ARTIGO – O GARIMPEIRO DE LIVROS QUE REESCREVEU A HISTÓRIA DE PELOTAS

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Do Livro Mais Perfeito que o Paraíso e outros desatinos de Pelotas

O garimpeiro de livros que reescreveu a história de Pelotas

“Livros antigos, é verdade, mas só ser antigo não significava nada…” O último caso da colecionadora de livros, John Dunnig.

Klécio Santos*

Há quase uma década, em pleno inverno de Pelotas, um sebo de apenas 40 metros quadrados abrigava um grupo de amigos ao redor de uma TV portátil, emoldurados (para não dizer espremidos) por milhares de livros. Na telinha, um dos jogos mais vibrantes válido pelas quartas de final de uma Copa do Mundo: Uruguai e Gana. A pequena torcida, majoritariamente da Celeste, dividia o chimarrão da marca Baldo (erva padrão uruguaio, claro!), assistindo meio que de soslaio aos lances inacreditáveis da partida, enquanto nos raros momentos de distração procurava nas estantes alguma raridade bibliográfica.

Para quem não lembra: após o empate em 1 a 1 no tempo normal, no último minuto da prorrogação, Luís Suárez, que nem era tão famoso como agora, defendeu a bola com as mãos em cima da linha. O atacante foi expulso, e os ganeses já comemoravam a classificação. A bola, porém, foi chutada para fora e, nos pênaltis, o Uruguai venceu por 4 a 2, com direito à cobrança com cavadinha de Loco Abreu, um cigano do futebol.

O grupo vai ao delírio, enquanto nosso anfitrião Adão Fernando Monquelat apenas observa, impávido como Bruce Lee. A atmosfera do lugar, contudo, tornou ainda mais mágica aquela epopeia do futebol. Entre os convivas, o consagrado escritor boliviano José Montes Vannuci, Prêmio Casa de Las Américas, com Jonás y La ballena rosada ou anônimos como Luiz, o Grande, que publicou de forma artesanal o livro A Mulher e o Diabo, ambos, habitués da livraria.

A identificação do livreiro com o Uruguai não é apenas um modismo acentuado na Era Pepe Mujica. Em uma época pré-internet, Monquelat foi responsável por introduzir no cotidiano de Pelotas autores uruguaios como Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Aníbal Barrios Pinto ou Fernando O. Assunção, cujas obras eram disputadas à tapa pelos amantes da literatura platina.

Foi ainda em Montevidéu – depois de 145 anos de grande esforço de bibliófilos e pesquisadores -, que, em 1992, a arte do garimpo de Monquelat mexeu com o universo literário gaúcho ao localizar o único exemplar até hoje conhecido de A divina pastora, publicado em 1847, do escritor José Antônio do Vale Caldre e Fião, um gaúcho que vivia na corte, no Rio. A obra é o segundo romance na história da literatura brasileira, uma viagem pelas vielas de Porto Alegre e seus arredores, crônica de um amor contrariado. A descoberta do Santo Graal do universo literário gaúcho – mesmo como todas as nuances de um romance de Umberto Eco ou do seu filme predileto, O grande portal, com Johnny Depp – por incrível que pareça, não estufa o peito de Monquelat.

Com o passar dos anos, o livreiro, hoje com 72 anos, aprimorou sua faceta de pesquisador (é isso que o orgulha), dando um novo sentido para a História de Pelotas, contada pelo viés dos rejeitados, dos que sempre ficaram à margem da opulência dos barões do charque e da riqueza que jorrava da matança dos bois. Uma gama de excluídos que Monquelat recuperou ao contrariar a visão dos que optaram por exaltar só a pompa através de histórias dos filhos que estudavam na França e as moças que apreendiam piano. Ao revisar a história com maestria, Monquelat trouxe à tona uma Pelotas obscura, embalada pelo batuque dos escravos e das festas e orgias nas tabernas.

Mas, voltando aos anos 1990. À época, a livraria ganhou o nome do proprietário. Afinal, a notícia correu o mundo literário, e nada melhor que investir na própria marca. Monquelat também já dava sinais de sua admirável ‘ranzizice’ e não aguentava mais ter que dar explicação do porquê sua livraria se chamava Lobo da Costa, já que ficava na Rua Dom Pedro II. E que não era por causa da rua, mas em homenagem ao ilustre poeta marginal Lobo da Costa. Hoje, a Livraria Monquelat situa-se na Telles, 558, na muvuca universitária, entre a Odonto e a Católica. Apesar de o nome ser meio afrancesado, vem do italiano. O bisavô se chamava Domenico Monchelato, sapateiro, que imigrou para o Sul e desembarcou em Buenos Aires, em 1886.

