ARTIGO – SEU ADEMA

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Ivan Duarte é psicólogo, presidente do PT-Pelotas e ex-vereador.

SEU ADEMA

Ivan Duarte*

Admar Duarte, o Seu Adema, era um homem excêntrico e autêntico. Tinha um comportamento e idéias muito originais, e não se importava muito com o que pensavam dele. Era assim…e pronto! Nasceu em Bagé, em 1923 e faleceu em 2004, aos 81 anos, na sua terra natal.

A história do Adema, Seu Adema ou Velho Adema, como todos lembram dele (o apelido ganhou ainda guri , por conta do nome: Admar), começa em 19xx, quando herdou uns 110 hectares de seu pai, mais ou menos na fronteira entre Pinheiro Machado e Bagé, às margens do pequeno Rio Candiotinha.

O Pai do Adema era Simão Duarte, um uruguaio de Melo, e a mãe, Medoura Souza, nascida na Vila Freire, hoje município de Cerrito. Pelos poucos registros e memórias, tudo indica que foi o trem que saia de Rio Grande, passava em Pedro Osório, e se ia, rumo à fronteira, que tornou possível o casamento. Nomes feios, ou pouco comuns, foram estendidos aos filhos. Além do Admar(que virou Adema), tiveram outros filhos: Rizoleta, Ariosto, Valter e Ormecinda!

Em 1949, o jovem Adema resolve conhecer as “Águas Termais de Iraí”, lá na Fronteira com Santa Catarina. Em meio a banhos em piscinas naturais de água quente, conheceu a jovem e bonita Zaida Dornelles, filha da Dona Felícia e do Seu Marçal, um estancieiro de São Borja. A troca de olhares virou troca de cartas e, em seguida, deu em casamento. Casaram no ano seguinte, em Alegrete, onde morava boa parte da família da noiva. Dona Zaida guardou as cartas irresistivelmente sedutoras e com uma letra linda feita com caneta de pena. O jovem Adema, lá de Candiota mostrava, na correspondência apaixonada, que era um jovem culto e galanteador.

Casaram e foram morar na terrinha dele. As 15 braças que tinham como lindeiros o Orvandil Barreto Luz e o Olcote Lima. Em 1951, Zaida e Adema acordavam às 5 horas da manhã e estendiam a “lida”impiedosa e pesada até escurecer. Tirar leite das vacas, cortar lenha a machado, plantar, colher, carregar, lavar roupa… produziam grande do que comiam e ainda vendiam parte da produção. Eletricidade? Nem em sonho…

Um belo dia, no começo da década de 60, são surpreendidos com a chegada de máquinas enormes – patrolas, caçambas, carregadeiras, tratores… se instalando nas suas terras, a um quilômetro de sua casa. Era a FAMA, uma empresa portuguesa, construtora de estradas.

Surpreso, decidido e furioso, o Adema (que guardava algumas espingardas e revólveres em cima dos guarda-roupas) colocou na cintura o seu “Smith32” na cintura e foi lá saber “quem autorizou aquela esculhambação”??? O Manuel Português, que mora até hoje ali perto do Bar do Enecy Brum, conta que a primeira chegada daquele “gaúcho nativo”, que parecia um bandoleiro com chapéu grande, falando alto e armado, causou medo na portuguesada… Depois de algum tempo, quando o Adema entendeu que era uma desapropriação de terras feita pelo Governo Federal, para construir a estrada Pelotas – Bagé, e que ele ia receber pelas faixa desapropriada, se acalmou. Até porque não tinha escolha. E porque percebeu que o progresso viria, inevitavelmente…Acabou amigo do Engenheiro Barbosa, responsável pela obra.

E o progresso veio! E como veio! E veio bem pra cima das terrinhas do Adema. Primeiro foi a “carreteira” que era como chamavam a estrada. Em seguida, a RFFSA dividiu em três o que a estrada já tinha dividido. Mais tarde, no final dos anos 70, veio a construção da Vila Operária. Logo, uma estrada para ligar a Vila até a Usina. Aos poucos, tudo era desapropriado e fracionado. Em meio a tudo isto, construíram uma Fábrica de Cimento, pertinho dali.

