos que acham que tudo podem, talvez porque o poder fugaz e ilusório os tenha envolvido por inteiro, além de cegá-los diante das dificuldades dos assalariados que vivem em busca de saúde à porta dos hospitais, respondo com serenidade: É tempo de amadurecer, de trocar o sorriso fácil pela seriedade que a missão impõe, e de assumir as responsabilidades eleitorais. (Valendo ainda lembrar, todos os dias, que o poder é ônus, não bônus!)
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A esses jovens poderosos de plantão na esfera legislativa, e que acham que tudo podem, se é que o poder sempre fugaz e ilusório já os envolveu por inteiro, cabe aqui um conselho já tardio: – Rir de alguém é sinal de pobreza de espírito. Deve-se rir com alguém, não de alguém, como dizia Dickens.
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Fazer política, para alguns, especialmente nestas horas de dor e de perdas humanas, talvez seja uma brincadeira momentânea brotada da estupidez das urnas. Mas fazer jornalismo sério, não, isso não! Pois além de produzir memória, a atividade jornalística deve saber interpretar – e sem medos – os contundentes questionamentos do povo, desse mesmo povo que dá um cheque em branco ao portador através de seu título eleitoral, confiando cegamente nos líderes maiores de seu próprio destino.
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Aos felizardos de plantão, felizes portadores de sorrisos permanentes que bem retratam a escassa massa encefálica que os envolve, um sinal, a esta altura, até mesmo de piedade. Eles não sabem o que fazem, não sabem o que dizem, não interpretam bem os sentimentos alheios, não sabem ser o que são, e são os eternos viajantes de uma miserável viagem do nada para lugar nenhum. Pobres de nós, as vítimas da imaturidade, da arrogância, do despreparo e do atraso! (CR).