Fui editor do nosso personagem retratado aqui, no Diário da Manhã, quando criamos o suplemento DM Cultura, a coluna “Homens versus livros”, com a figura de um Voltaire à espreita. E acompanhei a publicação de Novos Textos Simonianos – Contos Urbanos e Poesias de J. Simões Lopes Neto, um livreto com apenas 200 exemplares, que reúne poemas como “Revé” (“Eu não gemo. Bem sei que não choras…/Nem te importa o meu cismar. Sigo a miragem: Onde não chega o olhar, prossegue o pensamento”) e “Dúvida”, ambos publicados no jornal A Pátria, em 1888, além do primeiro da série “Balas de Estalo” publicados no mesmo ano em formato de triolé.

Também foi vasculhando jornais como um caruncho que Monquelat encontrou no jornal Radical o texto urbano “Na Lagoa…do Fragata”, atribuído a Simões, escrito com o pseudônimo desconhecido João Felpudo e, agora, mais recentemente, nas páginas do Correio Mercantil, de 1900, o texto A família Marimbondo, com a marca de Serafim Bemol, com quem o autor grafou boa parte de sua obra teatral. A família Marimbondo foi reeditada durante as comemorações do Biênio Simoniano 2015-2016 (os 150 anos do nascimento e o centenário da morte do escritor).

Suas revelações sobre Simões, porém, não param por aí. Vão de curiosidades sobre a vida do genial escritor até a rigorosa pesquisa que demonstra que o personagem João Cardoso, eternizado no texto “O Mate de João Cardoso”, foi um dos pioneiros na fabricação de charque no Estado, dono de terras e escravos às margens do Rio Piratini, nas imediações de Pelotas, onde a indústria saladeril tornou-se a alavanca da economia gaúcha.

Aliás, o tema das charqueadas é uma das obsessões de Monquelat. Além de desconstruir o mito de que a vanguarda da atividade pertence a José Pinto Martins, português que teria desembarcado no Sul fugindo da seca no Ceará, em Senhores da carne – na minha opinião, sua obra mais emblemática, junto com o inédito, mas já no prelo, Aprincesa do vício e do pecado – Monquelat comprova que estancieiros abolicionistas gaúchos trocaram o discurso pelos grilhões, mantendo escravos e transferindo suas propriedades para o Uruguai, entre eles Antonio Gonçalves Chaves, o anfitrião do viajante e naturalista francês Auguste Sain-Hilaire

As descobertas de Monquelat, porém, não estão só restritas aos vestígios do universo que cercam a obra de Simões, nem às origens das charqueadas ou mesmo da escravidão, caso de Notas à margem da História da Escravidão. Com uma obra construída a partir de pesquisas em jornais e documentos antigos, Monquelat tem se dedicado ao cotidiano de Pelotas e suas idiossincrasias, através de obras como Pelotas no tempo dos chafarizes, Pelotas dos excluídos e As praças de Pelotas, algumas em parceria, outras em voo solo, algo que fez com certa independência em peças teatrais como “No Más…Uma cena gaúcha nos anos 1980” ou com a publicação das novelas Maiêutica e Fóquiu & Company nos anos 1990. Em ambos os lançamentos, era como uma volta ao tempo em que a literatura era discutida em ambientes soturnos, com a atmosfera de antigos cafés e casas noturnas, com aroma de absinto, tão bem representados pelos saudosos Praça XV e Livraria Don Quixote.

Desde que esse ex-colecionador de gibis ousou sair detrás do balcão e se aventurar como escritor, o lado obscuro e menos sofisticado de Pelotas ganhou outro charme, desprovido do glamour tedioso descrito pelos herdeiros da oligarquia. O lado B de Pelotas foi enfim – e continua sendo – desnudado pela digital do nosso enfantterrible, que apesar de tudo, mantém a simplicidade e a rotina de abrir sua livraria, sempre servindo um mate amargo, com erva padrão uruguaio, e uma boa prosa, é claro.

*Jornalista