Seu Adema e Dona Zaida, gradativamente, deixavam as lidas campeiras e viravam comerciantes. Eram milhares de operários e novos moradores, que precisavam de leite, pão, carne , e qualquer coisa que pudesse ser comercializado. Aquele pedacinho de mundo , rapidamente deixava de ser “campanha”, com uma fazenda lááá, e outra ainda mais longe, para se urbanizar.

Por conta destas mudanças, em 1964, o casal resolve mudar-se para a beira da estrada. Seu Nadir Lopes, carpinteiro dos bons, foi quem ergueu, junto com o amigo Adema, toda de madeira, a casa de 3 quartos, colada no Armazem. E assim surgiu o famoso “Bar do Adema”. Vendia-se o que pedissem: Detefon, Boa Noite, Flit (para os mosquitos) Gamerial (para as pulgas), querozene, fumo em rama, em corda ou picado e Papel Colomy, Urinol, Gumex, alguma coisa de construção, cachaça em copo ou em garrafa, gazoza, pedra de anil, emplastro Sabiá, algum remédio (“- é prá gente ou prá bicho?”, perguntava o bolicheiro), tudo que é tipo de bolacha, fruta e legumes…além de arroz-feijão-sal-açúcar-bolacha-ervamate…tudo a granel, pesado na frente do freguês e enrolado em papel-manteiga…O que mais saía era ovo na Salmoura e os cigarros Continental e “Oliú” (Era Hollywood…)

A esta altura, Seu Adema e Dona Zaida já tinham 9 filhos: Zaida Felícia (quem hoje mora na Alemanha), Marta Iza (Porto Alegre), Dagmar Jorge (Tramandaí), Paulo Simão (que segue tacando o Posto de Gasolina criado pelo Seu Adema), Ronaldo (Foz do Iguaçú), Ivan Admar (Pelotas), Adval (Candiota), Jesus Ricardo (falecido em 1992), e a Ana Flávia ou Polaca (Candiota). Como se vê, os gostos por nomes feios parece genético. À medida que chegavam em idade escolar, iam morar em Bagé, depois Pelotas, para estudar. Ainda tiveram vários outros, que a Dona Zaida “adotava”.

A quantidade de filhos não impedia o Seu Adema de mostrar seu empreendedorismo. Além do Bar e Armazém , fez, inventou, tentou ou criou quase tudo: leitaria, padaria, açougue, borracharia, oficina, tornearia, olaria, transporte…além de incursões pela construção civil, agricultura, piscicultura e fruticultura… Porém, o que vingou mesmo, foi o Posto de Gasolina.

No Posto de Gasolina, Seu Adema exercita seus dons musicais. Tocava uma gaita Todeschini de 80 baixos. Na verdade, tentava…muito mal e com muita careta, para se concentrar nas notas). E não tolerava quem chegasse buzinando em demonstração de pressa . Em meio a alguma notas da cordeona, o apressado iria ouvir, em gritos roucos:
– Quer vender a buzina ? Tá com pressa, acorda mais cedo! Agora, vou terminar minha “marquinha”! (musiquinha).

E que esperassem… Se bem que seus amigos (não apressados) também tinham que esperar o fim da “marquinha”…

Aliás, tanto no Posto como no Armazém, ele gostava de florear a sua gaita. E , volta e meia, aparecia um gaiteiro (mesmo!) com algum violão e pandeiro, e a “Bodega” virava “Casa de Espetáculo”, com trovas, declamações e cantorias. Tudo com luz de liquinho, que iluminava conforme a posição que tivesse colocada, e se a “camisinha do liquinho” tivesse boa…O mais interessante era a fusão e o ecletismo cultural. Engenheiros europeus e do centro do Brasil tomavam “canha” e cerveja com peões das Fazendas ali da volta e operários de tudo quanto é canto…

Na década de 70, realizou três bailes. Com fins lucrativos, claro, mas movido pela incansável busca de experiências em novos negócios… E contratou os melhores “conjuntos” da região! Os Lobos, de Pelotas e Os Jovens, de Bagé. O terceiro, foi em parceria com o vizinho Epitácio Cunha, o “Macaco”. Foi o “Baile dos Morenos”. Nenhum dos três bailes deu muito sucesso à curta carreira de “Produtor de Eventos Dançantes” do Adema. E o terceiro baile, ainda deu “cada pauleira!”…. Mas, a Dona Zaida até que ficou satisfeita com farta venda de seus famosos e enormes pastéis, pedaços de linguiça e galinha assada, além dos ovos na salmoura, das galinhas que ela criava e que ela mesma preparava….

