ARTIGO – O POVO DO RADINHO

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“Bagé, maio de 1957: João Carlos Cazarré, aos 29 anos, diante do microfone da emissora em que trabalhava.” Foto: Arquivo de Lourenço Cazarré.
Jornalista e escritor Lourenço Cazarré: Credito: Barbara Cabral

O povo do radinho

Lourenço Cazarré

Há muito penso escrever uma crônica, com o título acima, para falar da paixão dos gaúchos pelo radinho de pilha. Hoje, aqui vai ela.

Só morei em duas unidades da federação brasileira além do Continente de São Pedro: Santa Catarina e Distrito Federal. Em nenhuma delas detectei o amor que a gauchada nutre pelo rádio. Em Pelotas, onde morei até 1976, onde quer que se fosse sempre havia um aparelho ligado por perto.

Mas eu quero falar aqui mais especificamente do radinho de pilha.

Além do rádio principal, que antigamente ficava nas salas, o pelotense tinha (será que ainda tem?) o seu radinho de pilha, que o acompanhava nas suas andanças diárias. Falo com conhecimento de causa porque meu pai e meu avô era ouvintes fanáticos.

O vô Leovegildo Cazarré, já aposentado como sargento da Brigada Militar, passava o dia se movimentando pelo pátio da nossa casa naquela rua (Rafael Pinto Bandeira?) que desce em direção ao Pepino e passa ao lado do Abriguinho de Menores. O velho cultivava uns canteiros de verduras e cuidava de uma dezena de passarinhos. Ora escavava um canteiro, ora limpava uma gaiola. E assim passava grande parte do dia. Invariavelmente arrastando consigo o seu radinho de pilha.

O meu pai, João Carlos, depois de aposentado, também gastava boa parte do seu dia escutando rádio. De manhã cedo, antes de levantar; na hora do almoço e depois da sesta. Quando conversávamos, ele estava sempre bem informado sobre os assuntos do país e do mundo pelo que escutava nas emissoras de Pelotas e Porto Alegre.

Lembro que meu pai foi um dos usuários pioneiros do radinho de pilha. Comprou um – se não me engano de contrabandistas do porto de Rio Grande – quando ainda morávamos em Bagé (lá pelo final dos anos 1950). Custou uma banana!

Meu pai, que se sustentou a vida toda como comerciário, trabalhou em rádio quando morou em Bagé na condição de vendedor de produtos agrícolas e ferragens do Bromberg (grande magazine à época) para aquela região fronteiriça. Ele produzia e apresentava um programa (matutino, dominical) chamado Clube do Guri. Como o nome informa, era destinado à gurizada. Tenho nos meus arquivos fotos do pai transmitindo um desfile militar – a Rainha da Fronteira sediava naquele tempo quatro ou cinco quartéis. Pelo que me lembro, a emissora do pai se chamava Difusora.

Com base nessas lembranças muito ralas de minha infância em Bagé, criei um personagem radialista do meu livro Um velho velhaco e seu neto bundão.

Pulo agora uns vinte e tantos anos e um dia me vejo indo a um Grenal em Porto Alegre. (Detalhe: assisti a menos de meia dúzia de jogos de futebol quando adulto). Espantou-me o fato de que, na entrada do estádio do Grêmio, havia sujeitos vendendo radinhos de pilha. Eram baratinhos. E saiam como pipoca quentinha!

Dentro do estádio lotado, percebi que a maioria dos torcedores escutava uma mesma estação. Quando ocorria um gol, o berreiro do locutor contagiava o estádio todo. Foi uma experiência marcante.

Nunca tive rádio. Mas ouço sempre que estou no carro. Aqui em Brasília escutava uma emissora de um velho jornalista (Mário Garofalo) que era conhecida pela boa música. Depois que essa rádio desapareceu, passei a ouvir os noticiários da CBN. Ora, noticiário quer dizer: tragédias – humanas, climáticas, políticas e econômicas. Cansei. Nos últimos dois anos só escuto a Rádio MEC, do Rio, que toca exclusivamente boa música brasileira ou clássica.

Mas como descobri a tal rádio MEC? Fui num dia em que levei o carro da Luísa para lavar e ele voltou sintonizado na grande rádio carioca, Foi assim: graças ao acaso – um sofisticado lavador de carros, que curtia música da mais alta qualidade – que mudei para sempre o dial do meu próprio automóvel.

Mas, afinal, por que resolvi escrever hoje essa historinha? Porque no domingo, 6 de novembro, o longevo Pelotas Treze Horas soprou quarenta e quatro velinhas. É uma bela façanha. Então encerro dando meus parabéns aos radialistas Clayton Rocha e ao Paulo Gastal (parceiros que acolhem generosamente minhas crônicas) que todo dia, em uma hora e meia, escrevem mais um capítulo da vida da Princesa do Sul. Vida longa ao Treze!

*Jornalista e escritor