ARTIGO – “- VEJO A MORTE COMO LIBERTAÇÃO!” BORGES

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” – Vejo a morte como libertação!”
Jorge Luis Borges.

Clayton Rocha

Eu transmiti os funerais de Jorge Luis Borges naquele 14 de junho de 1986, Cemitério Plainspalais, Genebra, Suiça. Na condição de leitor voraz de suas obras, e de profundo admirador do escritor argentino, tal tarefa, ao microfone da rádio Gaúcha de Porto Alegre, e por determinação de Ruy Carlos Ostermann, passou a fazer parte da minha história de vida.

Quando Jorge Luis Borges desceu à sepultura, junto ao pé de um cipreste, inúmeros títulos de suas obras desfilaram em alta velocidade pela minha memória. Fixei-me, no entanto, numa só passagem deste símbolo da literatura argentina e mundial. E pensei, no ato, em trecho necessário, numa página viva que era resultado de sua alta criatividade: uma página de um livro que falava no significado do livro! Ali, naquela despedida, nenhuma outra citação teria condições de substituí-la. Borges e os livros tinham sintonia fina e permanente. Borges se doara por inteiro aos livros, e os livros esperavam pelo intelectual diferenciado que se expressava e se consagrava em muitos idiomas.

-” Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

Em César e Cleópatra, de Shaw, quando se fala da Biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. Isso é o livro. E é algo mais também: a imaginação! Que é o nosso passado, se não uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Essa é a função exercida pelo livro.

Borges vai, sua memória fica. Os seus livros encarregam-se agora de perpetuá-lo na memória da humanidade, celebrado mundialmente que é. Há silêncio em Plainspalais. Uma leve brisa acaricia os galhos dos ciprestes de Genebra. Jorge Luis Borges, o argentino nascido em Buenos Aires, faz agora o seu “Voo Livre”, o mesmo voo que é feito todos os dias pelo talento admirável desse extraordinário Deogar Soares. Borges, a partir de hoje, está livre dos desconfortos da vida física, pois encontra – finalmente – esse desejado sinal de alívio, ou seja, a libertação propiciada pela morte.
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Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo.
Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899.
Genebra, Suiça, 14 de junho de 1986.