ARTIGO – TREZE HORAS 41 ANOS – ELVIS

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TREZE HORAS 41 ANOS – ELVIS

Por Luiz Carlos Vaz *

Participo do Programa Pelotas Treze horas desde a jornada que realizou na China – Hong Kong – com a cobertura do Handover, em 1997. O Clayton e a equipe do programa ficariam na Ásia por muitos dias e as transmissões, naquela época por linha telefônica convencional, eram difíceis e complicadas, e o fuso horário dificultava ainda mais. Ele precisava de alguém que comandasse o programa aqui, caso as transmissões não pudessem ser realizadas no horário habitual das treze horas ou não ocupassem os 90 minutos do Debate. Aceitei a missão de ficar no estúdio do Banlavoura comandando o Treze, pelo tempo que fosse necessário. Já havia participado do Programa como entrevistado, conhecia vários integrantes, era ouvinte e fã das intervenções do Fernando Freitas.

Voltando da Ásia, o Clayton me convidou a permanecer e fazer parte da “Mesa do Treze”. Na mesma hora montei naquele belo puro sangue, que passava encilhado, sem pensar duas vezes. Ao longo desses 21 anos tenho defendido várias teses e usado e abusado da ironia para poder aguentar alguns colegas que defendem ideias ultraconservadoras. Como o lema do programa determina que o debate é livre e a opinião independente, eles também têm se esforçado para me aturar. Mas, me divirto mais do que me incomodo. Já briguei com o Clayton várias vezes, como não adiantou nada, risquei essa pauta do nosso convívio. Para desespero do José Gomes Neto, sou considerado pelos ouvintes a Estrela do Programa (ah, tá!!) que, segundo ele diz, brincando, esse status é motivado pela grande números de ouvintes bageenses que moram aqui, com os quais “combino para telefonarem ao programa para me fazerem elogios no ar” (risos, muitos risos).

Dessa forma sempre lembro ao Clayton e aos ouvintes que “tudo passa por Bagé”. Lá foi feita a primeira operação de troca de sexo no Brasil, em 1939, pelo médico João Batista Fico, assistido pelo cirurgião Menotti Médici, segundo relato do memorialista da cidade, Mário Nogueira Lopes, em um dos seus livros. A operação era tão inusitada que foi assistida até por outras autoridades locais… Foi em Bagé que caiu o balão do norte americano Steve Fossett, e que não foi o primeiro a cair na cidade… antes, em 1909, já caíra o balão Huracán, de propriedade do argentino Jorge Alejandro Newbery, e que empresta nome e símbolo a dois times de futebol, um da Argentina e outro lá da nossa cidade; o mais importante Eclipse Total do Sol do século XX aconteceu lá, em 12 de novembro de 1966; o pedaço da Lua com que Nixon presenteou o Brasil está onde? O famoso Juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, foi preso em Bagé, numa suíte do Motel Fliper, no ano 2000; em 2013, galinhas do distrito de Palmas, entraram em greve e começaram a botar ovos sem gema, como protesto por alguma coisas que não iam bem, segundo notícia publicada no Jornal Minuano; o campeão mundial Adriano Gabiru jogou no Guarany; os últimos governadores nascidos do sul do RS moraram em Bagé; Omar Shariff, criador de cavalos puro sangue no Haras Inshalla, passeava tranquilo pela Avenida Sete, sempre fotografando a arquitetura da cidade; Richard Gere, quando ia visitar sua namorada bageense, entrava tranquilamente na fila da Padaria Continental para comprar pão e dizia com um sotaque carregado, “Please, one brad d’água de meio quilo”… de modo que a cidade sempre se acostumou a conviver com personalidades de renome internacional, como o famoso Analista do Veríssimo.

Mas a tese que mais defendo, e que é séria, é a de que Elvis não morreu. Sobre esse fato já escrevi no meu blog, e reproduzo aqui, para que o pessoal pare definitivamente com essa história de que Elvis não está mais entre nós. Elvis, que mora em Bagé, completou 83 anos dia 8 de janeiro de 2018, comemorados numa pequena festinha onde compareceram apenas os seus vizinhos mais discretos.

Elvis Aaron nasceu gêmeo com Jessie Garon em 8 de janeiro de 1935. Jessie não chegou a ver a luz deste mundo. E esse fato foi suficiente para que Elvis desenvolvesse laços muito fortes com a mãe – e a família, até porque o irmão gêmeo, nascido morto 35 minutos antes dele, proporcionou uma enorme expectativa quanto ao nascimento do segundo gêmeo, Elvis Aaron que, para alegria de todos, nasceu forte e saudável.

Criado como membro da Igreja Assembleia de Deus, lá desenvolveu o gosto pelo canto e aprendeu muito sobre música. Mas Elvis, com seu divino dom musical, não se dedicou à música na igreja, e já em 1956 ficou famoso gravando Love me tender, sucesso até hoje. Elvis foi o símbolo rebelde da geração do pós-guerra. No exército americano foi usado como imagem de “rapaz certinho” em propagandas e em filmes. Mas isso não mudou sua verdadeira vocação que era a de ser o Rei do Rock. O fato é que as moças enlouqueciam e perdiam a voz de tanto gritar em seus inúmeros shows pelo mundo afora. Seu modelo de corte de cabelo foi copiado por milhares de rapazes em todo o planeta (e, dizem, até fora dele) e o seu modo de vestir e cantar criou estilo entre todas as bandas que queriam fazer uma performance parecida com a do Rei do Rock.

Mas isso tudo cansa. Afinal foram décadas de carreira, gravações, filmes, estúdios, assédio de fãs… Chega um ponto em que todos querem sossego. E com Elvis foi assim. Noticiaram sua morte em 16 de agosto de 1977 e Elvis se recolheu. Sumiu. Nunca mais apareceu. Contam que já foi visto na Jamaica, na Índia, no Turquistão… mas nós, que somos de Bagé, conhecemos um velhinho simpático, ainda meio cabeludo, que seguido é visto passeando pela Avenida Sete sempre com generosos óculos escuros. Ele procura ser discreto, não chamar a atenção das pessoas. É o Elvis. Sim, o Elvis Presley. Não acreditam? Elvis não morreu! Vive e mora em Bagé, numa modesta casa, para não chamar a atenção, ali perto da Vila Kennedy.

Vizinhos contam que seguidamente, em noites de verão, é possível ouvi-lo cantar. Ele já não tem mais a mesma força na voz, dizem essas pessoas – afinal, ele está com 83 anos, mas interpreta com a mesma emoção sua canção preferida – e nossa também – My Way.

É, parece mentira! Mas Elvis não morreu mesmo. Mora em Bagé. Afinal, que outro lugar ele poderia escolher?

Luiz Carlos Vaz

*Luiz Carlos Vaz, é Jornalista, Fotógrafo e Mestre em Memória e Patrimônio. Foi professor do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas. Na Universidade Federal de Pelotas, atuou no Centro de Teleducação, na Assessoria de Comunicação, na Rádio Federal FM e foi diretor da Editora Universitária, quando integrou a presidência da Associação de Editoras Universitárias da América Latina e Caribe – EULAC. Foi Secretário de Comunicação na gestão do prefeito Fernando Marroni. Publicou artigos sobre Fotografia e Arquivos Fotográficos Familiares em revistas científicas e lançou em 2016 o livro de fotografias, Fifty-Fifty. Participa como integrante da Mesa de Debates do Pelotas 13 horas desde 1997.