Mas foi sentado no sofá modesto do Armazém, e depois no Posto de Gasolina, tomando chimarrão – que tinha 3 horários: 6 da manhã, 11 manhã e 6 da tarde- que seu Adema mostrava as três características que o tornaram uma figura inesquecível para quem o conheceu: o contador de causos inacreditáveis, a personalidade inquieta, inventiva e o comportamento exagerado e explosivo..

Certa feita um Engenheiro da CEEE estacionou seu Monza na bomba e pediu ao Seu Adema que completasse o tanque. Ao perceber que o proprietário e frentista estava fumando, não resistiu: – Mas, Seu Adema, o senhor está colocando a mim, minha esposa e minhas filhas , em risco…Além do senhor e de todo seu patrimônio… Este seu cigarro pode causar uma explosão! Com aquela voz rouca e firme, ele retrucou: – Tu nem parece engenheiro! Então, tu não sabes que o fogo só acende, se tiver faísca ?!?!

E diante do olhar a-p-a-v-o-r-a-d-o de toda família e do engenheiro, ele demonstrou sua teoria…Apagou o cigarro no jato de gasolina que entrava no tanque. O homem nem quis o troco, arrancou, e jurou que nunca mais abasteceria ali. Como só havia aquele posto na região, voltou. Mas sempre evitando aquele frentista fumante…

De outra feita, farto de ser trapaceado, ele colou na bomba de gasolina (com goma arábica ou tenáz), todos os cheques que os bancos devolveram…É o único caso do mundo em que a marca Ipiranga foi coberta por cheques sem fundo. E ali ficaram, até que a chuva e o sol apagasse os nomes…

Odiava quem combinasse um valor ou prazo e não cumprisse. Era briga, na certa. E outra coisa, se ele fosse com a cara, não precisava documento. Bastava a combinação. Mas tinha que ser, rigorosamente como fora combinado. Andava, um dia, em Bagé , comprando uma peça para seu “Auto” (carro, para os mais novos), encontrou um senhor, que quis lhe pagar uma dívida. Prontamente, Seu Adema respondeu: – O Senhor não ficou me devendo lá em Candiota? Então eu quero receber lá! Ai do “vendedor” (era assim que ele chamava os representantes comerciais) que lhe vendessem algo e depois não entregassem (o que é prática comum, em função de estoques)… Ou do “vendedor” cuja empresa atrasasse uma entrega…

Também teve um curtíssima incursão pela política no ano de 1982. Após quase duas décadas de ditadura, quando os brasileiros foram chamados, novamente, a votar. As eleições tiveram voto vinculado. Significa que, cada eleitor poderia votar em vereador, prefeito, deputado estadual, federal e senador , mas todos do mesmo partido. Uma tarde, aparecem no Posto o Prefeito de Pinheiro Machado, Laudelino Moura, o Senador Carlos Chiarelli e o Candidato a Governador Jair Soares, e outros membros do PDS, antiga ARENA, hoje PP, para convencer o Seu Adema a ser candidato a vereador. Ele nunca revelou porque, mas aceitou. Alguns dizem que foi pela amizade antiga com Laudelino.A candidatura foi um fracasso… construído pelo próprio candidato. Foi a campanha mais discreta que se tem notícia naquelas bandas. O candidato ria de suas promessas, rabiscava os seus santinhos (que o PDS lhe doava), e se auto-proclamava “sem-vergonha” por fazer parte das eleições. E ria muito de sua candidatura e de seus correligionários. Quando perguntavam:

– Seu Adema, o Senhor não vai fazer campanha?

– Quem quiser votar em mim, que descubra… E soltava uma gargalhada rouca. Assim era o Adema. Um homem íntegro, reto, rígido, ao mesmo tempo que parecia não ligar para quase nada. As únicas vaidades que demonstrava era andar bem barbeado e usar sempre um boné para cobrir a careca. De resto, não ligava para aparências, dispensava protocolos, ignorava convenções. Pouco se importava com o impacto do que pensava, ou da forma que agia.

A vida de Seu Adema e de sua Dona Zaida, com certeza, dariam um livro e até, um filme. Até o fim de sua vida nunca acreditou que o homem chegou na lua. E sempre que podia deixava transparecer que não gostava “do americano”. Assim ele manifestava seu antiamericanismo. Durante a Guerra do Vietnã (década de 60) exigia silêncio no Bar para tentar sintonizar o Correspondente Renner na Radio Guaíba, quando fazia caretas cerrando os olhos e franzindo a testa enquanto colava o ouvido no rádio Itamarati valvulado, e demonstrava satisfação pelas derrotas americanas contra os Vietcongs. Desta e de outras épocas, guarda-se histórias fantásticas do Seu Adema (aqui, contaremos tres):

Bem jovem, quis provar a simplicidade do princípio do pára – quedas. Foi impedido – e salvo – pelo cunhado Clair Farias e outros, pois iria se jogar de um lugar muito alto, com um guarda-chuvas reforçado por cordas. Mais tarde quando tocavam no assunto , Seu Adema não mostrava mais interesse no tema…

A segunda história, mostra seus conhecimentos e interesse pela política internacional. Era anti-americano, mas não simpatizava com os russos. Durante a Guerra Fria, quando as duas potencias se ameaçavam e ele temia uma terceira Guerra Mundial, chegou a pensar num projeto de abrigo anti-nuclear, pois temia que os efeitos de bombas atômicas chegassem a Candiota. O “abrigo” seria construído onde hoje é o trevo de acesso à Vila Operária. Segundo Seu Adema , ali tem uma formação rochosa que tornaria possível tal edificação. De pedra, com paredes muito largas e com túneis longos… Alguns moradores ali da região, como o compadre Francisco Magalhães, que todos os dias tomava uma cerveja no bar, acompanhado do filho Vanderlei, que preferia uma Minuano Limão , ouviam e ficavam preocupados. O abrigo anti-nuclear não saiu, mas em 1990, ele e o Sergio Etcheverria construíram, com pedras que eles mesmo buscavam, o prédio que hoje abriga o Restaurante Paim (as paredes tem cerca de 40 cm…levaram quase dois anos construindo…).

A última, e que ele levava muito a sério, foi a chuva de peixes que assistiu. Se quisessem vê-lo chateado ou brabo, era só duvidar ou debochar, depois que ele contasse a historia …
– Como foi, Seu Adema?
– Uma tarde muito quente, eu estava sentado, e vi que se armou uma nuvem muito carregada, lá para os lados de Torrinhas, Jaíba, Porongos... Aquilo foi rápido…Escureceu, caiu uma “tromba d’água” e parou… Minutos depois, muitos pássaros começaram a sobrevoar aquele lugar. Montei no cavalo e fui lá. Era um lugar alto… Vi milhares de peixinhos sendo comidos pelos pássaros… Com muito cuidado e respeito, alguém arriscava uma dúvida…

– Mas…Seu Adema…não poderia ser uma barragem de açude que estourou ?
E ele rebatia , firme:
– E tu já viste água ir para o alto? E ainda, com peixes? E estava encerrada a conversa!

Dona Zaida, cuja generosidade impedia de dizer não a qualquer coisa, a qualquer pessoa…acompanhou tudo nos 54 anos que estiveram casados. E nunca disfarçou a admiração que tinha por ele, que deve ter começado na primeira conversa lá em Iraí…Ou na primeira carta… O fato é que ela nunca desmentiu nenhuma história do Seu Adema…

*Psicólogo, presidente do PT-Pelotas e ex-vereador.